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Turismo
Desprezado
Não sei o prezado leitor, mas eu venho acompanhando os noticiários sobre o atual momento que antecede a posse do novo governo. Como todo jornalista, tenho curiosidade em conhecer a equipe que vai conduzir os caminhos da Nação. Vejo com muita simpatia o empenho do eleito presidente Lula em fazer o Brasil crescer, ampliando as exportações e dando consistência e solidez ao mercado interno. Neste aspecto, penso que o desperdício deve ser a primeira "saúva" a ser exterminada. Sem contar as tragédias naturais (muita chuva, pouca chuva, vendavais, geadas, pestes, pragas, etc), a quantidade de produtos agrícolas e pecuários que se perde ainda no campo, no transporte e até na comercialização, é capaz de matar a fome de muita gente - e como acabar com a fome é prioridade número 1 deste novo governo, sugiro ação imediata para melhor aproveitamento do que é produzido. A garantia de um preço mínimo justo é uma idéia já ventilada, mas a concessão de crédito barato para construção de silos para armazenamento do excesso produzido pode ser uma solução imediata. Já escrevi sobre o impressionante aproveitamento de apenas 10% do caju no Norte e Nordeste - sua castanha. A polpa é desprezada, largada no chão, enquanto aqui no Sudeste, paga-se 4 ou 5 reais por uma caixinha também com 4 ou 5 unidades, e vêm com as castanhas, que são atiradas no lixo. Será que é muito complicado aproveitar essa polpa toda, sem a castanha, e "exportá-la" para cá? Ou liberar créditos também baratos para montar empresas que produzam sucos ou processem as polpas de frutas várias? Falo de caju, como também poderia falar de laranja, manga, abacaxi, melão, acerola, melancia, graviola, verduras, grãos, carnes. O que se desperdiça por falta de investimentos em conservação e transporte chega às raias do absurdo. Outra coisa que me despertou atenção foi a fala de um líder partidário, cuja agremiação vai compor o novo governo: disse o político que seu partido não vai aceitar "um ministério menor, como Esporte ou Turismo". Fiquei abestalhado! Quando este artigo for publicado, muito provavelmente todas as pastas já terão sido ocupadas, os nomes anunciados. Minha esperança é que o "inquilino" da desprezada pasta do Turismo tenha visão suficiente para transformar o setor em um "imã" capaz de atrair dólares, explorando conscientemente o potencial que a natureza nos ofereceu de graça. Importante é que pressinta que, em que pese os milhares de quilômetros das mais belas paisagens praieiras do mundo, "o Brasil não é só litoral, é muito mais interior", canta com propriedade e ciência pessoal Milton Nascimento. Exportamos veículos e aviões, exportamos calçados e frutas, exportamos craques de futebol e briosos dekasseguis, exportamos carnes de animais e aves tratados a pão-de-ló - bem como também "exportamos" fauna, flora e crianças... Exportar é preciso, importar também, muito. Mas quando digo "importar", quero dizer "importar" turistas estrangeiros. Apresentar-lhes nossas praias, depois levá-lo para o nosso precioso interior. Rios e cachoeiras, montanhas e rica vegetação, fauna exuberante, comidas deliciosas e artesanatos de qualidade, esculturas e pinturas, literatura e música, artes cênicas, festas. O Brasil, além de seu belíssimo litoral, tem um vasto interior com riquezas naturais e criações singulares produzidas por sua gente inventiva e incansável. O Brasil é o mais bonito país do mundo, principalmente pelos seus contrastes. É bonito, tem uma gente simpática, um povo generoso e voluntarioso, vizinho ou amigo não morre de fome. Precisa exportar, claro que precisa, quem não precisa? Enfrenta dificuldades? Enfrenta, mas e daí? Potencial para competir, tem de sobra. Em todos os cantos. Falei sobre isso outro dia. Um menininho engravatado disse que se levarmos o turista estrangeiro ao interior do país, vamos expor nossa miséria. Mas a idéia é essa, escancarar a miséria causada pela péssima distribuição de renda, assim poderemos atrair mais ONGs, com as ONGs virão dólares, virão turistas estrangeiros, virão postos de trabalho, o consumo será maior, haverá muito mais giro financeiro, muito mais impostos arrecadados. Não é disso que estamos precisando? Mais empregos, mais prestação de serviços, mais dólares? Li numa revista que até 2005 o Brasil terá mais uns 200 hotéis e pousadas e ainda não serão suficientes para atender à demanda. Por ser jornalista, e também escritor, sou bastante procurado por jovens de todo canto, que lêem meus livros ou os meus artigos que jornais e sites generosamente publicam; a maioria desses jovens ou vão prestar vestibular para jornalismo, ou para hotelaria ou turismo. No embalo da molecada, as escolas de idiomas vão ter de ampliar seus cursos, além do inglês e espanhol. Francês, alemão, árabe, japonês, chinês, dinamarquês, russo, italiano, sei lá mais o quê. Só aí, já estaremos abrindo postos de trabalho. Se eu for falar de garçon e garçonete, cozinheiros/as, ajudantes, guias, copeiros/as, arrumadeiras, etc, ocupo o jornal todo. Se cada município preparar um projeto para explorar suas ricas belezas naturais, se cada Estado apoiar essas iniciativas e o ministério cuidar de uma divulgação internacional séria, aposto como a Pasta do Turismo não vai ser mais maltratada com o desdém atual. Diorindo Lopes Júnior é jornalista. |
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