A experiência de viajar sozinha*


Viver é negócio perigoso
- Guimarães Rosa


Vista do alto do Cerro Santa Lucia  (Foto: Mônica Santos)A viagem

Que viajar é bom todos sabem, certo? Conhecer lugares, pessoas e paisagens diferentes, ouvir e tentar falar outra língua são experiências muito particulares e valiosas. Agora, quando essas experiências são vividas de forma solitária, todas as emoções e sentimentos são mais intensos e desafiadores.

Em novembro de 2009 fui para Santiago, no Chile**, sozinha. A experiência fez todo o esforço de um ano inteiro de trabalho valer a pena. Cada detalhe da viagem foi cuidadosamente resolvido - um pouco em cima da hora, confesso - da forma como eu considerava correta, afinal, era a minha viagem. Mas, muitas pessoas foram contra a "aventura" e perguntaram: "Uma mulher viajando assim sozinha? O que vão pensar?", "Mas você vai sozinha? Isso é loucura!", "É muito perigoso, você não deve ir."

Desconsiderei os conselhos e fui, pensando no que nos disse Guimarães Rosa, ou seja, em qualquer lugar a aventura da vida é perigosa e não há como dela escapar.

Cordilheira dos Andes vista da janela do avião (Foto: Mônica Santos)Santiago - Chile
Ao passar sobre a Cordilheira dos Andes tive certeza que todos que me aconselharam a não ir estavam errados. Aquela visão já valera a viagem! Em terra firme, durante o traslado aeroporto-hotel, o motorista estranhou, a princípio, o fato de eu estar só. Mas já me disse que a cidade era tranquila e que eu não teria problemas.

O simpático motorista tinha razão, Santiago é uma cidade muito agradável, apesar do clima seco, e cheia de encantos. Cada passeio, rua, prédio, praça, cerro revelava beleza peculiar e era uma descoberta.

No mesmo dia da chegada, saí para andar pela cidade e meu ponto de referência era nada mais, nada menos que a Cordilheira dos Andes! E foi em direção a ela que andei até encontrar o Cerro Santa Lucia, onde se tem uma bela vista da cidade; com o mapa na mão encontrei o morro (alto!), com algumas escadas e rampas, muito verde e repleto de pessoas. Ao sentar do lado da fonte me senti realizada: éramos eu, aquela linda paisagem, minha câmera fotográfica e Deus; nada mais era preciso. Nada nem ninguém. Mais uma vez confirmei o quanto minha decisão tinha sido acertada.

Jardim em Concha y Toro  (Foto: Mônica Santos)Foram muitos os passeios, fotos e momentos marcantes. Quando estamos sozinhos, longe de casa, fica mais fácil conhecer pessoas, conversar, pedir informações, ajudar o casal que tenta tirar uma foto e não consegue. Aliás, conhecer pessoas é a parte mais divertida: descobri uns vizinhos (de cidade e de hotel) em Concha y Toro, onde também vi um grupo de turistas – peruanos, espanhóis e muitos brasileiros – que fazia muito barulho e divertiu a todos que conheciam o famoso vinhedo.

Durante o city tour para conhecer os principais pontos da cidade, como o Palácio de La Moneda, o Serro San Cristóbal, a Chascona (uma das casas do escritor Pablo Neruda), tive a sorte de encontrar dois casais de brasileiros que "me adotaram" e passamos a fazer todos os passeios juntos! Fomos almoçar no Mercado, viajamos até Viña del Mar e Valparaíso - onde vimos a outra casa do Neruda, a Sebastiana - e ainda tivemos tempo de subir os 3000 metros do Valle Nevado.

Assim, a viagem que começou sozinha seguiu animada e cheia de gente agradável. Sem falar nos muitos turistas e não-turistas que por todos os lugares encontrávamos e na bonita forma como nós, brasileiros, fomos recebidos no Chile.

Caminho para o Valle Nevado (Foto: Mônica Santos)

Fazer uma viagem sozinha é a experiência pela qual toda mulher deveria passar
Erasmo que me desculpe, mas discordo da música na qual ele diz "antes mal acompanhada do que só". A viagem foi incrível e mostrou que viajar só não é nenhum bicho-de-sete-cabeças! Pelo contrário: é um momento de reflexão e principalmente descoberta. Talvez seja também uma quebra de preconceitos.

A mulher ainda hoje é discriminada e, muitas vezes, não se permite fazer coisas - como uma viagem como a minha - por medo do que dirão. Na verdade, não importa o que "as pessoas" vão falar e sim o que cada mulher sente, deseja, busca e, principalmente, realiza.

Feliz Dia Internacional da Mulher!

* Mônica Santos é redatora, tem 25 anos, bacharela em Letras pela USP e trabalha como coordenadora dos cursos a distância da Escolanet.

** O Chile foi abalado por um terremoto na última semana e teve muitos mortos e feridos. O país está passando por um momento difícil e algumas regiões – Concepción e Constitución foram as mais afetadas – foram totalmente destruídas pelo desastre natural.

08 de março de 2010

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