*Fonte:
Agência FAPESP (Alex Sander Alcântara)
Uma
nova pesquisa analisou sites que oferecem programas de emagrecimento. O estudo,
de caráter exploratório, constatou que modelos oferecidos na internet
já incorporam a reeducação alimentar no lugar da tradicional
dieta rigorosa.
De
acordo com a autora Ligia Amparo da Silva Santos, professora adjunta no Departamento
Ciências da Nutrição da Escola de Nutrição da
Universidade Federal da Bahia (UFBA), o objetivo do trabalho foi chamar a atenção
para uma prática muito utilizada por quem deseja perder peso.
"A
ciência não tem explorado os sentidos e significados desses programas
na internet. Suponho que ainda seja precoce levantar conclusões, mesmo
que provisórias, mas um dos diagnósticos a ser investigado é
por que procurar tais programas e não profissionais de saúde",
disse Ligia.
Segundo o estudo, publicado em artigo na revista Physis,
Revista de Saúde Coletiva, a mudança de paradigma em relação
aos programas de reeducação alimentar - a reeducação
no lugar da "dieta rígida, monótona e rigorosa" - precisa
ser mais bem avaliada.
O estudo selecionou seis sites conhecidos, a partir
de uma amostra de 336 relacionados a programas de emagrecimento disponíveis
no Brasil, durante um período de dois meses. Os sites analisados (Cyberdiet,
Emagrecendo, Perca Gordura, Sempre em Forma, Good Light e Dieta Diet) foram divididos
em duas categorias: de conteúdos abertos e de conteúdos fechados,
só para assinantes.
Em ambos os grupos, foram analisadas imagens,
receitas, reportagens depoimentos e outros aspectos. De acordo com Ligia, os sites
abertos usavam uma estratégia bastante utilizada nas revistas femininas,
em que "personalidades funcionam como identificação e projeção,
servindo de estímulo ao público".
"Uma segunda
estratégia é a do 'antes e depois', que tem o intuito de demonstrar
os resultados do programa. É um recurso de colocar 'gente como a gente',
o que traz maior identificação com o público. Com as tecnologias
da informática, muitos sites sobrepõem fotos, alternando as imagens
do antes e depois do emagrecimento, em um jogo visual que pode causar importante
impacto em usuários potenciais", destacou.
Esses sites oferecem
muitos textos, reportagens e dicas sobre diferentes temas, do tipo propriedades
dos alimentos, alimentação e dieta, dicas do que fazer quando sentir
fome, orientações sobre atividades físicas e cálculo
do índice de massa corporal, que é um dos primeiros elementos visualizados
nas páginas.
Já os de conteúdo fechado oferecem também
espaços para compras de produtos, livros e visualização do
progresso da dieta. Os usuários têm um canal exclusivo de e-mail,
além de chat e telefone (com horários preestabelecidos). Especialistas
em nutrição, atividade física e psicologia ficam à
disposição dos usuários.
"Os depoimentos publicados
nos sites atribuem permanentemente uma situação de conforto e apoio
por meio desses profissionais. Trata-se de uma relação paradoxal,
na qual se sabe que há alguém constantemente presente, mas não
se conhece quem está controlando e auxiliando no processo", disse
a pesquisadora.
Gastronomia
e ciências da nutrição
De acordo com a pesquisa, os
múltiplos discursos na internet relacionados à dieta não
se afastam dos discursos médico-nutricionais e a referência à
dieta hipocalórica e hipolipídica não parece ser contestada.
Os textos são reelaborados, buscando elementos da vida cotidiana dos sujeitos
para consubstanciá-los dentro da lógica publicitária.
Foi
observada uma mudança de concepção nas tentativas de criar
estratégias educacionais. O "fazer dieta" vem cedendo espaço
para o "comer de tudo sem passar fome". A gastronomia entra, segundo
Ligia, como "elo importante do resgate do prazer em comer, ao estabelecer
uma aliança com as ciências da nutrição".
"O
gosto é um dos aspectos mais subversivos do corpo, o direito ao prazer
é uma espécie de reivindicação silenciosa do corpo
e sobre isso a nutrição precisa pensar junto com a gastronomia.
As ciências da nutrição, no bojo da sua história, secundarizaram
o prazer - um importante objeto da gastronomia - em prol da saúde. Isso
está sendo paulatinamente revisto", disse, enfatizando em seguida
o caráter ainda preliminar do estudo.
"Comer é muito
mais do que a ingestão de nutrientes para garantir a funcionalidade do
organismo na preservação e promoção da saúde.
Trata-se de uma prática cultural, construída e ao mesmo tempo construtora
de identidades, uma forma de sociabilidade e de prazer. O projeto da ciência
em transformar o comer em apenas nutrir o corpo não tem funcionado e a
resposta vem dos próprios sujeitos", afirmou a autora.
Para
ler o artigo "Os programas de emagrecimento na internet: um estudo exploratório",
disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP) acesse www.scielo.br/scielo.
28/1/2008