Menos água pelo ralo

Diante da escassez cada vez maior da água, algumas formas de se utilizar o recurso de maneira consciente vêm se popularizando nos últimos anos. O reuso e o aproveitamento da água da chuva são duas delas. Ao lado do uso racional, essas são as principais formas de se utilizar a água em uma construção sustentável.

"A água potável deve ser utilizada de forma mais nobre, para beber, cozinhar ou tomar banho", afirma Alexander Piergili, designer ecológico da Cooperativa Ecossistemas, em Piracicaba (SP). Por outro lado, praticamente qualquer água já utilizada em um domicílio ("água servida") pode ser reutilizada para a descarga do vaso sanitário ou a irrigação de plantas.

Os sistemas biológicos - em que o tratamento é feito por bactérias e plantas - permitem que a água seja usada na irrigação de hortaliças, no chuveiro e até mesmo para o consumo humano. Nesse tipo de sistema, entre outros componentes, encontra-se um reator anaeróbio (onde as bactérias iniciam a degradação da matéria orgânica), um tanque aeróbio e um tanque similar a um "brejo", onde as plantas se "alimentam" do material resultante das outras etapas. "Se você quiser ter uma casa independente da rede de água é possível", diz Piergili. "Pode-se economizar tanta água quanto se queira, desde que se possa arcar com os custos do sistema."

Existem também sistemas de tratamento para reuso de água que utilizam produtos químicos (como o cloro), cujo benefício está em reduzir a demanda sobre os mananciais. É o caso de projetos desenvolvidos pelo Centro Internacional de Referência em Reuso da Água, ligado à Universidade de São Paulo (Cirra). Segundo José Carlos Mierzwa, coordenador de projetos da entidade, em um condomínio de 346 lotes que está em construção na Grande São Paulo, a estimativa é de que o reuso atinja 50%.

Todo o esgoto deverá ser coletado e submetido a um tratamento que permitirá, ao final, destinar ao reuso 50% do total, após a adição de cloro; a outra metade poderá ser lançada no meio ambiente.

Já em um estudo do Cirra realizado para um prédio comercial em plena avenida Paulista, estimou-se que o reuso possibilitaria que a água fornecida pela Sabesp (Companhia de Saneamento de São Paulo) passasse de 3.500 m3 a 1.800 m3 ao mês. Uma economia de R$ 17 mil, de acordo com Mierzwa.

Sanitário compostável

Uma das maiores preocupações dos especialistas é com o banheiro, mais especificamente com a descarga do vaso sanitário, responsável por grande parte do consumo de água em uma residência. Em geral, um único acionamento da descarga consome cerca de 15 litros de água.

A maneira realmente mais sustentável de se resolver o problema está na construção de um sanitário compostável, que não utiliza descarga de água. Esse sanitário é constituído por duas câmaras de compostagem, que eliminam quaisquer parasitas nocivos, além de transformar as fezes em adubo. Como as fezes não serão lançadas na água, nem jogadas em mananciais, isso reduz a carga de esgoto. Não há problemas de odor nesses sanitários com a construção de uma chaminé apropriada e a utilização de serragem no vaso, após o uso. Para quem não possui muito espaço no quintal de casa, uma opção para consumir menos água no banheiro é a chamada caixa de descarga. Enquadradas nas normas da ABNT, elas irão consumir, a cada acionamento, muito menos que as descargas de válvula.

O vaso sanitário convencional também faz parte de uma pesquisa feita pelo Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Em uma residência de Florianópolis (SC) é reutilizada a água que já foi usada na pia do banheiro e no próprio vaso. O estudo constatou que a água do fornecimento convencional não foi necessária para a descarga em 23 dias de um mês.

As pesquisas incluiram também a coleta da água da chuva, que, dependendo da região em que é feita, pode ter diferentes usos. Em cidades do interior ou no campo, a água pode ser destinada ao consumo humano após passar por um tratamento que inclui a colocação de determinadas rochas dentro do reservatório, para que ela se "mineralize". Esse procedimento é necessário porque, sendo destilada, a água da chuva não possui os minerais necessários ao organismo.

Já em um centro urbano poluído, além de exigir mais tratamento para que seja livrada de impurezas, a água da chuva poderá ter um uso um pouco mais restrito, mas ainda de grande importância, como a irrigação do quintal e a lavagem do carro. A captação em uma grande cidade também contribui para que os efeitos das enchentes nesses centros, cujo solo encontra-se praticamente todo impermeabilizado, sejam minimizados.

Ao tempo em que, no mundo, 2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável, a classe média brasileira consome uma média de 200 litros de água por pessoa diariamente. Isso sem falar no desperdício na rede das estatais de saneamento, que vai de 40% a 60%. Em casa, calcula-se que o desperdício com vazamentos seja da ordem de 14%. Para que a água seja mais bem utilizada, é necessário haver mais informação, conscientização e disposição para mudar.

Serviço
Mais informações estão disponíveis nos sites www.ecossistemas.net, www.idhea.com.br e www.usp.br/cirra.

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