| Atmosfera
carregada Pesquisadores paulistas mapeiam a constituição química do material particulado inalado pela população. A queima de lixo e de canaviais influencia a qualidade do ar mais do que se imaginava, tanto na capital como no interior. Fonte: Agência FAPESP (Eduardo Geraque, de Águas de Lindóia) A
relação é praticamente direta. Ao analisar o tamanho e a
composição química do material particulado presente na atmosfera
das grandes cidades, é possível saber não apenas o grau de
risco para a saúde humana, mas também quais as fontes que mais contribuem
para a poluição do ar. Em São Paulo, a assinatura dos metais
traço (pesados e eventualmente tóxicos) e íons solúveis
em água, por exemplo, pode revelar algumas fontes de emissão até
certo ponto inesperadas. "Os
resultados do estudo que fizemos mostram uma aparição importante
de sulfatos, nitratos e cloretos no material particulado coletado para São
Paulo", explica Pérola Vasconcellos, professora do Instituto de Química
da Universidade de São Paulo (USP) à Agência FAPESP. Enquanto
os dois primeiros estão relacionados com a queima de combustíveis
fósseis pelos veículos, o terceiro é mais difícil
de ser explicado. Uma das possibilidades é a relação com
queimadas de lixo, em muitas áreas da capital. As
surpresas, segundo apresentação feita durante a 29ª Reunião
Anual da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), no dia 20 de maio, também
foram detectadas para o interior do Estado. "Na cidade de Piracicaba, por
exemplo, os dados mostram que, além da queimada, existe uma importância
das chamadas fontes industriais muito maior do que a esperada", explica Pérola.
A pesquisadora baseia-se também em outros estudos, que analisaram componentes
orgânicos presentes na atmosfera. Além
dos nitratos e sulfatos, o elemento cálcio esteve presente em concentrações
importantes. "Isso é explicado pela alta ressuspensão de material
particulado do solo", diz a professora. Na
cidade de Araraquara, a terceira a fazer parte do estudo, realizado em cooperação
com a Universidade Estadual de Campinas e de alguns grupos de pesquisa estrangeiros,
outro elemento químico apareceu. Diferente de São Paulo e Piracicaba,
Araraquara apresentou mais potássio na atmosfera. "Esse elemento está
diretamente relacionado com as queimadas da região", afirma Pérola.
O resultado
apresentado pela pesquisadora também confirma uma antiga suspeita. "Sem
dúvida, essas mudanças climáticas interferem na distribuição
do material particulado", afirma. Ou seja, pode ser que as próprias
queimadas realizadas por agricultores no interior do Estado estejam colaborando
para piorar ainda mais a qualidade do ar na própria cidade de São
Paulo. "Já sabíamos disso, mas é a primeira vez que
conseguimos mapear essa influência das massas de ar", diz a professora
da USP. Outro estudo também apresentado na reunião da SBQ reforça a afirmação de que as queimadas podem ser consideradas como um problema importante de poluição do ar. "No período da safra, entre junho e outubro, principalmente, a concentração de material particulado fino é três vezes maior do que entre dezembro e abril, quando não ocorre a queima da cana-de-açúcar", explica Willian Paterlini, do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp). O químico, que conclui seu doutorado até dezembro, vai partir agora para a análise química dos dados. "Aí teremos uma idéia ainda mais clara desse importante problema", explica. |
| |
| |||