Dia do Idoso: tempo de reflexão

Até 2020 eles serão 12 % da população brasileira. O abandono é uma das tristes marcas desta frágil parcela da sociedade

Pouca gente sabe, mas dia 27 de setembro é Dia do Idoso, data instituída pela Comissão de Educação do Senado Federal em 1999, com o objetivo de conhecer os direitos e dificuldades da terceira idade brasileira. Pessoas que fizeram muito por nossas vidas, e pelo nosso país, e são quase esquecidas por todos nós. Segundo o último Censo do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, realizado em 2000, a população com mais de 60 anos de idade é de 14,5 milhões de brasileiros. Se hoje a terceira idade representa 9% das pessoas no Brasil, estimativas apontam que em 2020 este percentual atingirá 12%. Em 2050 serão 2 bilhões de idosos em todo mundo, sendo que 80% serão oriundos dos países em desenvolvimento. Criar uma consciência sobre todos os aspectos da velhice pode ser a melhor maneira de comemorar esta data. Afinal de contas, daqui há 50 anos um de nós estará apagando essas velinhas.

Após trabalhar durante uma vida, o gasto com remédios fazem a pequena aposentadoria ficar ainda menor. A frágil situação financeira e os casos onde a doença avança em velocidade mais rápida que o lúcido raciocínio fazem desta parcela da população tão dependente de auxílio de terceiros quanto um recém-nascido. Com papel fundamental na vida de parte destes idosos, os asilos acabam se tornando suas casas, sejam elas abandonadas ou não. Muitos não sabem nem aonde estão seus familiares e precisam contar com o auxílio destes abrigos, que trabalham de maneira voluntária, para realizar atividades básicas como comer e ir ao banheiro.

Foi pensando em reverter este quadro de abandono que surgiu o Projeto Velho Amigo. Entidade criada em 1999 por Regina Moraes, Maria Thereza Cunha Pereira e Regina Helou que tem por objetivo captar e distribuir recursos para instituições que lutam pelo bem-estar do idoso. Hoje, o Projeto Velho Amigo beneficia cinco asilos: a Casa Ondina Lobo, Fraternidade de Aliança Toca de Assis, o Cepim, o Lar dos Idosos Augusto Neves, todos na região da Grande São Paulo e o Sanatório Divina Providência, em Campos do Jordão. Em sete anos, mais de 5 mil pessoas foram beneficiadas com apoio, doações e carinho pelo Projeto Velho Amigo.

Nos cinco asilos assistidos pelo Projeto Velho Amigo é fácil se deparar com muitas histórias de sofrimento, mas também é impossível não enaltecer o trabalho dessas casas, que suprem a ausência do Estado e da família. Exemplos não faltam. No Ondina Lobo existem atividades como o coral, marcenaria, pintura e assistência médica. O Cepim, que fica no Taboão da Serra, passa por grande reforma e suas instalações abrigam uma padaria, que beneficia até mesmo moradores da região. A Toca de Assis, instituição fundada em 1994 pelo Padre Roberto Letieri, atende mais de 5 mil pessoas em todo Brasil. Na Grande São Paulo mais de 390 ex-moradores de rua são atendidos em regime de internato, outros 200 visitam os abrigos para comer e tomar banho, pois vivem em situação de extrema pobreza pelas ruas da cidade. Doentes e deficientes físicos que necessitam de cuidados especiais são amparados diariamente, promovendo desenvolvimento físico, intelectual e psicológico.

"A vida não acaba aos 60, 70, 80 anos. Prova disso são as demonstrações de talento que vemos todos os dias nos asilos que atendemos. São pessoas que querem viver e querem carinho. Um dia todos nós seremos velhinhos, quem vai querer ser abandonado?", pergunta Regina Moraes, presidente do Projeto Velho Amigo.

Rubens de Assis é cego. Vive há 17 anos na Casa Ondina Lobo. Sua deficiência visual e sua idade avançada não o impediram de aprender coisas novas. Hoje, com 81 de vida, faz bolsas, tapetes e porta-vasos de barbante através da técnica do macramê. Sua agilidade na maneira que trança os fios de barbante impressionam antes mesmo de se tomar conhecimento que ele aprendeu tudo isso depois de cego. José Theodoro de Oliveira, 80 anos, reside no Ondina Lobo há 18, pinta quadros e tecidos, atividades que aprendeu a fazer no abrigo. Além da dupla há também um afinado coral formado por idosos e concorridas aulas de artesanato.

Como diversos setores da nossa sociedade, os idosos sofrem com a falta de cuidados e abandono. Não é raro abrir o jornal e se deparar com notícias de maus tratos, situações humilhantes e o total descaso com o estatuto do idoso ( Lei no10.741 criada em proteção da terceira idade, em vigor desde outubro de 2003). Entre as garantias do estatuto estão o direito as oportunidades e facilidades, para preservação de sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, direito a moradia digna, prioridades no transporte público e abrigo com instalações físicas em condições adequadas de habitabilidade, higiene, salubridade e segurança.

O Brasil envelheceu e os desafios para reverter essa situação já foram lançados, o trabalho dos asilos assistidos pelo Projeto Velho Amigo é uma ótima base. Fazer valer o estatuto do idoso e criar uma política de saúde já seriam um grande passo e este é um papel de toda a sociedade. Em 2020 teremos um idoso pra cada dois jovens, muito diferente de 1970, quando para cada oito jovens tínhamos um velhinho.

Sobre o Projeto Velho Amigo
Com o objetivo de auxiliar instituições de amparo a idosos carentes, o Projeto Velho Amigo (www.velhoamigo.org.br) foi criado em 1999 por Regina Moraes, presidente, Maria Thereza Cunha Pereira, vice-presidente, e Regina Helou, coordenadora geral. Hoje, o Projeto Velho Amigo beneficia cinco asilos: a Casa Ondina Lobo, que atende 115 internos; Fraternidade de Aliança Toca de Assis, que abriga mais de 200 idosos; o Cepim, o Lar dos Idosos Augusto Neves e o Sanatório Divina Providência, em Campos do Jordão.

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