Sexualidade na puberdade - A masturbação

Por Silvana Martani

Existe um momento em que as bonecas, os carrinhos e os brinquedos em geral perdem sua função primordial de educar, desenvolver e entreter para dar lugar aos jogos, conversas e aos grupos.

Falar de sexualidade na puberdade é entender como os órgãos sexuais, tanto dos meninos como das meninas, vão sair do anonimato para assumir uma importância fundamental à organização da vida emocional e física do adolescente e, posteriormente, do adulto. Esta vivência é totalmente influenciada pela educação, cultura, costumes e crença religiosa que normalmente norteiam a saúde da sexualidade e a maneira como ela é conduzida.

É na puberdade que os meninos descobrem seu pênis e as meninas seu clitóris e vagina, através da masturbação. A masturbação é um instrumento importantíssimo para o conhecimento do próprio corpo e não deve ser reprimida em hipótese alguma. O púbere deve experimentar e conhecer todas as sensações que seu corpo é capaz de produzir uma vez excitado, pois este saber, além de proporcionar uma correta dimensão de seu próprio corpo, cria a base para suas futuras relações sexuais.

A masturbação não é uma experiência vivida pelo jovem de uma forma tranqüila, pois é cercada de muitos significados importantes para ele. O ser humano vive sua sexualidade de uma forma intimista, pois é assim em todas as sociedades. Quando um menino começa a mexer no seu pênis durante a noite e o percebe ereto não se sente à vontade para fazer isso com seus pais por perto e com a menina acontece o mesmo. Nesse ponto, todos acabam procurando se conhecer ou mesmo se masturbar quando estão sozinhos e isolados, pois além da experiência exigir uma certa concentração para que seja produtiva, também se sentem constrangidos com a nova descoberta.

Esse constrangimento se dá pela forma como somos criados e como a sociedade humana lida com a sexualidade. O ser humano precisa de privacidade e esta é uma característica essencial da raça, mas a forma como os pais abordam o assunto tem muito a ver com a sexualidade deles como pessoas.

Nos últimos anos muito já se falou sobre sexo dentro dos lares, coisas que antes nem se imaginava mencionar. Os pais não escondem mais sua nudez de seus filhos, mas a tranqüilidade em falar sobre o assunto ainda está longe de existir. Não é raro encontrarmos pais que ficam muito preocupados em falar de sexo quando o filho se aproxima da puberdade e ficam muito angustiados em lidar com as perguntas que podem surgir sobre o assunto.

É sabido que esse tipo de experiência é diferente entre meninos e meninas e que a diferença é social e cultural, uma vez que todos se buscam da mesma maneira. Na nossa sociedade, quando um menino se tranca no banheiro, ou mesmo quando seu banho dura horas, seus pais sabem e até mencionam com uma certa satisfação que o fato anda ocorrendo com freqüência fazendo alusão à sua virilidade. No caso das meninas, o mesmo fato é visto com uma certa surpresa e até preocupação e, nos casos de famílias mais conservadoras, com repulsa e indignação, pois a sexualidade das meninas é sentida e vista com outros olhos.

Os pais normalmente têm receio da masturbação da filha e se sentem inseguros em interpretar essa experiência. Muitos pais acham que a masturbação na menina é um preâmbulo imediato da relação sexual e que, se ela aprender a sentir prazer muito cedo, talvez queira iniciar sua vida sexual no mesmo tempo, o que é uma inverdade. As meninas devem aprender com seus corpos e é sabido que, quanto mais nos conhecemos, mais nos respeitamos e isso significa uma vida sexual mais coerente e satisfatória e não incentivo à precocidade sexual.

Durante muito tempo, a masturbação foi vista como algo sujo, proibitivo, como pecado que levava a doenças sérias, que atrapalhava as idéias de seu executor e que dificulta a vida sexual futura. Esse monte de crendices caiu por terra, mas a masturbação ainda precisa ser desmistificada.

Seja como for, ambos, meninos e meninas, vão explorar seus corpos como puderem e quando puderem. Quanto mais repressora é a educação que recebe em casa, mais o jovem sobrecarrega a sexualidade de idéias perturbadoras, contraditórias e inadequadas e mais cedo pode iniciar sua vida sexual. Todas as fases do desenvolvimento humano têm suas particularidades e a masturbação é um dos aspectos da puberdade e da adolescência e deve ser tratada com o respeito que merece.

Silvana Martani é psicóloga e especialista em obesidade da Clínica da Beneficência Portuguesa. (CRP 06/16669)

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