Fonte:
Agência FAPESP (Fábio de Castro)
Os
hábitos de vida do Ocidente podem estar deteriorando a saúde da
população nipo-brasileira.
Estudo realizado por pesquisadores
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) entre 1993 e 2007, em Bauru
(SP), indicou uma alarmante prevalência de diabetes e fatores de risco cardiovascular
entre descendentes de japoneses.
No entanto, a fase final do estudo, que
consistiu em uma intervenção junto a essa população,
demonstrou que algumas mudanças na dieta e a prática de atividades
físicas podem ser medidas efetivas para combater o problema.
A
primeira fase da pesquisa, em 1993, indicou que a prevalência de diabetes
entre os descendentes de japoneses era de 20%, em média, contra 7,5% na
população brasileira em geral. Em 2000, a segunda fase revelou que
o problema havia se agravado: a prevalência de diabetes entre nipo-brasileiros
era de 35%.
Os resultados da segunda fase foram publicados na mais recente
edição da revista Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia.
A terceira fase foi realizada entre 2005 e 2007.
De acordo com a autora
principal do artigo, Antonela Siqueira, que atualmente é pesquisadora da
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo,
os descendentes de japoneses têm uma predisposição genética
aos males causados por fatores típicos do cotidiano ocidental, como sedentarismo,
estresse e alimentação rica em gordura e açúcar.
"A primeira fase do estudo indicou que a prevalência de diabetes
entre os nipo-brasileiros era quase o triplo do resto da população.
Em 2000, começamos a estudar a presença da síndrome metabólica
- o conjunto de fatores de risco cardiovascular, que inclui diabetes, hipertensão
arterial, distúrbios lipídicos e obesidade", disse Antonela.
Bauru foi escolhida, segundo a pesquisadora, por ter uma comunidade nipo-brasileira
ampla e pouco miscigenada, com fácil acesso ao hospital em que foram feitas
as análises clínicas. Em 1993, foram avaliados 647 indivíduos
de 40 a 79 anos, descendentes de primeira e segunda geração. Em
2000, o estudo foi ampliado para 1.330 indivíduos.
"Em 2000,
estudamos também os fatores dietéticos que poderiam contribuir para
a prevalência da síndrome metabólica, que, conforme detectamos
nessa época, era maior que 5%. O aumento do diabetes nos surpreendeu: passou
de 20% para 35% em apenas sete anos", afirmou.
Embora a população
nipo-brasileira não tenha uma obesidade importante, os voluntários
apresentaram alta taxa de gordura visceral. "O que importa para essas doenças
é a cintura abdominal e não a obesidade periférica. Para
os nipo-brasileiros, gordura no abdome significa perigo para a saúde. Os
problemas aparecem quando a medida passa de 102 centímetros, para um homem
ocidental, ou dos 90 centímetros, para um oriental", apontou.
Os
pesquisadores detectaram um aumento de glicemia - ou perda de tolerância
à glicose -, que foi associado principalmente ao consumo exagerado de carboidratos
refinados, sem fibra, como pão e arroz não-integrais.
"A
alta prevalência de síndrome metabólica foi associada a um
aumento no consumo de gordura saturada, que aumenta o colesterol ruim. A avaliação
longitudinal mostrou que o fator que mais contribuiu para isso foi um consumo
exagerado de carne vermelha", disse Antonela.
O estudo transversal
analisou de uma só vez, em uma série de exames, a condição
da população de descendentes de japoneses naquele momento e mostrou
que todos os indicadores ligados à síndrome metabólica haviam
aumentado entre 1993 e 2000.
"Havia aumento do colesterol, do diabetes
e principalmente dos triglicérides - associados ao açúcar
-, que apareceram aumentados em 66% da população. Enquanto o nível
normal é de 150 mg/dL, a média entre os nipo-brasileiros ficou em
240 mg/dL. Alguns indivíduos tinham valores próximos de mil",
afirmou.
A prevalência de doença cardiovascular - que pode
resultar em infarto, derrame, obstrução arterial periférica
e arteriosclerose, atingiu 14% da população analisada. "Se
fosse em idosos, essa prevalência não poderia ser considerada muito
alta. Mas, para uma população a partir de 30 anos, é altamente
preocupante", disse Antonela.
14/4/2008