Obrigatoriedade da Sociologia e da Filosofia no Ensino Médio abre novas perspectivas de trabalho

Fonte: USP Online (Kívia Costa)


Spinoza, Florestan e Hume já não serão nomes estranhos para os ingressantes na vida universitária. O ensino de Filosofia e de Sociologia passou a ser obrigatório no Ensino Médio em todo o território nacional, para a rede pública e privada, com homologação de decisão do Conselho Nacional da Educação (CNE) pelo ministro da Educação Fernando Haddad, no dia 11 de agosto. Amaury Moraes, professor da Faculdade de Educação (FE) da USP e autor da proposta enviada ao MEC (na qual foi embasado o texto aprovado pelo CNE), diz que proposta abre novas perspectivas de trabalho e que seu sucesso depende da abordagem dada ao conteúdo. As disciplinas já eram obrigatórias em 17 estados e no Distrito Federal, sendo que em São Paulo somente Filosofia era obrigatória.

À primeira vista, trata-se de mais uma possibilidade de emprego para duas áreas tradicionalmente tidas como de futuro profissional incerto. "Ela aumenta as perspectivas de emprego e a tranqüilidade dos estudantes", comenta Caio Dias, aluno do primeiro ano de Ciências Sociais na Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ao mesmo tempo, pode ir ao encontro das aspirações profissionais dos estudantes. "Acho que muitas pessoas já tinham um projeto de educador mesmo antes da medida", observa Milena de Lima, também estudante de Ciências Sociais na USP.

Contudo, permanecer na universidade parece ser o objetivo dos estudantes, mesmo que os postos de trabalho neste meio sejam bastante limitados. Como resume o aluno de Filosofia da FFLCH, Luciano Laface, "é verdade que a perspectiva de trabalho aumenta, já que a obrigatoriedade aumenta a demanda por professores. De qualquer forma, a principal atividade fim dos que querem seguir na área continua sendo a pesquisa e a docência universitária".

Dificuldade
A própria viabilidade de aplicação da medida é um aspecto polêmico. Alguns temem um número insuficiente de formados, fazendo com que os postos de professores de Filosofia e Sociologia sejam ocupados por profissionais de outras áreas, comprometendo a qualidade das aulas. "Não acho que há professores suficientes, e tudo pode se transformar numa aula de conhecimentos gerais", opina Bruna Coelho, estudante do curso de Filosofia. O professor Amaury, não obstante, assegura que as faculdades brasileiras dariam conta da demanda. "Só a USP forma pelos menos 50 alunos por ano e agora vem um número maior de alunos fazer licenciatura".

A eficiência do ensino de Filosofia e Sociologia na formação dos estudantes mais jovens dependerá bastante da forma como os conhecimentos vão chegar até eles. Nesse sentido, a medida faz repensar a formação também dos graduandos. Na avaliação de Marta Vitória, professora de Filosofia de Ensino Médio na Escola de Aplicação e formada pela FFLCH, "os cursos de Filosofia não costumam discutir o ensino da disciplina e só a Faculdade de Educação e não é suficiente. A medida vai colocar em pauta uma discussão que se faz necessária há alguns anos". A Sociologia pode carecer do mesmo tipo de debate. "Acho que pelo menos aqui a formação é para pesquisa", comenta o aluno de Ciências Sociais da USP Vítor César.

Amaury explica que nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio do MEC, em que coordenou a equipe de Sociologia, propõe três possibilidades de ensino que se cruzam. Os professores podem ensinar sob uma perspectiva teórica, por meio de análises e historização das teorias sociológicas, como o marxismo ou funcionalismo, por exemplo; a conceitual, com explicação dos conceitos de Estado, ideologia ou partido político; e temática, em que um grande tema, como desigualdade social, seria debatido com um ponto de vista sociológico. A idéia é "ao discutir-se algum conceito ou tema próximo do aluno, buscar-se numa teoria a explicação. Não é tentar repetir em sala de aula o conteúdo da graduação", esclarece o professor.

Filosofia e Sociologia pra quê?
Muitos dos que decidiram seguir essas carreiras devem ter ouvido a pergunta, questionando a importância de áreas do conhecimento tidas como pouco acessíveis para a maioria. Não obstante tem ocorrido uma solicitação crescente tanto da filosofia quanto da socilogia nos últimos anos. Um reflexo de mudanças de referenciais, no entender de Marta: "passamos por um período de crise de referencial muito grande e há uma crença de que a filosofia pode dar respostas para isso. Ela e a sociologia vão dar algum auxílio, desenvolver uma série de habilidades, mas não acredito que são salvacionistas".

O fato de as duas disciplinas estarem historicamente mais distantes dos ciclos de conversa pode gerar algum temor de que os alunos do Ensino Médio tenham dificuldades específicas para entendê-las. Para Amaury, contudo, este receio não se sustenta: "os alunos estão tão preparados quanto estão ou não para outras disciplinas".

Aos futuros professores fica, pois, o desafio de quebrar esse mito de coisa difícil e distante que envolve as disciplinas, no esteio da máxima kantiana "não se ensina Filosofia, ensina-se a filosofar", raciocínio aplicável de forma análoga à Sociologia. Como observa o estudante Luciano Laface sobre seu curso. "Podemos filosofar sobre o cotidiano e as coisas simples da vida quando nos damos conta de que a filosofia não é um conteúdo, mas uma prática, uma postura diante das coisas e da vida".

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