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A
SEXUALIDADE NAS PESSOAS ESPECIAIS Ser feliz
é direito de todo ser humano. Os deficientes mentais,
mesmo tendo um desenvolvimento intelectual aquém da
idade cronológica, também podem e devem possuir
esse direito. Uma das formas de manifestação
da felicidade é o exercício da sexualidade.
Amar é uma das maneiras do indivíduo ser feliz
por se sentir ligado a alguém. Embora a sociedade procure
inibir as atividades sexuais entre os deficientes mentais,
estas devem ser, se não incentivadas, pelo menos direcionadas
de modo que não venham se transformar em fonte de angústia
e preocupação para os que os cercam e, por que
não dizer, para os que as praticam.
A sexualidade
dos deficientes mentais está intimamente relacionada
ao seu grau de deficiência. Os deficientes leves, por
exemplo, são capazes de amar, de gostar da companhia
de outra pessoa, de exercer sua sexualidade de modo semelhante
a dos adultos, ressalvando as limitações próprias
de sua deficiência. Amam como duas pessoas de doze ou
treze anos, com a mesma paixão e o mesmo grau de companheirismo
que muitas vezes temos dificuldade de encontrar na sociedade
dita normal. Os deficientes moderados, cujo grau de maturidade
mental é de uma pessoa de seis a sete anos, apresentam
um comportamento sexual compatível ao de uma criança
dessa idade. Têm curiosidade pelo próprio corpo
ou pelo de outras pessoas, geralmente do mesmo grau de desenvolvimento
intelectual. Os deficientes severos, com idade mental de uma
criança de dois anos, conseguem exercer hábitos
elementares de alimentação, higiene e vestimenta
e também a sexualidade compatível com essa idade.
A masturbação é uma atividade bastante
comum nessas pessoas, buscando satisfação no
próprio corpo. Apesar dessas manifestações
sexuais, não conseguem ter um relacionamento sexual
propriamente dito. Nosso
grande erro é julgar a sexualidade dos deficientes
mentais pelos nossos próprios parâmetros e, principalmente,
transmitir ou incutir nessas pessoas especiais nossos próprios
preconceitos e tabus quanto à sexualidade . Os pais
e os educadores, responsáveis pela sua educação,
devem se despir desses preconceitos, deixando que o conhecimento
e a compreensão a respeito de suas características
sejam o norteador da orientação. Um aspecto
de significativa importância dessa educação
sexual é estabelecer os limites do corpo, seja do educador
ou deles próprios. Ensinar que existem limites é
saber educar adequadamente; isso não significa que
todos os contatos e gestos afetivos são condenáveis.
É fundamental ensinar que existem áreas corporais
públicas e privadas, mostrando ser inadequado o exercício
de atividades corporais ditas privadas em ambientes públicos.
A masturbação, e até a própria
exploração corporal, embora não condenáveis
são algumas dessas atividades privadas. O exercício
da sexualidade, de modo geral, está preso às
regras sociais e é permitido e aceito apenas para pessoas
ditas normais, adultas, heterossexuais, casadas, que querem
ter filhos e possam sustentar uma família. Como, na
maioria das vezes, os deficientes mentais não se encaixam
em alguns desses parâmetros, fica o cruel preconceito
de que o exercício da sexualidade entre eles deve ser
inibido; são proibidos de desejarem e serem desejados,
de amarem e serem amados e, até mesmo, de terem filhos.
É bem verdade que é fundamental e necessária
uma monitoração por pessoas dispostas a lhes
assegurar o apoio necessário. Reconhecemos que no Brasil
essa responsabilidade fica quase que exclusivamente sob a
tutela da família, que infelizmente nem sempre está
em condições de dar esse apoio. Educar
o deficiente é educar a família e a sociedade,
dando o parâmetro da igualdade de direito à felicidade.
Os educadores e os métodos educacionais direcionados
às famílias desses indivíduos devem estar
voltados para desenvolver seu potencial e realizar sua integração
social. Em função disso, os pais devem ser orientados
adequada e precocemente a respeito do desenvolvimento sexual
de seus filhos, evitando que interfiram erroneamente de maneira
negativa. Esse proceder com certeza levará a uma melhor
qualidade de vida para o deficiente mental como para sua própria
família. Nessa educação a família
é insubstituível. Contudo a parceria família-escola
é que reforça o pleno desenvolvimento das habilidades
e potencialidades, fazendo com que o deficiente compreenda
as alterações que estão ocorrendo em
seu corpo, as manifestações fisiológicas
e os inexplicáveis anseios e desejos. Os principais
códigos que regem o comportamento sexual devem ser
ensinados para que eles possam conviver socialmente de forma
adequada. As escolas também devem direcionar as informações
sobre prevenção das doenças sexualmente
transmissíveis, bem como de uma gestação
não desejada. Um ginecologista é de extrema
importância auxiliando a escolher, se for o caso, métodos
anticoncepcionais seguros e adequados ao grau de compreensão
do deficiente ou da família, a qual deve monitorar
seu uso. Pais e educadores nunca devem esquecer os preceitos
básicos da educação sexual para essas
pessoas especiais: colocar limites quando a situação
exigir, pois compreender não é compactuar com
a atividade sexual; ter clareza na colocação
dos limites, utilizando linguagem compreensiva, com vocabulário
adequado; responder sempre, direta e objetivamente. O deficiente mental não precisa de piedade, mas de compreensão de sua condição e, principalmente, de esclarecimento convincente para adequar seu comportamento. VALORIZAÇÃO Dr.
Thyrson Fraga Moreira, ginecologista, obstetra
e terapeuta sexual |
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