Uma
vila inglesa perdida no tempo, em plena Serra do Mar
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Foto
de Fernandes Dias - Avenida
Fox: homenagem ao inglês Daniel Fox, fundador da Vila
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A sensação
de estar perdido no tempo e no espaço é muito comum
para quem se depara com o casario de madeira vermelha, em estilo vitoriano,
encoberto pela neblina que envolve a centenária Vila de Paranapiacaba
na maior parte do ano. Sobretudo quando surge, em meio à névoa
densa, o relógio da estação ferroviária,
uma cópia do famoso Big Ben, símbolo da cidade
de Londres.
"Quando vim para cá, em 1961, as locomotivas queimavam
óleo e soltavam uma fumaça preta, que tonavam a neblina
mais espessa e ainda mais parecida com o fog londrino", conta
Zélia Paralego, que se tornou uma grande conhecedora da história
da vila.
Localizada na região sudoeste do Município de Santo
André, no limite entre o Planalto Paulista e a Serra do Mar,
Paranapiacaba é a única vila ferroviária no Brasil
que conserva praticamente inalterado o mesmo aspecto visual da sua
fundação. Esse acervo histórico e cultural de
valor inestimável, tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio
Histórico e Artístico (Condephat) em 1997, pôde
ser preservado, em grande parte, graças ao isolamento a que
a vila, no alto da serra, foi condenada com o declínio da ferrovia.
E, também, ao fato de estar situada numa área de proteção
de mananciais, cercada pelo Parque Estadual da Serra do Mar e pela
Estação Biológica do Alto da Serra, que são
parte integrante das reserva da Biosfera da Mata Atlântica e
do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, reconhecidas
pela Unesco.
"Muitas pessoas que vieram morar aqui descobriram a importância
dessa região como patrimônio histórico e natural
a partir do tombamento da vila. Foi assim que nos organizamos e fundamos
várias entidades com o objetivo de preservar esse verdadeiro
museu vivo em que moramos. E hoje nos consideramos guardiães
da Vila de Paranapiacaba", explica Zélia.
No alto da
serra, de onde se avista o mar
Em meados do século
19, a expansão do comércio do café tornou indispensável
e urgente a construção de uma ferrovia para transportar
a produção do Planalto Paulista ao porto de Santos,
para ser exportada. Entre 1862 e 1867 foi construída, pela
empresa britânica São Paulo Railway Company, a primeira
estrada de ferro paulista, ligando Jundiaí ao litoral. A moderna
tecnologia ferroviária dos ingleses teve de enfrentar o desafio
de vencer o grande desnível que separava o planalto paulistano
da Baixada Santista. A solução foi construir quatro
planos inclinados interligados por patamares, nos quais estavam instalados
sistemas de máquinas fixas acionando cabos de aço (tail
end) que sustentavam as locomotivas e composições tanto
na subida como na descida da serra.
O local escolhido para o acampamento do pessoal operacional, técnico
e administrativo do sistema ferroviário ficava no topo da serra,
e foi lá que surgiu a Vila de Paranapiacaba, que em tupi-guarani
significa "de onde se avista o mar".
Com a expansão da lavoura cafeeira , a ferrovia e a vila enriqueceram
e cresceram. "Em 1897 a Vila Martin Smith, construída
na parte baixa de Paranapiacaba, dispunha de serviços urbanos
como luz elétrica, água encanada e rede de esgoto, além
de ruas calçadas, praças, clubes. Talvez em Santo André
esteja uma das primeiras cidades planejadas que o Brasil conheceu,
conta o pesquisador e também morador, Eduardo Pin.
Costumes e
tradições
Da população
dos tempos áureos, restou uma comunidade tradicional, formada
pelos descendentes dos antigos ferroviários e seus familiares,
que representam cerca de 20% da população da vila, hoje
em torno de 2.100 habitantes. Eduardo Pin conta que os moradores de
Paranapiacaba, principalmente os da comunidade tradicional, têm
hábitos muito peculiares. "Aqui, ao meio-dia, costumam
fechar as casas, por causa da neblina. Se não se fizer isso,
as paredes ficam molhadas com a umidade, e chega a escorrer água
por elas. Por isso, a Vila às vezes parece uma cidade fantasma
em plena luz do dia."
Outra tradição, diz Zélia, é o Pau da
Missa. "Antigamente as pessoas tinham o hábito de fixar
avisos de enterros, velórios e missas que mandavam celebrar
no tronco de uma grande árvore, que está de pé
até hoje. Com o passar do tempo o Pau da Missa se tornou um
ponto turístico, e hoje os moradores deixam seus recados."
Quanto à culinária, é forte a presença
portuguesa, com as sopas e os pratos à base de batatas, bacalhau
e grão-de-bico. Com a saída dos ingleses, o famoso chá
das cinco passou a ser apenas uma lembrança na memória
dos mais antigos moradores.
Turismo, a
solução
Paranapiacaba
não depende mais da ferrovia, que entrou em declínio
e terminou sendo desativada. Com isso, o turismo tornou-se a principal
atividade da população. "O turismo sempre foi importante
aqui, mas agora estamos desenvolvendo essa atividade de uma forma
mais organizada, pois Paranapiacaba está se preparando para
uma nova realidade: a exploração do seu valioso patrimônio
histórico, cultural e natural", ressalta Zélia.
Surgiram várias possibilidades de atuar no setor turístico
e, assim, criar novas fontes de renda para os moradores. Como Paranapiacaba
não tem hotéis, adotou-se na cidade uma prática
muito comum entre os ingleses: o Bed & Breakfast, sistema em que
aqueles que têm quartos e leitos disponíveis em suas
residências, recebem o turista, oferecendo-lhe estadia e café
da manhã.
Outro projeto é o Portas Abertas, em que os moradores preparam
refeições para os turistas. Como não existem
restaurantes na cidade, alguns moradores receberam treinamento e ajuda
financeira para comprar utensílios e adaptar suas casas a fim
de poderem preparar boas refeições para os visitantes.
"O meu forno a lenha é um dos melhores da Vila. A rabada
e a vaca atolada são os pratos que fazem mais sucesso",
diz Luzinete Machado Freitas.
A Associação de Monitores Ambientalistas (AMA) nasceu
de uma necessidade dos moradores de potencializar o ecoturismo, com
pessoas credenciadas para trabalhar no Parque Municipal e também
no Parque Estadual. "Tudo começou com um curso promovido
por técnicos do Instituto Florestal destinado a capacitar pessoas
da comunidade local para trabalhar com ecoturismo. Agora já
somos 24 monitores", explica Eduardo Pin.
O curso capacita as pessoas para trabalharem não apenas como
monitores, mas também para realizarem outras atividades ligadas
ao turismo, como o artesanato. "O curso vem de uma lei estadual
que criou a função de monitor ambiental. Tem um critério
muito interessante: as pessoas envolvidas têm de morar no entorno
da área que se deseja conservar."
Os monitores acompanham os passeios nas áreas de preservação
ambiental promovendo educação ambiental, estudo de meio
e turístico.
A região dispõe de várias trilhas e cachoeiras
que atraem muitos turistas pela beleza natural. Entre esses passeios
ecológicos está o Caminho do Mirante de onde se avistam,
do topo, o Rio Mogi, as encostas da Serra do Morrão e o litoral
paulista, Santos, Bertioga, Guarujá. Com cerca de 1.500 metros,
é uma subida que, com certeza, valerá a pena pelo espetáculo
visual. No Núcleo Olho D'Água são desenvolvidas
atividades ambientais interativas em duas trilhas, que são
pontos privilegiados para a contemplação da perfeita
integração entre a engenharia e a natureza que caracterizam
o lugar. É outro passeio imperdível.
No turismo cultural e histórico descobrem-se muitas curiosidades,
como por exemplo, o Campo de Futebol do Serrano, construído
em 1894, onde um funcionário da SPR jogou sua primeira partida
de futebol no Brasil. Seu nome, Charles Miller. Este campo presenciou
várias outras partidas do Serrano Atlético Clube contra
grandes times como Santos e Corinthians.
O Museu Funicular e o Clube União Lyra Serrano, que foi por
muito tempo a maior edificação em madeira da América
Latina, Relógio da Estação, réplica do
Big Ben , e a Igreja Bom Jesus de Paranapiacaba, edificada em 1887,
são outros lugares que não podem deixar de ser visitados.
Patrimônio
ameaçado
Localizada no
distrito de Paranapiacaba, entre as estações de Campo
Grande e Paranapiacaba, a Estação Biológica do
Alto da Serra vem sendo mantida como área de conservação,
preservação ambiental e pesquisa científica desde
1909. Pertencente ao Instituto de Botânica, órgão
vinculado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente, foi idealizada
e implementada pelo naturalista e pesquisador Hermann von Ihering,
quando dirigiu o Museu Paulista. "Estudos recentes têm
demonstrado que essa é uma das mais antigas, se não
a mais antiga, unidade de preservação ambiental não
apenas de São Paulo, mas também do Brasil", explica
o pesquisador do Instituto de Botânica, Eduardo Catharino.
A Estação Biológica faz parte da memória
da ciência botânica paulista e brasileira, tendo passado
por ela várias gerações de estudantes e cientistas
brasileiros e estrangeiros, entre os quais o geneticista russo Vavilov,
o prêmio Nobel em Física e Química Marie Curie
e sua filha Irene Curie (Nobel em Química), além do
lingüista e historiador Affonso de Taunay e a artista plástica
Margaret Mee. Personalidades de nossa história como Washington
Luís, Júlio Prestes e Fernando Costa também deixaram
seus registros na história da Estação.
A reserva tem como característica marcante a larga ocorrência
de plantas epífitas (bromélias e orquídeas) e
da jussara, ou palmiteiro-doce, planta cada vez mais escassa em nossas
matas. As invasões para extração ilegal do palmito
e de plantas ornamentais constituem uma séria ameaça
para a reserva que foi duramente atingida pela construção
da rodovia SP-122, entre Campo Grande e Paranapiacaba, e continua
sofrendo os efeitos da poluição oriunda do Pólo
Petroquímico de Cubatão.
Da
Agência Imprensa Oficial