Sexo

Abuso sexual

postado em 9 de dez de 2018 07:22 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 9 de dez de 2018 07:22 atualizado‎(s)‎ ]

E a flor murchou...

Era a aluna mais extrovertida e comunicativa da classe. Seus longos cabelos negros encaracolados e suas sobrancelhas espessas faziam a moldura do rosto e dos olhos. Por sinal, o que primeiro sobressaía, quando ela atravessava a porta da sala de aula, era o brilho cativante desse olhar. Desde o primeiro dia de aula, apesar dos meus muitos anos de convivência com crianças, como professora, seu meigo rostinho chamou-me a atenção. A delicadeza dos traços fazia uma combinação harmoniosa com a doçura dos gestos. Ocupava naturalmente uma liderança inquestionável naquela turma. Liderava os jogos e as brincadeiras. Estimulava a participação de todos os colegas, demonstrando uma ausência de preconceitos, qualidade que sempre me fascinou. Favorecia a integração de todas as crianças, com uma habilidade invejável, mesmo as que, por motivos sociais, raciais ou religiosos, eram marginalizadas. Orgulhava-me de tê-la como aluna e emocionava-me ao observar discretamente seu comportamento.

Ficava imaginando de que força interior essa pequena menina era dotada para suportar dentro do lar um pai alcoólatra e violento e, mesmo assim, manter esse equilíbrio. A mãe, mulher submissa e passiva diante dos gestos de agressão desse pai autoritário, era incapaz de se impor para defender seus filhos. Apesar dessa característica, era a mantenedora do lar, pois o marido alcoólatra dificilmente encontrava emprego. Ele ficava quase o dia inteiro no casebre ou no bar da esquina. Havia um acordo tácito entre o pai e a mãe dessa família: cuidar dos filhos caberia a ele na ausência dela. Segundo informações de vizinhas, aquela menina angelical na realidade é que desempenhava o papel de mãe cuidando da casa e dos irmãos mais novos.

Um dia a flor murchou.

De modo súbito e inexplicável seu humor modificou-se, tornando-se arredia e irritadiça. Seus gestos de delicadeza e meiguice foram se transformando em gestos de agressão. Sua liderança natural desapareceu. Isolava-se no canto do pátio, na hora do recreio. Não liderava, não brincava e não sorria. Aquele riso cristalino foi se transformando. Naquele lindo rosto, a rima da boca tomou um sentido descendente de amargura e, na sua face surgiu um leito por onde escorriam as lágrimas de seus olhos. Fingindo fazer anotações ou corrigindo lições eu observava, com o canto dos olhos, aquela mudança súbita no sol de alegria que tinha sido aquela criança.

O que poderia ter acontecido?

Sou Educadora. Apesar de todas as dificuldades, amo minha profissão assim como meus alunos. Sou daquelas que ainda acreditam que é função das mestras se interessar por seus alunos e por suas dificuldades pessoais e familiares, como ocorre, felizmente, com a maioria das minhas colegas. Fingindo novamente corrigir um caderno com toda a atenção, fui lentamente caminhando em direção à menina. Eu disfarçava esse caminhar de rumo pré-determinado, rodando um lápis entre os lábios, procurando sutilmente lançar um olhar analisador a ela. Foi então que vi a mancha arroxeada em sua face esquerda. Seu lábio inferior também se apresentava edemaciado e discretamente pendente como se fizesse um "beicinho" brejeiro. Mas seus olhos vermelhos estavam cheios de lágrimas. A imagem era de uma flor amarrotada e murcha.

O que teria murchado aquela flor?

O que teria amarrotado a alegria daquela face?

Sentei-me a seu lado. Tentei envolvê-la em meus braços, para dar-lhe um pouco de carinho, mas fui subitamente repelida; afastei-me rapidamente de seu corpo. Percebi, pela sua linguagem corporal, sua necessidade de estar afastada de todo e qualquer contato físico.

Para onde tinha partido a afetuosidade e a receptividade daquela criança? Quem havia raptado a alegria de sua alma?

Só após muitos anos fiquei sabendo que aquela criança fora vítima de abuso sexual.

O abuso sexual geralmente acontece em casa, por pessoas das quais a criança gosta e nas quais confia. Nem sempre o abuso sexual é acompanhado de agressão física; na maioria das vezes, as lesões não deixam marcas aparentes, mas cicatrizes profundas no psiquismo da criança. Ser abusada por alguém em quem ela confia e de quem deveria receber proteção e cuidado destrói todos os elos de confiabilidade com as outras pessoas e com o mundo. A criança torna-se, muitas vezes, de tal modo ferida emocionalmente que se sente incapaz de amar e confiar em qualquer pessoa. Ao tentar restabelecer seus vínculos de afeto, através do namoro ou casamento, apenas consegue carrear para esse relacionamento a sombra de sua alma tristonha e árida - são adultos secos de afeto porque têm medo de amar. No amor não pode haver restrições; não pode haver temor. A entrega deve sempre ser total, mas o abuso sexual corta as asas do abusado impedindo que ele alce vôo nas emoções do afeto e do Amor.

Afinal, o que é abuso sexual?

É a utilização de uma pessoa por outra, através da violência, do poder, da autoridade ou da diferença de idade para obtenção do seu prazer sexual. Esse prazer não é obtido apenas através de relações sexuais propriamente ditas; pode ocorrer em forma de carícias, de manipulação dos órgãos genitais, voyeurismo, ou atividade sexual com ou sem penetração vaginal, anal ou oral. A experiência em si é bastante dolorosa e desorganizadora dos parâmetros de afeto da criança: há uma quebra da sua confiança básica nos pais ou demais adultos e, conseqüentemente, em si mesma. Mas pasmem: 50% dos abusos são cometidos por pais; 25% por padrastos e 25% por outros parentes ou amigos. Há quem pense que são somente as classes menos favorecidas as atingidas por esse mal; isso não é verdade; existe um grande contingente de abusadores nas classes sociais mais privilegiadas.

Mas se causa tanto sofrimento à criança, por que o abusador é tão pouco denunciado pelo abusado ou pela sua família?

A estratégia do abusador é convencer a vítima de que o fato acontecido entre eles é um segredo que deve ser guardado. Esse pacto de sigilo é, muitas vezes, reforçado pela violência ou pela ameaça. São tão maquiavélicas as manobras do abusador, que causam uma mescla de ameaça e sentimento de culpa por inserção, neste relacionamento, do suborno, através de tratamento especial ou de presentes. A criança abusada, com medo de que sua denúncia desestruture a família, se cala, gerando conseqüências desastrosas para si e seus familiares. O que mais choca é o pacto de silêncio entre os membros da família pelo medo da desestruturação e da perda das regalias, numa atitude egoísta e cruel. Desse modo, a vítima é imolada em benefício de alguém ou de muitas pessoas da família. Só o gesto corajoso da denúncia determinará a interrupção dessa prática criminosa e só o atendimento especializado à criança vitimizada sexualmente poder-lhe-á lhe devolver a alegria de confiar, de amar e de ser novamente feliz.

(Agradecimentos à Assistente Social Rosana Maria Russo André Leite Soares, especializada em Violência Doméstica, pela assessoria na elaboração deste texto.).

MENSAGEM

OBSERVAR

Observar os filhos, suspeitar das dores e oferecer compreensão.

A sexualidade nas pessoas especiais

postado em 7 de dez de 2018 07:59 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 7 de dez de 2018 08:00 atualizado‎(s)‎ ]

Ser feliz é direito de todo ser humano. Os deficientes mentais, mesmo tendo um desenvolvimento intelectual aquém da idade cronológica, também podem e devem possuir esse direito. Uma das formas de manifestação da felicidade é o exercício da sexualidade. Amar é uma das maneiras do indivíduo ser feliz por se sentir ligado a alguém. Embora a sociedade procure inibir as atividades sexuais entre os deficientes mentais, estas devem ser, se não incentivadas, pelo menos direcionadas de modo que não venham se transformar em fonte de angústia e preocupação para os que os cercam e, por que não dizer, para os que as praticam.

A sexualidade dos deficientes mentais está intimamente relacionada ao seu grau de deficiência. Os deficientes leves, por exemplo, são capazes de amar, de gostar da companhia de outra pessoa, de exercer sua sexualidade de modo semelhante a dos adultos, ressalvando as limitações próprias de sua deficiência. Amam como duas pessoas de doze ou treze anos, com a mesma paixão e o mesmo grau de companheirismo que muitas vezes temos dificuldade de encontrar na sociedade dita normal. Os deficientes moderados, cujo grau de maturidade mental é de uma pessoa de seis a sete anos, apresentam um comportamento sexual compatível ao de uma criança dessa idade. Têm curiosidade pelo próprio corpo ou pelo de outras pessoas, geralmente do mesmo grau de desenvolvimento intelectual. Os deficientes severos, com idade mental de uma criança de dois anos, conseguem exercer hábitos elementares de alimentação, higiene e vestimenta e também a sexualidade compatível com essa idade. A masturbação é uma atividade bastante comum nessas pessoas, buscando satisfação no próprio corpo. Apesar dessas manifestações sexuais, não conseguem ter um relacionamento sexual propriamente dito.

Nosso grande erro é julgar a sexualidade dos deficientes mentais pelos nossos próprios parâmetros e, principalmente, transmitir ou incutir nessas pessoas especiais nossos próprios preconceitos e tabus quanto à sexualidade . Os pais e os educadores, responsáveis pela sua educação, devem se despir desses preconceitos, deixando que o conhecimento e a compreensão a respeito de suas características sejam o norteador da orientação.

Um aspecto de significativa importância dessa educação sexual é estabelecer os limites do corpo, seja do educador ou deles próprios. Ensinar que existem limites é saber educar adequadamente; isso não significa que todos os contatos e gestos afetivos são condenáveis. É fundamental ensinar que existem áreas corporais públicas e privadas, mostrando ser inadequado o exercício de atividades corporais ditas privadas em ambientes públicos. A masturbação, e até a própria exploração corporal, embora não condenáveis são algumas dessas atividades privadas. O exercício da sexualidade, de modo geral, está preso às regras sociais e é permitido e aceito apenas para pessoas ditas normais, adultas, heterossexuais, casadas, que querem ter filhos e possam sustentar uma família. Como, na maioria das vezes, os deficientes mentais não se encaixam em alguns desses parâmetros, fica o cruel preconceito de que o exercício da sexualidade entre eles deve ser inibido; são proibidos de desejarem e serem desejados, de amarem e serem amados e, até mesmo, de terem filhos. É bem verdade que é fundamental e necessária uma monitoração por pessoas dispostas a lhes assegurar o apoio necessário. Reconhecemos que no Brasil essa responsabilidade fica quase que exclusivamente sob a tutela da família, que infelizmente nem sempre está em condições de dar esse apoio.

Educar o deficiente é educar a família e a sociedade, dando o parâmetro da igualdade de direito à felicidade. Os educadores e os métodos educacionais direcionados às famílias desses indivíduos devem estar voltados para desenvolver seu potencial e realizar sua integração social. Em função disso, os pais devem ser orientados adequada e precocemente a respeito do desenvolvimento sexual de seus filhos, evitando que interfiram erroneamente de maneira negativa. Esse proceder com certeza levará a uma melhor qualidade de vida para o deficiente mental como para sua própria família. Nessa educação a família é insubstituível. Contudo a parceria família-escola é que reforça o pleno desenvolvimento das habilidades e potencialidades, fazendo com que o deficiente compreenda as alterações que estão ocorrendo em seu corpo, as manifestações fisiológicas e os inexplicáveis anseios e desejos. Os principais códigos que regem o comportamento sexual devem ser ensinados para que eles possam conviver socialmente de forma adequada. As escolas também devem direcionar as informações sobre prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, bem como de uma gestação não desejada. Um ginecologista é de extrema importância auxiliando a escolher, se for o caso, métodos anticoncepcionais seguros e adequados ao grau de compreensão do deficiente ou da família, a qual deve monitorar seu uso. Pais e educadores nunca devem esquecer os preceitos básicos da educação sexual para essas pessoas especiais: colocar limites quando a situação exigir, pois compreender não é compactuar com a atividade sexual; ter clareza na colocação dos limites, utilizando linguagem compreensiva, com vocabulário adequado; responder sempre, direta e objetivamente.

O deficiente mental não precisa de piedade, mas de compreensão de sua condição e, principalmente, de esclarecimento convincente para adequar seu comportamento.

VALORIZAÇÃO

O Amor está em saber salientar os pontos comuns e aceitar as diferenças.

Dr. Thyrson Fraga Moreira, ginecologista, obstetra e terapeuta sexual

Eliana Martins de Freitas, psicóloga e terapeuta sexual

A primeira vez

postado em 2 de dez de 2018 09:11 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 2 de dez de 2018 09:11 atualizado‎(s)‎ ]

A iniciação sexual está sempre relacionada com a perda da virgindade.

Para as mulheres/esposas, a virgindade, associada à obrigação moral de fidelidade, era fundamental para preservar a transmissão das propriedades aos legítimos descendentes.

Para o homem, a virgindade não era valorizada e a iniciação sexual fora do casamento, com prostitutas, era até incentivada. Duas justificativas eram usadas: o homem se tornar apto a ser o instrutor sexual de sua casta esposa e reforçar o conceito vigente na época de que o verdadeiro homem deveria ter desejo, excitação e orgasmo por praticamente todas as mulheres.

Atualmente, os conceitos estão mudando e a virgindade, para a maioria dos homens e das mulheres, deixou de ser uma obrigação pré-matrimonial para tornar-se uma opção do indivíduo, respeitando seus próprios critérios de liberdade e responsabilidade.

Mas nem sempre as coisas acontecem desta forma. A pressão do grupo, a mídia, a necessidade de identidade grupal do adolescente e a insegurança levam-no a se iniciar sexualmente sem o amadurecimento necessário para esta decisão tão importante da sua vida.

A iniciação sexual, independente dos motivos, é um momento esperado, desejado e temido tanto para o homem quanto para a mulher.

Para o garoto adolescente, a primeira vez vem carregada de uma responsabilidade ansiosa que poderá acompanhá-lo por toda a vida. Ele tem que ter desejo (que nem sempre é despertado pela parceira); tem que ter ereção (pois homem que é homem fica com pênis ereto) e tem que ter orgasmo (no momento certo para dar prazer à parceira). A obrigação do desempenho é a grande vilã. Transforma esse momento, que deveria ser de prazer, numa expectativa ansiosa que vai interferir no próprio desempenho e no esperado prazer. Quando o adolescente vence todos esses obstáculos, ele adquire, perante a sociedade, o status de homem.

Para o sexo feminino, a primeira relação sexual vem acompanhada de muitos mitos e tabus. A grande barreira a ser vencida se refere às limitações sócio-familiares.

A primeira vez deve ocorrer no momento certo.

Quando é esse momento? Antes ou depois do casamento? Com que idade? Esse namorado é o parceiro ideal? E se o namoro acabar, como a menina se sentirá?

Os mitos, incutidos desde muito cedo a respeito da dor e do sangramento na primeira vez, geram medo e fazem com que a iniciação sexual feminina ocorra num clima de tensão e ansiedade, impedindo o relaxamento e a descontração tão necessários para uma relação sexual prazerosa. Ao invés do relaxamento, ocorre a contração dos músculos da vagina; em lugar do prazer, aparece a dor à penetração e, em alguns casos, um aumento do sangramento.

O ideal seria que a iniciação sexual ocorresse com alguém por quem o adolescente estivesse envolvido afetivamente tendo a reciprocidade desse sentimento; que tivesse também resolvido seus conflitos relacionados à sexualidade e que o casal assumisse uma atitude responsável em termos de anticoncepção e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

Se estas e outras questões estiverem resolvidas pelo adolescente (o que nem sempre acontece), a primeira relação sexual não tem porque ser algo traumático e tem a chance de ser uma vivência muito gratificante.

E nós, pais, devemos ficar alheios e distantes de nossos filhos nesse momento tão importante para eles?

Não estaremos sendo omissos em função de nossos próprios conflitos sexuais não resolvidos?

Devemos abdicar da responsabilidade de preparar nossos filhos para o exercício da sexualidade de forma sadia e gratificante?

Não adianta negar a sexualidade do adolescente nem querer impor nossos valores e critérios relacionados com a sexualidade. É preciso muito diálogo, muita reflexão entre pais e filhos para que o jovem possa, agora com mais segurança, decidir quando será o seu momento.

Ah! Como eles gostariam de compartilhar conosco suas dúvidas, suas angústias e terem em nós, seus pais, o porto seguro e cheio de compreensão que eles tanto precisam nessa fase difícil de suas vidas.

Mensagem

Educar para o Amor

Estar junto, dialogar e compreender é participar integralmente da vida de nossos filhos. É a melhor forma de expressar o nosso Amor e de ensiná-los a amar.

Dr. Thyrson Fraga Moreira, ginecologista, obstetra e terapeuta sexual

Eliana Martins de Freitas, psicóloga e terapeuta sexual

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