| Revitalização
Cultural  Fonte:
Agência FAPESP (Michelle Portela, de Manaus)
Os
índios sateré-mawé guardam, com carinho, uma borduna em forma
de remo que chamam de porantim. Nela estão desenhadas figuras que contam
narrativas e mitos da origem desse povo. "É no porantim que está
escrito tudo: como foi criado o mundo e todas as coisas que habitam a terra",
explica o professor indígena Leonardo Miquiles.
Mas a preservação
do porantim deixava de refletir entre os sateré-mawé, cuja história
e práticas culturais tradicionais estavam sumindo do cotidiano, guardadas
apenas nas memórias dos mais velhos.
Incomodada com a situação
e com a crescente ausência de retorno de pesquisas realizadas nas aldeias
da terra indígena Andirá-Marau, no oeste do Amazonas, a Organização
dos Professores Indígenas Sateré-Mawé dos rio Andirá
e Waikurapá (Opisma) tenta mudar esse quadro com o projeto "Revitalização
da língua e das artes sateré-mawé", desenvolvido desde
junho de 2006 com apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância
(Unicef).
Anciões que ainda detinham conhecimentos tradicionais
foram transformados em professores de oficinas de arte. São aulas de redes,
cerâmica, tecelagem e história mitológica, cada uma coordenada
por um professor, responsável por mobilizar os jovens à participação.
"É um trabalho para proteger e fortalecer o povo sateré-mawé",
disse Júlio Miquiles, tuxaua-geral (chefe) da tribo. Os sateré-mawé
representam a segunda maior etnia da Amazônia, com cerca de 8,5 mil indivíduos.
Como
as artes são trabalhadas não somente como práticas tradicionais,
mas também como alternativa econômica, o projeto ganha força
por ser a primeira oportunidade de geração de emprego e renda entre
jovens do povo. "A reafirmação da nossa identidade étnica
pode ser um caminho para a geração de renda na aldeia", aponta
José de Oliveira, coordenador-geral da Opisma e do projeto.
Três
oficinas para cada arte (rede, tecelagem, cerâmica e história) foram
realizadas no primeiro ano do projeto. A cada uma delas, coordenadores e assessores
subiram os rios da região percorrendo cerca de 50 aldeias da boca à
cabeceira para mobilizar a comunidade. "Levamos até um mês viajando
de barco para chegar à cabeceira, onde os rios têm dois metros de
largura e a densidade da floresta produz uma noite permanente", explica Denise
de Souza Carneiro, assessora da Opisma.
Cada oficina oferece 12 vagas
a crianças e adolescentes sateré-mawé, preenchidas a partir
da divisão elaborada pela organização.
Mulheres e
meninas saterés também reivindicaram o direito de participar. Assim
como fazem o artesanato com matéria-prima retirada da floresta, elas agora
tecem redes como obras de arte. "As meninas querem trabalhar e agora a gente
pode vender as redes para os sateré mesmo ou para os brancos", explicou
Andreza Miquiles, professora da oficina de rede.
Segundo ela, a participação
da filha, Betiane Miquiles, 15 anos, na oficina é uma conquista. "Eu
aprendi a fazer redes com a minha mãe, mas deixamos porque paramos de plantar
algodão e tudo se perdeu. Agora, a gente vai plantar algodão e trabalhar
com as redes de novo", disse.
Betiane vê no aprendizado uma
oportunidade de trabalho, compartilhando da expectativa dos coordenadores de que
as práticas culturais também se consolidem enquanto alternativas
econômicas. "A gente pode vender as redes como artesanato e ainda manter
a cultura sateré-mawé", afirmou.
Pesquisa
Indígena A
iniciativa de revitalização começou a ser pensada durante
o desenvolvimento dos projetos de pesquisa "Elaboração de uma
gramática sateré-mawé" e "Elaboração
de um dicionário sateré-mawé", com apoio, respectivamente,
do Programa Jovem Cientista Amazônida (JCA) e do Programa Integrado de Pesquisa
e Inovação Tecnológica, ambos da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).
O dicionário
foi publicado pela Editora da Universidade Federal do Amazonas (Edua), por meio
do Programa de Apoio à Publicação - Publica Amazonas, também
da Fapeam, e está sendo utilizado em sala de aula pelos professores indígenas.
"Ao produzir material pedagógico para que os professores tivessem
o mínimo de conhecimento lingüístico para a alfabetização
na língua nativa, nos demos conta de que as práticas culturais estavam
se perdendo", explicou a lingüista Dulce Franceschini, responsável
pela condução dos projetos financiados pela Fapeam e assessora dos
indígenas no novo projeto.
"Como podemos ensinar que há
animais da terra e animais da água sem saber o sentido dessa diferença?
Esse questionamento começou a ficar muito forte entre os professores indígenas",
disse José de Oliveira, da Opisma. Revitalizar as práticas culturais
enquanto prática pedagógica passou a ser prioridade para os sateré.
"Tudo está relacionado à nossa capacidade de falar sobre quem
somos. Conhecer nossa cultura é ser sateré. A gente até conhecia,
mas não sabia do início ao fim como os jovens agora estão
aprendendo", afirmou Leonardo Miquiles, que também coordena o projeto.
A expectativa é que essa experiência modifique a trajetória
do povo sateré-mawé, objeto de estudo de pesquisadores de várias
origens. Tanto Miquiles como Oliveira foram bolsistas JCA e, agora, buscam autonomia
na pesquisa científica, vendo na gestão do projeto o primeiro passo
na retomada. "Começamos como bolsistas, aprendendo a coletar dados
em campo e, aos poucos, entendendo como fazer", contou Oliveira.
"É
muito importante perceber como o apoio financeiro da Fapeam a dois projetos anteriores
motivou a realização de um novo grande projeto", disse Elisabeth
Brocki, diretora técnico-científica da Fapeam.
A expectativa
dos coordenadores é que outros professores e estudantes indígenas
ingressem em cursos de nível superior e de pós-graduação,
para executar projetos de pesquisa de interesse dos sateré-mawé.
"Temos de aprender o conhecimento do branco para proteger o conhecimento
indígena", disse Oliveira.
O projeto "Revitalização
da língua e das artes sateré-mawé" foi discutido durante
encontro de avaliação do primeiro ano de execução,
no início do mês na aldeia Umirituba, na região do município
de Barreirinha (a 372 quilômetros de Manaus). Tuxauas, professores e
estudantes das dez aldeias onde estão sendo realizadas as oficinas de artes
previstas pelo projeto participaram da avaliação. 20/12/2007 |