| |  |
Chile:
país de contrastes e belezas
 Por
Márcia Busanello Fotos: Alessandro Capella Na
página inicial do site do Serviço
Nacional de Turismo do Chile está escrito "Chile: naturaleza
que conmueve". Certíssimo! O Chile, quase nosso vizinho, é
um país de natureza belíssima, comovente mesmo; e contrastante.
Para começar, é um país estreito (sua largura média
é de 177kms) e comprido. Faz divisa com Peru, Bolivia e Argentina. Está
literalmente entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. Na verdade,
no Chile há duas cordilheiras paralelas - os Andes e a cordilheira da Costa.
Em meio a elas há um vale, que no sul se une ao mar, no Golfo do Corcovado,
formando uma zona de arquipélagos, penínsulas e fiordes. Fazem parte
de seu território também, entre outras ilhas e arquipélagos,
as famosas Ilha de Pascoa (Rapa Nui) e o arquipélago Juan Fernández
(calma, você já vai saber porque ele está citado aqui).
Não
só, mas também por causa dessas particularidades geográficas,
o país tem uma variação climática imensa. Do Deserto
do Atacama (Norte), à Patagônia (Sul), há uma variação
considerável de temperaturas médias e, principalmente, de umidade.
Se no primeiro não chove nunca, no segundo chove abundantemente. Isso interfere,
como não poderia deixar de ser, na cor e no jeito das cidades, nas atividades
desenvolvidas, na vida das pessoas. As
doze regiões O
país está dividido em regiões, numeradas de I a XII, a partir
da divisa com o Peru, ao norte. Da Região I (extremo norte do país)
à Região III, se estende uma planície desértica, com
nenhuma chuva e temperaturas médias de 16ºC que vão diminuindo
à medida que se sobe a cordilheira. Aliás, subindo em direção
aos Andes encontra-se o altiplano, fascinante com seus lagos e planícies
de sal e, ao longe, os picos nevados (alguns dos picos mais altos dos Andes encontram-se
nesta região), além de inúmeros vestígios bem conservados
dos povos indígenas que habitaram a região. É aqui também
que está localizada San Pedro de Atacama (uma cidade num oásis),
capital arqueológica do Chile e uma das cidades mais interessantes de se
conhecer. Da
Região III até mais ou menos as regiões IV e VI, entre as
quais se encontra Santiago, as chuvas são de mais ou menos 113mm (para
entender melhor o que significa isso, pense que a precipitação pluviométrica
média do Brasil está em torno de 1000mm). O clima é semi-árido,
as montanhas são cheias de pedras, cactos e arbustos baixos e retorcidos.
Mas há rios, e nos vales desse trecho do território fabrica-se o
Pisco, a bebida mais tradicional chilena, um destilado feita de uvas cuja forma
de consumo mais famosa é o Pisco
sour, que leva limão e açúcar e é semelhante
à nossa caipirinha (delicioso!). Nas regiões mais próximas
a Santiago, por sua vez, encontram-se a maior parte das famosas vinícolas.
Santiago
Antes
de falar de Santiago vale lembrar que o Chile é considerado o país
mais seguro da América Latina, e também o com melhor distribuição
de renda, portanto, com menos diferenças sociais. Disso resulta que Santiago,
apesar de não ser muito diferente das grandes cidades brasileiras, é
uma cidade limpa, organizada e segura. Anda-se com tranqüilidade pelas ruas,
inclusive à noite e no centro. Aliás, uma das coisas que mais chama
atenção é que nos finais de semana à noite as pessoas
vão passear no centro, há feiras de livros nas ruas e gente vendendo
uma infinidade de badulaques. Cercada
de montanhas, que no inverno ficam cobertas de neve, Santiago, apesar de ser bastante
poluída, proporciona belas vistas. E o metrô é excelente,
limpo e rápido, vai para todos os cantos da cidade. Dá para conhecê-la
toda de metrô; inclusive a mais famosa vinícola chilena - a Concha
Y Toro, é acessível de metrô. (Veja
como) De ônibus é possível chegar também ao
Valle Nevado, a Portillo e a outras estações de esqui que ficam
a cerca de 1 hora da capital. No entanto, elas só valem realmente à
pena no inverno. Imperdível mesmo é Valparaíso,
que fica a 90 minutos da capital e é uma cidade surpreendente, com seus
inúmeros elevadores, as casas encravadas nos morros, umas sobre as outras,
a vista surpreendente do mar e do porto. O
inconveniente é que Santiago é uma cidade cara, mesmo para quem
está habituado a viver em capitais como São Paulo. Para hospedar-se
razoavelmente bem é necessário desembolsar pelo menos 70 dólares
para um casal (ou duas pessoas). Há uma infinidade de turistas de várias
partes do mundo que ficam nos hotéis e hospedarias do centro, que custam
de 40 dólares a 60 dólares por casal (ou duas pessoas). Dá
para encarar por uma ou duas noites, mas não espere nada muito bom. Nada
que se pareça com uma pousada de cidade turística ou com um desses
hotéis simples e moderninhos que temos em nossas capitais, e que custam
mais ou menos isso. Comer
também é bem caro em Santiago. Aliás, a cidade é lotada
de lanchonetes e redes de fast food. De McDonald's a Burguer King, passando por
redes especializadas em cachorro-quente, dá para encontrar de tudo. As
fuentes de soda, duas ou três em cada esquina do centro, são lanchonetes
que servem lanches com muita maionese e batata frita. Se você quer passar
longe disso e comer boa comida, terá de se conformar em gastar cerca de
10 a 15 dólares por pessoa, numa refeição. Mesmo no famoso
Mercado
Central, com sua infinidade absurda de mariscos e frutos do mar diferentes,
não é tão barato comer quanto se poderia imaginar. Em compensação,
se você pedir um filé de salmão, por exemplo, vai se impressionar
com o tamanho dele (sempre um delicioso filé alto e grande). Em quase todo
o Chile você pode pedi-lo acompanhado de camarão ou mariscos, e em
Santiago não é diferente. O Mercado Central também é
um bom lugar para você provar frutos do mar diferentes, como a Centolla,
por exemplo, um crustáceo que parece um caranguejo gigante, muito saboroso
e caro. Acontece que a Centolla só existe nas ilhas Juan Fernandez, e por
isso o Chile é um dos melhores lugares para prová-la, porque lá
o preço não é exorbitante. Santiago
tem coisas interessantes de se ver. Visite sem dúvida a Plaza de Armas
e, pertinho dela, o Museu Chileno de Arte Pré Colombiana, com rico acervo
representado uma infinidade de povos pré-colombianos. O Palácio
de La Moneda é outro ponto imperdível, quer por si próprio,
quer por sua importância histórica - foi lá que Salvador Allende
morreu em 1973, durante o cerco que culminou na implantação da ditadura
militar no país. Pertinho daí há outra atração
bacana, que é o Cerro Santa Lucia, um morro no centro da cidade,
construído para ser agradável. Cheio de fontes, árvores,
construções meio barrocas, caminhos tortuosos e banquinhos sob as
árvores, é um belo passeio. Em frente ao Cerro há uma feira
de artesanato onde é possível encontrar todo tipo de artesanato
chileno a preços convidativos. São surpreendentes os artefatos de
madeira e muito baratos os artigos de lã. Em Santiago há ainda o
Cerro San Cristóbal, que fica no Barrio Bellavista, uma espécie
de bairro boêmio da cidade. Sobe-se o morro com um funicular e de lá,
se não for um dia muito poluído, vê-se a cidade e as montanhas
que a circundam. Ao descer, há inúmeros barzinhos com mesas na calçada
e um (novo) centro cultural e gastronômico, um pouco caro, mas bem charmoso.
Seguindo
em direção ao Sul Saindo
de Santiago, quanto mais se desce para o sul, mas frio e úmido o clima
se apresenta e as chuvas podem chegar a 2488mm. E mais exuberantes são
os tons de verde da paisagem. Quase tudo é bonito e há roteiros
para todos os gostos. É uma questão de escolha. Nossa escolha recaiu
em duas regiões, dois dos principais centros de esqui chilenos, mas que
são lugares maravilhosos e cheios de atrações também
fora da temporada invernal - a Araucania Andina (Região IX) e o Distrito
dos Lagos (Região X). Ambas as regiões têm excelente infraestrutura
para o turismo e você não encontrará dificuldades para hospedar-se
confortavelmente a preços justos. O
Chile não chega a ser um país barato, mas também não
é um absurdo. Nestas duas regiões especificamente, os preços
sobem bastante no inverno, quando é temporada de esqui, e no verão,
quando os inúmeros lagos servem de refúgio e lazer para os próprios
chilenos. As estações intermediárias costumam apresentar
os melhores preços, temperaturas agradáveis (frio suficiente para
você curtir as coisas boas que ele proporciona - incluindo um pouco de neve)
e menor quantidade de turistas. A
Araucania Andina Para chegar aqui, partindo
de Santiago vá a Temuco, que é a capital da Araucania. Pode-se
chegar lá de avião, trem, ônibus ou carro. Se quiser economizar,
sem perder muito conforto, vá de ônibus-leito. No Chile, eles têm
a grande vantagem de serem só um pouco mais caros do que os convencionais
(paga-se mais ou menos 35 dólares pela viagem) e serem bastante confortáveis
- incluem travesseiros, cobertores e um café da manhã simples, mas
bem-vindo, servido pelo simpáticos rodo-moços nos ônibus. O
ideal para conhecer a região é alugar um carro. O inconveniente
é que o preço do aluguel de um veículo simples gira em torno
de 50 dólares por dia, o que não é exatamente econômico.
Você pode fazer também o que a maioria dos turistas faz, e que só
vale a pena se você estiver sozinho, que é conhecer os pontos legais
da região por meio das agências de turismo ou, estando em duas pessoas
ou mais, deslocar-se entre as principais cidades de ônibus (disponíveis
em vários horários), conhecê-las a pé ou de bicicleta
(em geral as cidades turísticas são pequenas e é muito agradável
andar por elas) e alugar carro para ir aos pontos de interesse. As estradas em
geral são boas, mesmo as de terra. Uma
das cidades mais atraentes da região é Pucòn. Pequena
e bonita, é uma cidade absolutamente turística às margens
do lago Villarrica e aos pés do vulcão de mesmo nome. Durante o
inverno abriga umas das melhores escolas de esqui do mundo. Essa vocação
turística levada ao extremo pode ser ruim na temporada, quando a cidade
lota muito, mas fora dela é ótima, pois proporciona hospedagem e
alimentação para todos os gostos e bolsos, tranqüilidade de
uma cidade pequena e uma certa agitação de centro turístico.
Experimente ficar em alguma das pousadas que oferecem cabanas. Por algo entre
40 ou 50 dólares você pode se hospedar em uma confortável,
charmosa e limpíssima cabana para duas pessoas, com aquecimento a gás,
cama gostosa, mini cozinha, serviço de camareira e café da manhã.
Boa
comida, povo simpático, informações turísticas de
primeira, farto artesanato local (destacam-se as peças de madeira, realmente
lindas) fazem desse um lugar perfeito para quase todos os gostos. À noite,
a cidade se enche de um agradável cheiro de madeira queimada, resultados
das lareiras e estufas que se acendem. Para quem gosta de esportes radicais, é
um prato cheio. Para quem quer sossego e belas paisagens naturais, também.
A começar pelo vulcão
Villarrica, ainda em atividade (é verdade, dá para ver a
fumacinha saindo da cratera) e que domina a paisagem de qualquer ponto da cidade.
Da beira do lago, é indescritível ver aquele vulcão enorme,
com o pico coberto de neve. Ainda mais para nós, brasileiros, que não
temos nem vulcões nem neve aqui.
Um
dos passeios mais memoráveis que se pode fazer em Pucòn é
justamente subir
o vulcão. Para isso é necessário contratar o serviço
de uma agência de turismo, pois o passeio não pode ser feito sem
guia. Não custa barato (cerca de 50 dólares por pessoa) mas é
imperdível. Para
os menos aventureiros há passeios muito legais também. Pode-se visitar
as cavernas formadas pela lava das erupções do vulcão, fazer
caminhadas (com ou sem guia) e piqueniques pelos parques nacionais Huerquehue
e Villarrica, visitar os outros lagos da região (Caburgua, Colico, Calafquen
e outros), visitar cachoeiras e andar por estradas lindas, que margeiam os lagos
e que levam de uma cidadezinha a outra. Outra
atração imperdível são as termas. Há mais ou
menos meia dúzia delas nos arredores de Pucòn, mas a mais interessante
é Pozones, um lugar ainda bem rústico, com poços naturais
de água aquecida pelo vulcão (42º a 46º c), que brota
do chão ao lado de um belo rio. Na beira de alguns dos poços foram
construídos vestiários de madeira rústica, dos quais se entra
na água por uma escada no piso. É incrível a sensação
de estar submerso na água quente e fora estar fazendo 5ºc, mais ou
menos.
Mais
vulcões no Distrito dos Lagos Daí
para o Distrito dos Lagos é perto (cerca de 4 horas de viagem) e praticamente
tudo é bonito. Você pode optar por descer de carro e ir parando onde
tiver vontade ou descer de ônibus e ir até Puerto Mont, a capital
da região, que não é muito bonita, ou Puerto Varas,
uma das mais belas cidadezinhas da região. É charmosa, de influência
alemã, às margens do lago Llanquihue e privilegiada pela vista de
dois vulcões - o Calbuco e o Osorno. Novamente,
estando lá é bom alugar carro. A hospedagem não chega a ser
tão farta e variada quanto em Pucón, mas há ótimas
alternativas. Há muitas famílias que alugam suítes mais ou
menos independentes de suas casas e que funcionam como mini-hotéis. Nestes
casos, o custo-benefício pode ser muito bom. Por cerca de 40 dólares
há grandes chances de você ficar hospedado numa suíte limpíssima
e confortável, melhor do que a de muitos hotéis que cobram a mesma
coisa. A maioria delas oferece café da manhã no próprio quarto,
em geral levado pela dona da casa. Outra vantagem são as várias
dicas sobre restaurantes
e passeios que estas pessoas podem lhe dar.
No
vulcão Osorno funciona um centro de esqui acessível de carro.
Da base do centro de esqui toma-se um teleférico (com baldeação)
que sobe bastante o vulcão (e custa cerca de 12 dólares por pessoa).
Com um pouco de sorte, mesmo fora do inverno você pega neve suficiente para
brincar nela. E se os deuses lhe sorrirem e presentearem com um céu limpo,
você vai se deslumbrar com a vista do lago azul, de um lado, e de outro
os picos nevados da cordilheira. É uma paisagem de tirar o fôlego.
Imperdíveis também são os Saltos do Petrohué,
que nasceram depois de uma grande erupção vulcânica. A lava
se solidificou no leito do rio e formou cachoeiras belíssimas, cuja imagem
tem como fundo o imponente vulcão Osorno. Vale dar um pulo até o
Lago Todos os Santos, que as pessoas da região chamam de Lago Esmeralda,
por causa da cor de suas águas. Além da beleza, é possível
dar uma volta de barco pelo lago e chegar até Peulla, de onde se chega
rapidinho ao território argentino, pertinho de Bariloche.
As
cidadezinhas da região também merecem visitas, principalmente Frutillar,
de forte influência alemã. Aliás, a influência alemã
nesse pedaço do Chile é facilmente notada, tanto pela arquitetura
quanto pelas comidas. Se puder, saboreie um once, que, traduzindo, é um
belo chá da tarde repleto de coisas deliciosas. Esqueça a dieta
e caia na folia gastronômica, porque, afinal, conhecer um novo lugar implica
também conhecer seus cheiros e sabores. E divirta-se! |