Projeto põe professor da rede estadual de ensino no universo das Geociências

Fonte: Jornal da UNICAMP (Manuel Alves Filho)

Há dez anos, um grupo de docentes do Instituto de Geociências da Unicamp, apoiado por estudantes de pós-graduação, iniciou um projeto voltado à formação continuada de professores em exercício da rede estadual de ensino. Além de contribuir para a qualificação da categoria, a iniciativa tinha por objetivo investigar e propor soluções aos principais problemas de ensino e aprendizagem identificados em sala de aula, notadamente os relacionados à área das Ciências da Terra.

Pesquisas envolvem hoje 80 professores
De lá para cá, o projeto desdobrou-se, colheu bons resultados e fez importantes constatações. "Ao longo do trabalho, nós pudemos identificar que a deficiência na formação desses educadores é apenas um ponto da chamada crise da educação. O outro lado dessa moeda é a inexistência de programas que permitam o engajamento desses profissionais em atividades que aprimorem seu conhecimento, como a pesquisa", afirma o professor Pedro Wagner Gonçalves, um dos coordenadores dos projetos.

Participam atualmente da experiência cerca de 80 professores do ensino básico. Ao longo dos anos, foram envolvidos professores de Campinas, Jaguariúna, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto e Machado, esta última localizada em Minas Gerais. De acordo com o docente do IG, a adesão é voluntária e aberta a profissionais de todas as disciplinas. "Esse critério é importante, pois nos permite trabalhar os assuntos relativos às Geociências de forma interdisciplinar", explica Gonçalves.

A estrutura do projeto, prossegue o docente do IG, é horizontal, pois considera que os professores-alunos são os que melhor conhecem a própria prática. Freqüentemente, os temas dos estudos são definidos por eles. A maioria tem relação com a realidade da cidade onde vivem ou com dúvidas surgidas em sala de aula. A partir de algumas questões preliminares, os educadores da rede estadual partem então para a pesquisa propriamente dita, que envolve desde levantamento histórico e bibliográfico até trabalho de campo.

Um exemplo desse tipo de atividade, segundo Gonçalves, vem do grupo formado em Ribeirão Preto. Lá, os professores-alunos decidiram investigar os motivos da ocorrência de sucessivas enchentes em variados pontos da cidade. Para isso, fizeram um levantamento sobre a série histórica de chuvas e a relacionaram aos episódios de inundações. Depois, fizeram visitas aos locais afetados, entrevistaram moradores e comerciantes e analisaram o modelo de ocupação urbana. "Ao final do estudo, eles perceberam que a questão das enchentes é muito complexa e vai além, por exemplo, do problema do lixo que é jogado na rua e entope as bocas-de-lobo. Além disso, também aprenderam sobre como a água circula no planeta e como é o comportamento de um rio, desde a nascente até a foz", relata o docente do IG.

Como conseqüência desse aprendizado, os professores da rede estadual de Ribeirão Preto decidiram formular, junto com seus alunos, uma explicação para as inundações que ocorrem no centro da cidade. Compreenderam, então, porque as soluções aplicadas no decorrer do tempo mostraram-se ineficazes. Em Campinas, um grupo também produziu um estudo relacionado com a questão ambiental na região do Distrito Industrial.

Na opinião de Gonçalves, esse tipo de aprofundamento tende a contribuir para a melhoria do ensino e da aprendizagem nas escolas públicas. Ao participarem dessa experiência, analisa o docente do IG, os educadores adquirem um olhar mais crítico em relação ao mundo e à própria função. Dessa forma, conseguem estabelecer um contraponto à realidade encontrada na escola pública, onde o ensino é quase sempre superficial e fragmentado. No caso específico das disciplinas que tratam dos temas relativos às Geociências, explica Gonçalves, os conteúdos normalmente são abordados de forma precária.


14/9/2007

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