Veja aqui outras imagens da Escola Alfredo Paulino
Trabalhos feitos pelas crianças na Oficina de Marcenaria.
 
Espelho para interruptor em mosaico, feito pelas crianças na Oficina de Marcenaria
 
Brinquedoteca
 
Detalhe do painel da brinquedoteca.
 
Parte da equipe do Alfredo Paulino.
 

 


Especial Escola

É pública, sim senhor!

Por Márcia Busanello

ProjetosUm espaço bonito
GestãoInclusão

Uma rua tranqüila e arborizada, um prédio igual ao de tantas outras escolas públicas. Na verdade, igual, igual não é, pelo menos não igual ao que estamos habituados a ver por aí. O prédio bem cuidado, sem pichações, sem janelas quebradas, sem nenhum sinal de depredação demonstra que estamos chegando a uma escola bem cuidada. E ela o é, de fato, não só por sua diretoria e seu corpo docente, mas por toda a comunidade.

Prof. Paulo SemeghiniO professor Paulo de Tarso Semeghini assumiu o cargo de diretor da escola Alfredo Paulino, no Alto da Lapa, em São Paulo, em janeiro de 1997. Quando chegou, a escola estava em estado caótico. Sem diretores efetivos que permanecessem nela por tempo suficiente para que houvesse uma organização, os professores faziam o que estava ao seu alcance ou o que era exigido pelas formalidades legais. No começo, ele quase desanimou, mas com apoio de alguns professores decidiu ficar, arregaçar as mangas e mudar a situação, aplicando na escola as idéias que sempre quisera pôr em prática desde que se tornara diretor efetivo, na década de 70. É claro que houve resistência, sempre há resistência ao novo, mas ele não se deixou intimidar, conversou com os professores que não concordavam com seu plano, alguns se adaptaram, outros se retiraram, e o trabalho começou.

A primeira providência foi chamar os pais a participarem da escola. Depois, conseguir uma coordenadora pedagógica afinada com suas idéias. Hoje essa coordenadora é Rosângela de Lima Yarshell, ativa defensora do trabalho desenvolvido na escola. Com um corpo docente formado basicamente por mulheres, a escola tem 25 professores, dos quais 8 capacitados para trabalhar com crianças com necessidades especiais. Sem isso o trabalho seria impossível, pois dos aproximadamente 430 alunos, mais ou menos 93 têm necessidades especiais.

A participação dos pais na escola sem dúvida foi o carro chefe de toda essa mudança. A escola nunca está fechada para a comunidade. Os pais têm livre acesso a ela e muitos que antes ficavam do lado de fora dos portões, esperando seus filhos, foram convidados a conhecer o espaço e hoje trabalham como voluntários.

Apesar de algumas mães terem sido contratadas pela APM para alguns serviços (a merendeira, por exemplo, é mãe de uma aluna), o voluntariado é a base do trabalho dos pais na escola. São contribuições variadas que vão desde a decoração da festa junina até mutirões para limpeza e pintura da escola, passando por projetos desenvolvidos ao longo do ano letivo. Há pais, principalmente de crianças com necessidades especiais, que tiveram muitos problemas com escolas para os filhos, mesmo escolas particulares. Ao chegarem ao Alfredo Paulino surpreenderam-se com o acolhimento que seus filhos tiveram e com o bom trabalho realizado com as crianças. Daí a passarem a ajudar a escola foi um pulo. Há quem ajude financeiramente, há quem dedique um eventual dia livre para fazer faxina na escola. Há uma mãe de aluno, psicopedagoga e diretora de uma universidade, que colabora na capacitação de professores. Há quem se ofereça para fazer animação de festas.

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Projetos

Projeto Pintuta em TelaHá também as pessoas que têm compromisso com alguns projetos específicos e dedicam-se a eles com afinco, como, por exemplo, Cícera, voluntária responsável pelo projeto Pintura em Tela, um dos mais consistentes e antigos da escola. Duas vezes por semana, Cícera vai à escola e dá aulas de pintura para as crianças. O material vem de doações recebidas - este ano, além de papelarias do bairro que doaram material, a FIZIO (Faculdades Integradas Zona Oeste) organizou um trote cidadão em favor do projeto, que consistiu na arrecadação de pincéis, tintas e telas. As pinturas feitas pelos alunos decoram os corredores do colégio e algumas estão à venda. A renda obtida reverte para o próprio projeto, tornando-o auto-sustentável.

Armátio reciclado pela marcenaria da escolaOutro projeto que merece destaque é o Projeto Marcenaria. Tocado por Kátia, mãe de um aluno, nele as crianças aprendem a trabalhar com madeira e fazem pequenos objetos, como porta-copos, chaveiros, mosaicos, espelhos para interruptores, bandejas etc. O material para o trabalho é garimpado das sobras de lojas do ramo. Apesar da marcenaria ser pequena, sua produção é muito importante, pois além dos objetos citados acima, que são vendidos nas festas e no bazar da escola, ela ainda produz brinquedos pedagógicos, como quebra-cabeças, e contribui para a reciclagem de móveis da escola. Como todo o mobiliário da escola é público, mesmo o que está em mau estado deve ser guardado, não pode ser descartado. Então, a marcenaria recicla tais peças e as transforma em novos móveis, às vezes com outra função. Foi assim que um armário velho da secretaria virou uma bonita vitrine para os trabalhos produzidos por outro projeto, a Oficina de Costura, que produz peças criativas e bonitas, como almofadas e bolsas de fuxico, tapetes, cachecóis e até colchas a partir de retalhos de tecido recebidos como doação. A oficina trabalha com uma máquina de costura pertencente à própria escola e algumas emprestadas.

Os projetos todos são geridos pelas mães, e o único que tem renda revertida para a APM é o Bazar Estrela (nome escolhido pelas crianças), o mais antigo projeto de todos. O Bazar funciona com base nas doações da comunidade, que vão de móveis a roupas, sapatos e livros. Às vezes as crianças molham ou rasgam suas roupas na escola, ou chegam com pouco agasalho, e nestes casos as roupas recebidas no bazar são aproveitadas pelos próprios alunos. Exceto isso, tudo é vendido. O bazar fica aberto todas as quartas-feiras, no começo da manhã e no final da tarde, e está sob a responsabilidade de duas mães de alunos.

Outras vezes o trabalho voluntário beneficia não só os alunos, mas também suas famílias. O projeto Encontro de Mães com Mães, por exemplo, funciona como uma espécie de terapia em grupo. Mensalmente as mães se reúnem para falar de suas dificuldades, de suas angústias, de seus problemas. Como a pessoa responsável, que também é uma mãe de aluno, é assistente social e trabalha em uma ONG com condições de encaminhamento, sempre que possível ela ajuda a resolver os mais variados problemas das famílias (como drogas, álcool e violência, por exemplo).

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Gestão

O plano de gestão da escola é revisto todos os anos. Todos os projetos realizados estão previstos no Projeto Pedagógico, feito com a participação da comunidade escolar e dos pais das crianças. Os conteúdos são baseados nos PCNs, como prevê a lei, mas o trabalho é feito com base nos projetos, e eles são inúmeros. Além dos já citados acima, há outros. Atualmente está sendo trabalhado, por exemplo, o Projeto Metrô, que levou as crianças especiais para uma visita a uma estação de monitoramento do metrô de São Paulo e agora está trabalhando várias disciplinas a partir desta visita . No final do ano está prevista uma exposição dos trabalhos feitos no decorrer da realização do projeto.

Professor Paulo nos diz: "Sempre achei que fosse necessária uma escola que envolvesse os pais, as mães, a família, com oficinas de trabalho dentro da própria escola, para que as pessoas pudessem até ganhar seu salário aqui dentro." De fato a Alfredo Paulino está aberta a isso. Quem quiser organizar algum curso em parceria com eles será bem recebido pelo diretor para discutir a proposta.

O trabalho com os alunos é bastante influenciado pela pedagogia Freinet. A Roda da Conversa já está implantada e é a primeira atividade do dia. Trata-se de um bate-papo que acontece nos 10 primeiros minutos da primeira aula. É um tempo de conversa livre. A criança fala o que quiser falar, aprende a ouvir e a ter respeito pela opinião dos outros, traz elementos importantes para o professor entender suas dificuldades e necessidades. Além do que isso ajuda muito na disciplina. Uma vez por semana, Rosângela faz uma roda de conversa geral, no pátio, que termina com o canto do hino nacional.

Quando questionado sobre o porquê de toda essa dedicação, professor Paulo nos diz sempre ter pensando numa escola única em todo o país, que tivesse uma filosofia de trabalho única, democrática, que envolvesse a comunidade e que criasse laços entre as pessoas e a escolas. "Eu já havia tentado fazer isso antes, mas acho que aqui foi a primeira vez que fui ouvido. As pessoas entenderam minha proposta e me ajudaram a concretizá-la."

Para os diretores que quiserem fazer em suas escolas as transformações que o professor Paulo implementou na dele, o conselho é só um: tenham coragem e procurem o apoio da comunidade. Chamem os pais para dentro da escola, pois eles são os principais interessados, os melhores fiscais e os maiores aliados na busca de uma escola melhor. Sem a ajuda da comunidade é praticamente impossível mudar uma escola. E quando a comunidade percebe que a escola está sendo bem gerida, ela participa sem hesitação, ela acredita no trabalho e passa a defender a proposta da escola. Não dá para esperar que o incentivo para esse tipo de coisa venha de cima, é preciso arregaçar as mangas e trabalhar.

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