APOSENTADORIA
DOS PROFESSORES,
NEM PRIVILÉGIO NEM COMPENSAÇÃO: JUSTIÇA.
Vejamos por que
a aposentadoria dos professores aos 25 e 30 anos é necessária
e por que está longe de ser um privilégio e tampouco
uma compensação pelos maus salários.
Professores
estão sujeitos ao estresse...
O ensino possui características particulares, geradoras de
estresse e de alterações do comportamento dos que nele
trabalham. Estudos realizados em diversos países da América
e da Europa têm demonstrado que os docentes estão permanentemente
sujeitos a uma deterioração progressiva da sua saúde
mental.
O estresse já
é reconhecido por organismos internacionais como "enfermidade
profissional", cujos efeitos atingem inclusive o ambiente escolar.
É considerado pela OIT não somente como um fenômeno
isolado mas "um risco ocupacional significativo da profissão".
... e às
doenças profissionais
Por outro lado, as especialidades médicas ligadas ao maior
número de dispensas para o pessoal docente são, em diferentes
países, as de psiquiatria , neurologia, otorrinolaringologia,
reumatologia, traumatologia, hematologia e doenças cardiovasculares,
o que tem permitido caracterizar um quadro de doenças profissionais
da categoria. No Brasil é grande o número de professores
"readaptados" (afastados temporária ou permanentemente
para atividades administrativas) afetados por uma ou algumas doenças
desse conjunto, ou de professores que se mantêm com sucessivas
licenças-saúde e, não raro, como objeto de desprezo
e como fonte de problemas para os quadros docente e discente .
A fadiga mental
acontece quando há...
1. trabalho que exige muita atenção com o público;
2. conflitos nas relações pessoais motivados ou acentuados
pela múltipla convivência (idem para aumento de possibilidade
de contrair doenças infecciosas, parasitárias, etc.);
3. autoritarismo burocrático;
4. excesso de responsabilidade para o tempo e os meios de que dispõe,
obrigando-se o professor a realizar mal o seu próprio trabalho;
5. insegurança cotidiana típica de serviço sobre
o qual não se podem estabelecer normas precisas e quantidades
de ações que resultem, necessariamente, no objetivo
desejado, e conseqüente dificuldade de avaliação
quanto aos resultados alcançados.
Além
da sobrecarga psíquica, problemas físicos:
1. irritações e alergias especialmente na pele e nas
vias respiratórias provocadas pelo pó de giz;
2. calos nas cordas vocais;
3. sobrecargas musculares e para o sistema circulatório provocadas
por excessiva permanência em posturas incômodas (muito
tempo em pé ou em assentos não ergonômicos);
Professores
de outros países também sofrem com as doenças
profissionais?
Instituições de pesquisa em países como Suécia,
França, Alemanha e Espanha revelam uma grande corrida de professores
a tratamentos psicoterapêuticos. Nestes países, o risco
de esgotamento físico e mental são as causas do crescente
abandono da docência.
Na França,
estudos sobre a saúde mental dos docentes mostram que os diagnósticos
mais freqüentes são: estados neuróticos (27%);
estados depressivos (26.2%) personalidades e caracteres patológicos
(17,6%) estados psicóticos, psicoses maníaco-depressivas
(7,4%) e esquizofrenias (6,6%). Esses estudos mostram também
que a freqüência desses diagnósticos é maior
entre docentes do que em outros grupos profissionais.
Por isso é compreensível que a preocupação
dos organismos internacionais com as condições do trabalho
escolar volte-se também para a saúde dos professores:
para que se permita um ótimo desenvolvimento do processo de
aprendizagem e melhor qualidade do ensino, é necessário
o bem estar integral, físico, psíquico e social de toda
a comunidade educativa escolar.
No Brasil,
as condições de trabalho pioram a situação
Em outros países, tentam-se compensar as estressantes características
do trabalho docente com melhorias das condições de trabalho.
A Conferência Intergovernamental Especial sobre a situação
do pessoal docente convocada pela UNESCO em colaboração
com OIT em Paris, 1966, por exemplo, recomenda a melhoria das condições
de trabalho como elemento central para a melhor qualidade do ensino.
No caso brasileiro as péssimas condições de trabalho
servem para complicar ainda mais a situação.
Jornadas excessivas
Naquela conferência, constatou-se que a jornada média
internacional está entre 30 e 35 horas semanais na escola,
das quais entre 18 e 24 de atenção direta ao alunado
(observando-se que essa diferença não é ainda
suficiente para atender às tarefas extra-classe tais como programação,
coordenação, auto-preparação, preparação
e correção de provas e de exercícios, preenchimento
dos diários de classe, elaboração das médias,
etc.). No Brasil, entretanto, as jornadas situam-se em torno de 45
aulas semanais, sendo raros os casos em que parte desse tempo (em
geral entre 10% e 20%) é dedicado aos trabalhos extra-classe.
Com isso muitas dessas atividades inerentes ao ensino têm que
ser realizadas em casa pelo docente. A sobrecarga de horas extraordinárias
(além de tudo não pagas) tem efeitos particularmente
nocivos sobre as condições de trabalho (e de saúde
dos educadores), uma vez que torna mais acentuadas as condições
já estressantes do trabalho realizado em "condições
normais".
Excesso de
alunos por classe
Ainda segundo a conferência UNESCO/OIT, o n. adequado de alunos
por classe deve situar-se entre 20 e 30 no máximo, uma vez
que as classes menores favorecem o estudo e a atenção
docente individualizada, além de reduzirem a tensão
e a intensidade da tarefa docente, corrigindo importante fator de
estresse. Observe-se que no Brasil, não raro, o número
de alunos é superior a 50 por classe. Há professores
que chegam a lecionar para até cerca de mil alunos, em até
mais de vinte classes.
No Brasil verifica-se,
portanto, que as más condições de trabalho acentuam
de maneira dramática a penosidade da profissão de professor,
especialmente por que acrescentam:
sentimento de desprestígio
pelos maus salários (a falta de reconhecimento social é
fonte de mal-estar no trabalho);
submissão
a jornadas excessivas;
falta de perspectivas
profissionais;
insegurança,
ansiedade e angústia, provocadas pelos baixos salários
e pela instabilidade no cargo;
incapacitação
provocada pela escassez de recursos didáticos;
conseqüências
negativas para o resultado do trabalho que realizam e para sua própria
pessoa.
As professoras
são mais atingidas:
Estudos têm demonstrado que a crença generalizada de
que as professoras faltam mais à escola que os professores
não corresponde à realidade. No entanto, estando submetidas
à dupla jornada de trabalho, ficam mais suscetíveis
aos acidentes de trabalho e às doenças profissionais,
doenças crônicas e aos quadros depressivos. Embora a
mulher assuma maior responsabilidade frente às tarefas domésticas,
suas faltas são semelhantes ou mesmo ligeiramente inferiores
às dos homens. Porém é maior o número
de faltas de professoras justificadas por dispensas médicas,
o que mostra a maior incidência nas mulheres de doenças
tipicamente profissionais da docência.
Portanto a aposentadoria
especial, longe de ser um privilégio, é uma medida de
interesse social. Os professores a querem na Constituição
Federal por que estando em legislação ordinária
poderá ser mais facilmente suprimida por uma decisão
conjuntural, o que aliás não seria a primeira vez.

Parte de material
elaborado para a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores
em Educação) por ESTUDO, Estratégia e Informação
em julho de 1997, como parte de campanha em defesa da aposentadoria
especial na Constituição Federal.