*Fonte:
Agência Fapesp (Washington Castilhos, do Rio de Janeiro )
Apesar
da falta de dados concretos sobre as causas do câncer de mama, sabe-se que
cerca de 10% dos casos da doença têm fundo genético, provocados
por alterações nos genes BRCA1 e BRCA2. Mas em cada país
são registradas alterações distintas, tornando difícil
um diagnóstico mais preciso para a doença.
Uma equipe do
Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, acaba de descobrir uma dessas
mutações no gene BRCA2. No entanto, o que torna o achado importante
é o fato de que o grupo também descobriu que a alteração
ocorre há mais de 2 mil anos, muito antes da formação de
Portugal como reino independente.
"Essa é uma alteração
fundadora genuinamente portuguesa. Até agora, sabemos que 23 famílias
em Portugal, uma na Bélgica, uma na França e outra encontrada recentemente
nos Estados Unidos possuem essa alteração, o que significa que elas
têm ancestral em comum, a despeito de pertencerem a países diferentes",
disse a médica oncologista Fátima Vaz, coordenadora do estudo, que
apresentou detalhes do trabalho na terça-feira (27/11), no 2º Congresso
Internacional de Controle do Câncer, no Rio de Janeiro.
Com a descoberta,
Portugal passou a ocupar o time dos poucos países que têm alteração
fundadora em um desses dois genes. Antes da descoberta do grupo, modificações
do tipo haviam sido identificadas na Finlândia, na Rússia, na Polônia
e na Espanha. Judeus ashkeniazi (com origem no centro da Europa) também
têm alteração genética fundadora já identificada
para o câncer de mama.
"A vantagem é que quando estudamos
famílias portuguesas de origem judaica e encontramos mulheres positivas
para a doença, não temos que identificar outras mutações
no DNA, o que é um trabalho difícil. Vamos investigar primeiramente
se existe a alteração fundadora judaica, nesse caso", explicou
Fátima.
A descoberta, de acordo com a cientista, permitirá
fazer o mesmo com as famílias legitimamente portuguesas em relação
à recentemente identificada alteração fundadora portuguesa.
"Isso tornará o trabalho de prevenção mais rápido,
uma vez que só vamos fazê-lo com aquelas mulheres que se mostrarem
positivas, isto é, que apresentarem tal mutação."
A
alteração só pôde ser identificada por meio da técnica
do PCR (reação em cadeia da polimerase) otimizada. "Tivemos
que fazer dois PCRs de confirmação, um em nível do DNA e
outro do RNA, pois esse é o que está mais próximo da proteína.
Essas mutações provocam câncer de mama porque a proteína
não está funcionando bem", explicou Fátima.
Segundo
a pesquisadora do Instituto Português de Oncologia, existem no mundo cerca
de 1,2 mil pessoas positivas a essas mutações, todas com ancestral
português comum. Desses, já foram rastreados 80, oriundos das 23
famílias portuguesas estudadas.
Ela espera agora estabelecer comunicação
com pesquisadores de outros países, como o Brasil, para investigar a ocorrência
de tais alterações. "Penso que provavelmente não vamos
encontrar outra alteração em Portugal tão prevalente quanto
essa", disse Fátima.
28/11/2007