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A sexualidade nas pessoas especiais

postado em 7 de dez de 2018 07:59 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 7 de dez de 2018 08:00 atualizado‎(s)‎ ]

Ser feliz é direito de todo ser humano. Os deficientes mentais, mesmo tendo um desenvolvimento intelectual aquém da idade cronológica, também podem e devem possuir esse direito. Uma das formas de manifestação da felicidade é o exercício da sexualidade. Amar é uma das maneiras do indivíduo ser feliz por se sentir ligado a alguém. Embora a sociedade procure inibir as atividades sexuais entre os deficientes mentais, estas devem ser, se não incentivadas, pelo menos direcionadas de modo que não venham se transformar em fonte de angústia e preocupação para os que os cercam e, por que não dizer, para os que as praticam.

A sexualidade dos deficientes mentais está intimamente relacionada ao seu grau de deficiência. Os deficientes leves, por exemplo, são capazes de amar, de gostar da companhia de outra pessoa, de exercer sua sexualidade de modo semelhante a dos adultos, ressalvando as limitações próprias de sua deficiência. Amam como duas pessoas de doze ou treze anos, com a mesma paixão e o mesmo grau de companheirismo que muitas vezes temos dificuldade de encontrar na sociedade dita normal. Os deficientes moderados, cujo grau de maturidade mental é de uma pessoa de seis a sete anos, apresentam um comportamento sexual compatível ao de uma criança dessa idade. Têm curiosidade pelo próprio corpo ou pelo de outras pessoas, geralmente do mesmo grau de desenvolvimento intelectual. Os deficientes severos, com idade mental de uma criança de dois anos, conseguem exercer hábitos elementares de alimentação, higiene e vestimenta e também a sexualidade compatível com essa idade. A masturbação é uma atividade bastante comum nessas pessoas, buscando satisfação no próprio corpo. Apesar dessas manifestações sexuais, não conseguem ter um relacionamento sexual propriamente dito.

Nosso grande erro é julgar a sexualidade dos deficientes mentais pelos nossos próprios parâmetros e, principalmente, transmitir ou incutir nessas pessoas especiais nossos próprios preconceitos e tabus quanto à sexualidade . Os pais e os educadores, responsáveis pela sua educação, devem se despir desses preconceitos, deixando que o conhecimento e a compreensão a respeito de suas características sejam o norteador da orientação.

Um aspecto de significativa importância dessa educação sexual é estabelecer os limites do corpo, seja do educador ou deles próprios. Ensinar que existem limites é saber educar adequadamente; isso não significa que todos os contatos e gestos afetivos são condenáveis. É fundamental ensinar que existem áreas corporais públicas e privadas, mostrando ser inadequado o exercício de atividades corporais ditas privadas em ambientes públicos. A masturbação, e até a própria exploração corporal, embora não condenáveis são algumas dessas atividades privadas. O exercício da sexualidade, de modo geral, está preso às regras sociais e é permitido e aceito apenas para pessoas ditas normais, adultas, heterossexuais, casadas, que querem ter filhos e possam sustentar uma família. Como, na maioria das vezes, os deficientes mentais não se encaixam em alguns desses parâmetros, fica o cruel preconceito de que o exercício da sexualidade entre eles deve ser inibido; são proibidos de desejarem e serem desejados, de amarem e serem amados e, até mesmo, de terem filhos. É bem verdade que é fundamental e necessária uma monitoração por pessoas dispostas a lhes assegurar o apoio necessário. Reconhecemos que no Brasil essa responsabilidade fica quase que exclusivamente sob a tutela da família, que infelizmente nem sempre está em condições de dar esse apoio.

Educar o deficiente é educar a família e a sociedade, dando o parâmetro da igualdade de direito à felicidade. Os educadores e os métodos educacionais direcionados às famílias desses indivíduos devem estar voltados para desenvolver seu potencial e realizar sua integração social. Em função disso, os pais devem ser orientados adequada e precocemente a respeito do desenvolvimento sexual de seus filhos, evitando que interfiram erroneamente de maneira negativa. Esse proceder com certeza levará a uma melhor qualidade de vida para o deficiente mental como para sua própria família. Nessa educação a família é insubstituível. Contudo a parceria família-escola é que reforça o pleno desenvolvimento das habilidades e potencialidades, fazendo com que o deficiente compreenda as alterações que estão ocorrendo em seu corpo, as manifestações fisiológicas e os inexplicáveis anseios e desejos. Os principais códigos que regem o comportamento sexual devem ser ensinados para que eles possam conviver socialmente de forma adequada. As escolas também devem direcionar as informações sobre prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, bem como de uma gestação não desejada. Um ginecologista é de extrema importância auxiliando a escolher, se for o caso, métodos anticoncepcionais seguros e adequados ao grau de compreensão do deficiente ou da família, a qual deve monitorar seu uso. Pais e educadores nunca devem esquecer os preceitos básicos da educação sexual para essas pessoas especiais: colocar limites quando a situação exigir, pois compreender não é compactuar com a atividade sexual; ter clareza na colocação dos limites, utilizando linguagem compreensiva, com vocabulário adequado; responder sempre, direta e objetivamente.

O deficiente mental não precisa de piedade, mas de compreensão de sua condição e, principalmente, de esclarecimento convincente para adequar seu comportamento.

VALORIZAÇÃO

O Amor está em saber salientar os pontos comuns e aceitar as diferenças.

Dr. Thyrson Fraga Moreira, ginecologista, obstetra e terapeuta sexual

Eliana Martins de Freitas, psicóloga e terapeuta sexual

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