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Paradoxo
nutricional

Fonte:
Agência FAPESP (Alex Sander Alcântara)
O
Brasil vive uma transição nutricional paradoxal.
Um estudo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública
revela a prevalência crescente tanto de anemias como de
obesidade no país. A pesquisa, que analisou trabalhos realizados
nas últimas três décadas, aponta que essa
tendência estaria associada a mudanças no consumo
alimentar.
A pesquisa analisou 28 trabalhos publicados sobre anemia em crianças
e mulheres em idade reprodutiva, considerando a representatividade
estatística, padronização de técnicas
laboratoriais e critérios recomendados pela Organização
Mundial de Saúde (OMS). Para o estudo do sobrepeso e obesidade,
o trabalho avaliou o Índice de Massa Corporal (IMC).
Participaram do trabalho pesquisadores do Departamento de Nutrição
da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Instituto Materno
Infantil Professor Fernando Figueira (Imip) e do Centro de Pesquisas
Aggeu Magalhães, unidade da Fundação Oswaldo
Cruz em Recife.
De acordo com Malaquias Batista Filho, do Imip, o estudo procurou
se afastar do paradigma usado na maior parte das pesquisas, cuja
referência é o enfoque isolado dos diagnósticos,
particularmente no caso das doenças nutricionais, que são
analisadas como entidades próprias e autônomas.
A idéia foi juntar os dados em uma série cronológica
desde 1974 para verificar se eles apontavam alguma tendência.
Há três estudos que foram feitos com a mesma população
em momentos diferentes, por isso são mais adequados a análise
de tendências temporais. Os resultados revelam que, a cada
década em que o exame foi feito, a desnutrição
regrediu e a obesidade evoluiu, disse Batista Filho.
Embora o país venha superando o problema da fome, a nova
pesquisa aponta as anemias como um problema em ascensão.
Um dos estudos anteriores feito no município de São
Paulo, cujos dados foram utilizados, foi o caso mais representativo:
a prevalência do problema das anemias aumentou de 22% para
46,9% nas duas últimas décadas, entre as crianças
menores de 5 anos.
Os outros dois trabalhos se referem aos estados da Paraíba
e de Pernambuco, cuja tendência é de aumento das
anemias em 10% a cada dez anos.
Batista Filho, que também é professor aposentado
do Departamento de Nutrição da UFPE, ressalta que
o problema da anemia não é exclusivo dos países
subdesenvolvidos. A Europa tinha, segundo ressaltou, 20 milhões
de pessoas anêmicas há uma década.
Trata-se de um problema que foi progredindo na surdina,
sem muitas denúncias. Hoje existem estimativas de que dois
terços da população mundial podem ter anemia.
Houve redução nas formas mais graves, mas houve
ampliação em relação às formas
leves e moderadas de anemia, acrescentou.
No Brasil, de acordo com Batista Filho, o novo paradigma nutricional
gera a necessidade de se avançar para além dos problemas
relacionados à fome. Agora temos que pensar nos aspectos
qualitativos da alimentação e não simplesmente
compensá-la com calorias. Alimentação saudável
não se reduz ao problema da fome, mas tem relação
com vários outros aspectos nutricionais e de saúde.
Temos de retirar um pouco do centro da discussão
a questão da fome em si, e colocar agora um tema bem mais
amplo, que seria o da alimentação saudável
para todos os ciclos de vida. Hoje, inclusive, se percebe que
quando estamos cuidando da alimentação da criança
estamos cuidando do escolar, da gestante, do trabalhador e das
populações idosas do futuro, reforçou.
25/8/2008
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