Fonte:
Agência FAPESP (Fabio de Castro)
Os
alfabetizadores de jovens e adultos que atuam em programas organizados
pela sociedade civil, em sua maioria, não são formados
para a docência e são provenientes de famílias
de baixa escolaridade e de alta vulnerabilidade social.
Um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
analisou o universo desses alfabetizadores, enfocando como eles
adquirem seu conhecimento, como se relacionam com a leitura e
a escrita e como superam dificuldades sociais para assumir papel
importante na luta contra o analfabetismo.
A tese de doutorado, defendida por Claudia Vóvio no Instituto
de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, ganhou o prêmio
de teses do Centro de Cooperação Regional para a
Educação de Adultos na América Latina e Caribe
(Crefal). O organismo internacional, com sede no México,
foi criado em 1950 por iniciativa da Organização
das Nações Unidas para a Educação,
Ciência e Cultura (Unesco).
A pesquisa, "Entre discursos: Sentidos, Práticas e
Identidades Leitoras de Alfabetizadores de Jovens e Adultos",
foi orientada por Angela Kleiman, coordenadora do Grupo de Pesquisa
Letramento do Professor do IEL.
De acordo com Claudia, o estudo foi feito a partir de sua participação
em processos de formação continuada de educadores
de pessoas jovens e adultas em programas organizados pela sociedade
civil.
"As inquietações que motivaram o estudo eram
relativas às necessidades formativas e de profissionalização
desses alfabetizadores. A pesquisa investiga e descreve os sentidos,
as identidades leitoras, os acervos e as práticas de leitura
em que eles estão envolvidos", disse.
Segundo ela, os programas de alfabetização de jovens
e adultos criados por iniciativa da sociedade civil - incluindo
movimentos sociais, centros comunitários e sindicatos -
têm grande relevância, uma vez que o ensino público
não tem vagas para absorver toda a demanda potencial por
alfabetização. Os dados da última Pesquisa
Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2006, mostram
que o país tinha então 15,5 milhões de analfabetos
com mais de 10 anos de idade.
"Esses alfabetizadores não têm uma formação
específica para a docência. A problemática
central da tese diz respeito ao estudo dos letramentos dessas
pessoas, que têm percursos irregulares de escolarização
e estão em condição de vulnerabilidade social",
destacou.
A pesquisa foi realizada junto a alfabetizadores que atuam em
um programa de alfabetização de jovens e adultos
de iniciativa não-governamental: o Programa Educar para
Mudar, do Conselho Comunitário de Educação
e Cultura e Ação Social, uma organização
não-governamental localizada em Itaquaquecetuba (SP).
"A organização não-governamental tem
uma parceria com o governo federal e recebe verbas para a organização
das turmas e pagamento de professores e coordenadores. Os locais
são cedidos pela comunidade", explicou Claudia. A
região de Itaquaquecetuba, segundo ela, não tem
um programa público que ofereça alfabetização
para jovens e adultos.
Auto-imagem positiva
Os
programas de formação continuada oferecidos aos alfabetizadores,
de acordo com o estudo, têm papel fundamental. "É a instância
na qual eles dão continuidade à sua formação como
leitores e que lhes permite dar conta de uma atribuição educativa
tão complexa", afirmou.
A pesquisadora utilizou uma metodologia
etnográfica, que incluiu dinâmica de rodas de conversas, de práticas
de leituras conjuntas, entrevistas, visitas a salas de aula e aplicação
de questionários. "Trabalhei dessa maneira junto a nove dos 49 professores
da unidade. A metodologia permitiu a geração de dados. Os encontros
foram feitos quinzenalmente", explicou.
Claudia procurou descrever
como os alfabetizadores tomam posse de significações culturais atribuídas
à leitura, à condição de leitor e aos modos de ler,
além de investigar os sentidos atribuídos por eles a suas histórias
como leitores. Outra questão era saber como se apropriam de objetos culturais
relacionados ao universo da escrita a partir da participação em
espaços onde se pratica a leitura.
Segundo ela, ao contrário
dos professores que trabalham em programas formais de alfabetização,
os alfabetizadores comunitários, apesar de toda adversidade, constroem
uma auto-imagem bastante positiva como leitores.
"Os professores
constróem uma imagem bastante autodepreciativa, manifestando uma falta
de confiança em sua própria capacidade de cumprir o papel de alfabetizadores.
Esses alfabetizadores, por outro lado, se afirmam como leitores e discutem seu
papel de uma perspectiva muito positiva, de autolegitimação",
afirmou.
Outro fato destacado na tese é que os alfabetizadores
do programa, que atua desde 1997 no local, criaram uma rede de intercâmbios
sociais altamente dinâmica. "Mesmo com condições de trabalho
bastante improvisadas, por falta de espaço, material e apoio, eles conseguem
gerar alternativas para dar conta de todo o processo de alfabetização",
disse.
6/5/2008