Fonte:
Agência FAPESP (Alex Sander Alcântara)
A
expansão do ensino fundamental no Brasil nas três últimas
décadas promoveu uma democratização do acesso à educação.
Em conseqüência da universalização, a exclusão
e a desigualdade geradas pelo ensino mudaram de natureza e de lugar. Hoje, o fator
de exclusão é a qualidade do que se aprende.
O diagnóstico
é do professor Romualdo Portela de Oliveira, da Faculdade de Educação
da USP em pesquisa de livre-docência.
"Se não percebermos
que a desigualdade gerada pela educação atualmente é outra,
não estaremos preparados para enfrentá-la adequadamente. Paradoxalmente,
mais educação gera demanda por mais educação",
afirmou Portela.
Com base em uma análise histórica, o pesquisador
explica que o objetivo do estudo foi demonstrar que "o movimento de expansão
do ensino fundamental e médio supera o histórico processo de exclusão,
gerando novas contradições".
"A superação
da exclusão por falta de escola e por múltiplas reprovações
dá visibilidade à exclusão gerada pela ausência de
aprendizado ou pelo aprendizado insuficiente, remetendo à discussão
acerca da qualidade do ensino", enfatizou.
De acordo com o pesquisador,
apesar do acesso mais amplo, a desigualdade e a exclusão permanecem. "O
ensino fundamental não deixou de ser uma etapa produtora de desigualdade
educativa. Os discriminados de ontem continuam a ser os discriminados de hoje.
Mas a desigualdade existente hoje não é mais a mesma e nem ocorre
nos mesmos termos da que ocorria no passado."
O pesquisador focalizou
a análise na "dinâmica interna do sistema educacional".
Seguiu um caminho contrário ao das correntes que atribuem as mudanças
no processo educacional apenas à "agenda internacional" de organizações
como o Banco Mundial.
"O problema é que esse tipo de análise
é refém, de maneira estática, da 'teoria do espelho', segundo
a qual a educação seria um reflexo da correlação de
forças vigentes na sociedade como mera reprodutora dos interesses dominantes.
Esse enfoque, apesar da forte retórica, não vislumbra contradições
ou as reduz a conflitos ideológicos. Daí a recorrente análise
de documentos de organismos internacionais como expressão do que ocorre
de fato", afirmou.
Apesar
de as reformas iniciadas na década de 1990 estarem pautadas em uma "agenda
mundial", a concretização das políticas educacionais
se daria com diferenças, ênfase e amplitude em cada país.
É o que vem ocorrendo, segundo Portela, com o ensino superior.
"Há
algumas décadas, a cobrança de anuidades em universidades públicas
faz parte das recomendações das agências internacionais. No
Brasil, caminhamos em sentido oposto, assegurados pela Constituição
de 1988. Em outros países, a cobrança de anuidades no ensino superior
público foi implantada recentemente. Destacam-se as experiências
da Polônia, Chile e Colômbia, nas quais o processo de privatização
se acentuou no último período", exemplificou.
Segundo
os dados apresentados no estudo, em 1965 as séries que hoje compõem
o ensino fundamental tinham 11,6 milhões de matrículas, passando
para 15,9 milhões em 1970. No período militar (1965-1985), as matrículas
aumentaram 113,8%, com um crescimento médio de 3,9% ao ano. No período
posterior (1985-1999), o crescimento total foi de 45,6%, com média de 3,3%
ao ano.
"Foi nesse segundo período, por volta de 1990, que
o número de alunos matriculados atingiu 100% da matrícula bruta,
ou seja, o sistema alcançou a capacidade potencial de atendimento aos alunos
na faixa etária", disse Portela, explicando que a taxa de matrícula
bruta indica a capacidade de atendimento do sistema, ao passo que a taxa de matrícula
líquida se refere ao grau de atendimento dentro da faixa etária
ideal.
No período de 1975 a 2002, o número de matriculados
no ensino fundamental no país cresceu 71,5%, passando de 19,5 milhões
para 33,5 milhões, atingindo a marca de 36 milhões em 1999. Em 1975,
segundo o IBGE, a população de 7 a 14 anos era de 21,7 milhões
e, em 2003, de 28,3 milhões. A população dessa faixa etária
cresceu 24,4%, aproximadamente um terço do aumento no atendimento escolar.
Isso indica que houve uma maior absorção das crianças e adolescentes
nessa etapa da educação básica.
De acordo com Portela,
apesar de ainda distante do ideal, o processo de expansão do ensino se
fez sentir a partir da década de 1990 também no ensino médio,
que, historicamente, era reduto de "diminuta parcela" da sociedade.
"A universalização do ensino fundamental gerou duas
novas demandas populares por acesso à educação. Uma materializada
na matrícula no ensino médio - e mesmo no ensino superior - e outra
que se refere à questão da qualidade. É a qualidade que ocupa
o centro da crítica ao processo presente de expansão, tornando-se
a questão central da política educacional referente à educação
básica nos próximos anos", destacou.
Para ler o artigo
Da universalização do ensino fundamental ao desafio da qualidade:
uma análise histórica, de Romualdo Portela de Oliveira, na biblioteca
on-line SciELO, clique
aqui.
28/12/2007