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Segmentando
o ensino para um novo aprender

Josiane
Benedet
Ela já participa
do coral, vai entrar na hidroginástica, nas aulas de informática
e inglês. "Tenho muitas encomendas de costura e não
está me sobrando horário livre", justifica Arminda
da Conceição dos Santos, 77 anos, profissional de alta-costura
aposentada e uma das alunas do Programa de Estudos da Terceira Idade,
da PUC-PR. "Eu não gosto muito de inglês, mas hoje
em dia não se pode mais ficar sem. A informática também,
precisamos dela a todo momento", completa.
Incentivada para
voltar a estudar pelos quatro filhos, ela vai sozinha de ônibus
para a universidade várias vezes por semana. "Estou há
mais de seis anos no programa. Eu e meus colegas nos sentimos mais responsáveis
pelo que fazemos. Estudar nos tira tempo para pensar que dói
ali ou dói aqui".
Assim como Arminda,
outros alunos acima dos 60 anos estão ocupando as cadeiras das
universidades de todo o Brasil, mostrando que para quem gosta de ensinar
existe um novo público muito mais ávido e exigente. O
único e importantíssimo pré-requisito para os professores
é ter uma nova concepção de velhice. Quem diz isso
é a escritora Mariúza Pelloso Lima, autora do livro Gerontologia
Educacional - Uma Pedagogia Específica para o Idoso, Uma Nova
Concepção de Velhice, publicado pela editora LTR.
Para a autora, a gerontologia é um novo saber. "Não
se pode encher a cabeça desse aluno de informação.
O que tem de ser trabalhado é uma educação planejada,
que mude a forma da pessoa ver o seu próprio envelhecimento".
Ela acredita que
o ideal é que os conteúdos partam da problemática
do dia-a-dia do próprio aluno, como ir a um supermercado ou a
um caixa automático. "Quando dou aula, costumo elencar menos
disciplinas e dar mais tempo para que elas sejam discutidas". Quem
compartilha a mesma opinião é a coordenadora e professora
da Faculdade da Terceira Idade de Vinhedo, Jacy Padilha Acordi. Para
ela o objetivo do curso é atualizar os conhecimentos e priorizar
a qualidade da informação. "Contratamos profissionais
de altíssima qualidade para ensinar a esse público que
cada vez mais se interessa por assuntos diversos".
Números
do "novo mercado" - A população com mais
de 60 anos no Brasil aumentou de 4% em 1940 para 8,6% em 2000. Em 2002,
a estimativa era de 15 milhões de brasileiros nessa faixa. E,
segundo o IBGE, em 2020 esse número deve atingir 15% da população
do país. Ou seja, quem investir nesse segmento de educação
poderá contar com um bom público. "É preciso
pensar que a velhice é a mais longa etapa da vida de uma pessoa,
principalmente agora, quando é possível se viver até
os 100 anos. Dos 60 aos 100, são 40 anos", comenta Jeanete
Liasch Martins de Sá, idealizadora e coordenadora da Universidade
da Terceira Idade da PUC Campinas. "Não é um filão
para ganhar dinheiro de um idoso, porque ele vive de aposentadoria e
tem despesas altas. Mas é um público que só tende
a crescer", afirma.
Jacy discorda e
acredita que daqui a alguns anos, os profissionais da educação
estarão lucrando com esse público. "Na faculdade
de Vinhedo não é necessário diploma de curso superior
para estudar, mas a maioria dos nossos alunos são profissionais
de várias áreas, aposentados, que não querem parar
de adquirir novos conhecimentos".
Modelos de Ensino
- A Universidade Aberta da terceira idade da PUC Campinas foi uma das
pioneiras no País, inspirada no modelo de Toulouse, França,
e adaptada com base na Universidade Autônoma do México.
"Não oferecemos cursos fragmentados, mas sim uma proposta
pedagógica", esclarece Jeanete. "Trabalhamos com módulos
abordando temas como a cultura, a vivência, aspectos sócio-econômicos
e legais... e os próprios professores da PUC ministram aulas,
assim como pessoas atuantes na sociedade. "Já passaram por
aqui mais de 1,5 mil alunos. Atualmente, temos 150".
A coordenadora explica
que existem três modelos diferentes de cursos para a terceira
idade: a Universidade da Terceira Idade (como a da própria PUC
Campinas), a Universidade para a Terceira Idade (com disciplinas regulares
abertas, como num curso de extensão) e a Universidade Aberta
à Terceira Idade (onde não há uma proposta pedagógica
articulada, mas uma abertura das classes normais aos idosos). Dentro
dessas categorias, existem hoje no Brasil mais de 200 cursos, 50 deles
só em São Paulo.
O "novo"
aluno - Lecionar para a terceira idade ainda é diferente.
Quem já trabalha com eles, aponta como diferenciais: a experiência
de vida, o conhecimento popular adquirido, a capacidade de responder
melhor às adversidades, a atenção, a maior capacidade
ao distinguir o essencial do secundário, a facilidade de envolvimento
com as questões sociais e a capacidade de recordação.
"Na verdade é uma troca de experiências na qual cada
professor utiliza uma técnica diferente para motivá-los",
afirma Jacy.
"Por isso mesmo
o professor tem de ser especial", complementa Jeanete. "Tenho
casos de professores que tinham dificuldades para dar aula aos jovens
e que, depois de terem contato com os alunos da terceira idade, aumentaram
o rendimento com os mais jovens, até porque os alunos da terceira
idade não querem somente uma simples distração,
querem conteúdo. "Nunca me interessei em participar daqueles
grupos que fazem bordados e bailes. Eu queria aproveitar o tempo que
tenho para aprender coisas úteis", diz Arminda. É
por isso que em Vinhedo, os coordenadores optaram por uma grade diferenciada,
oferecendo aulas de psicologia, português, gerontologia, OSPB,
inglês, espanhol, teatro, computação e educação
física, além de palestras e visitas a museus.
Andragogia
- Cunhado em 1974 pelo educador Pierre Furter, professor de educação
comparada da Universidade de Genebra, num artigo intitulado A Formação
do Homem Inacabado - Ensaio de Andragogia, o termo serve para definir
a concepção, filosofia e prática da educação
para adultos. Entretanto, no Brasil, a palavra corresponde a uma situação
bem diferente. "Aqui, quando nos referimos à educação
de adultos estamos nos referindo à escolarização
tardia", diz o pedagogo Luiz Carlos Moreno, consultor em recursos
humanos e educação e professor no Centro Universitário
Barão de Mauá. "Em outras nações, no
assim chamado mundo desenvolvido, a concepção é
filosófica e metodologicamente embasada. Um professor para a
terceira idade não pode ser um professor qualquer. Ele tem de
ter uma formação específica para isso".
Entre as qualidades
indicadas no perfil desse profissional, Moreno enumera: capacidade de
adaptação, equilíbrio emocional, senso de dever,
sinceridade e coerência de comportamento, respeito pelo ser humano
em todas as situações da vida, entusiasmo e otimismo,
disposição de mais dar do que receber, forte senso de
responsabilidade e empatia. "Isso nas condições intrínsecas
desse professor", completa. "Nas extrínsecas ele tem
de ter preparo em conteúdo de um campo de conhecimento, cultura
geral e atual, suficiente compreensão de andragogia afim de poder
perceber o processo de ensino - aprendizagem, além de um suficiente
preparo em didática, para fazer o ensino mais adequado e eficaz,
tornando o educando cada vez mais consciente de si, do seu potencial
e da realidade em que se insere e em que atua".
Quebrando o isolamento
- "Quem está na terceira idade está espacialmente
isolado, socialmente marginalizado e afetivamente esquecido", diz
João Bakker Filho, coordenador do Programa de Estudos da Terceira
Idade, da PUC-PR. "A pessoa quando nasce, tem como objetivo envelhecer.
Ela cresce, começa a trabalhar e vai envelhecendo. E quando chega
na maturidade, continua a envelhecer. Mas aí vem a pergunta:
Para quê? Ela não quer mais ter filhos, não precisa
mais de carro novo e nem de emprego. Por isso, o que cada um de nós
tem de descobrir é um novo sentido para a vida. É isso
que nós trabalhamos na educação para a terceira
idade. Eu mesmo, com 70 anos, continuo dando aulas na universidade para
jovens. Minha ação docente hoje, é muito diferente
do que quando me formei". Um dos principais objetivos das faculdades
da terceira idade é vencer o preconceito, acrescenta Jacy Padilha,
coordenadora e professora da Faculdade da Terceira Idade de Vinhedo.
Bakker, que também
é psicólogo com mestrado em Gerontologia, explica que
o gasto em prevenção de doenças é sempre
muito menor que o da cura. Numa universidade de terceira idade, essa
prevenção consiste em trazer o aluno de volta à
atividade. "Quando a pessoa envelhece, a preguiça e o cansaço
dela aumentam. Os estímulos internos e externos diminuem. E se
antigamente a ênfase era dada ao professor e depois passou a ser
dada ao aluno, hoje ela está na relação entre os
dois. Os conceitos mudaram e a dinâmica também. A sala
de aula do idoso não é diferente da sala de aula do jovem.
O único desafio é para o professor, porque os idosos são
muito mais críticos e também exigem mais afetividade".
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