| Como
uma casa no campo  Fonte:
Agência FAPESP (Fábio de Castro)
O
déficit habitacional em áreas rurais no Brasil é de 1,8 milhões
de moradias, segundo o Ministério das Cidades. Buscando alternativas para
enfrentar o problema, um projeto coordenado por pesquisadores em São Paulo
levou ao desenvolvimento de tecnologias inovadoras que possibilitaram a construção
de 42 casas de baixo custo em um assentamento rural no município de Itapeva,
no interior do estado. O
trabalho, desenvolvido no âmbito do projeto Inovarural com recursos do Programa
de Tecnologia de Habitação (Habitare), da Financiadora de Estudos
e Projetos (Finep), levou em conta a sustentabilidade socioambiental da construção,
que teve ampla participação das famílias em todas as etapas
de produção. Cada casa teve custo aproximado de R$ 9,5 mil.
Pesquisadores
do Grupo de Pesquisa em Habitação e Sustentabilidade (Habis) da
Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da Universidade de São
Paulo (USP) foram responsáveis por um dos destaques do projeto: a implantação
da marcenaria coletiva Madeirarte, assumida por mulheres e jovens do assentamento.
De acordo com Akemi Ino, professora do Departamento de Arquitetura e Urbanismo
da EESC, mais do que a melhoria inequívoca na qualidade de vida dos assentados,
o ponto central do projeto foi a dimensão política participativa
- que se mostrou também um desafio mais difícil que o próprio
desenvolvimento tecnológico.
Grupo
interdisciplinar O
Inovarural começou em 1998 com apoio do Programa de Pesquisa em Políticas
Públicas da FAPESP. Quando o projeto terminou, em 2004, o grupo responsável
buscou recursos junto ao Habitare.
No início, o Habis trabalhava
com projetos de habitação voltados para a cadeia da madeira, procurando
viabilizar a produção de habitação social com recursos
provenientes de plantios florestais. A idéia era aproveitar o imenso potencial
florestal da região do sudoeste paulista.
"Mas, embora tenha
essa perspectiva de riqueza, a região é precisamente a mais pobre
do estado, com o mais baixo índice de desenvolvimento humano. Por isso
o grupo ampliou sua perspectiva, englobando o debate da sustentabilidade em suas
várias dimensões: sociais, culturais, econômicas, ambientais
e políticas", disse Akemi.
O processo participativo não
termina com a conclusão do mutirão. "Os beneficiários
do projeto foram capacitados para tomar decisões e ter mais autonomia.
Isto é, para exercer sua cidadania", afirmou.
Interdisciplinar,
o grupo formado por arquitetos, comunicadores, engenheiros civis e florestais
contou com parcerias com a Universidade Estadual Paulista (Unesp) e com a Escola
Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP.
"A Unesp
de Itapeva participou na área de engenharia de madeira, a Unesp de Bauru
trabalhou com a inovação em alvenaria de adobe e a Esalq entrou
com a engenharia florestal e a participação do laboratório
de madeira", explicou Akemi.
Segundo a professora da EESC, a experiência
ensinou que em futuros projetos será importante incluir sociólogos
e psicólogos. "A capacitação para a participação
impôs muitas dificuldades, que poderiam ser tratadas mais especificamente."
Parte das dificuldades ocorreu devido à diferença fundamental
entre o mutirão rural e o urbano. "Os lotes, na área rural,
são muito distantes uns dos outros. Ao contrário do que ocorre no
mutirão urbano, cada um sabe de antemão qual será a sua casa
e isso enfraquece o aspecto coletivo da experiência", disse.
O
assentamento, conhecido como Pirituba 2, é dividido em seis agrovilas,
com um total de 400 famílias. O projeto foi voltado para duas agrovilas,
envolvendo 49 famílias, divididas em sete grupos. O processo participativo
começou com a seleção das famílias.
"Trabalhamos
com a construção de 42 casas novas e ampliação de
outras sete. A demanda veio dos próprios moradores, que organizaram uma
lista com os interessados no projeto em outubro de 2002, quando trabalhávamos
no primeiro projeto", destacou Akemi.
O grupo foi definido em fevereiro
de 2003 e o resto do ano foi dedicado a reuniões quinzenais para discutir
onde buscar recursos financeiros. "Em 2004 as famílias assinaram o
contrato de financiamento para o material junto ao programa PSH [Programa de Subsídio
à Habitação de Interesse Social ] da Caixa Econômica
Federal. O canteiro começou em março, com a implantação
paralela da marcenaria coletiva", disse.
29/1/2008 |