Pesquisadores catalogam plantas em extinção no Estado


Foto de Vinícius C. Souza - Mostuea muricata deverá constar da lista de plantas ameaçadas de extinção

Existem aproximadamente mil espécies da flora paulista ameaçadas de extinção. A previsão é de Vinicius Castro Souza, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba, da USP. Ele integra o grupo de três pesquisadores que coordenam os trabalhos de catalogação dessas plantas. O relatório final será conhecido em meados deste ano. Atualmente, das 8,5 mil espécies do Estado, 350 compõem a lista das que correm risco de desaparecer.

Souza diz que o objetivo final do projeto não é apenas a lista. "Trata-se, antes de tudo, de uma ferramenta que será utilizada no estabelecimento de ações para proteção das espécies", afirma. A relação poderia ser importante, por exemplo, para embargar obras em locais onde existam plantas ameaçadas de extinção, ou exigir que a empresa interessada no empreendimento adotasse planos de prevenção para não prejudicar as plantas. Conta que, por existirem poucas áreas preservadas, qualquer espaço é significativo.

O professor explica que a proteção dos vegetais visa também ao aproveitamento econômico. Cada uso ou atividade depende do conhecimento da planta. "Conseguindo estabelecer estratégias eficientes de conservação, garantimos a existência dessas espécies."

Atualização e revisão
O trabalho de Souza é revisar e atualizar a lista publicada no Diário Oficial do Estado de São Paulo, em março de 1998, que continha cerca de 350 espécies. Os outros dois pesquisadores, Paulo Kageyama, também professor da Esalq; e Inês Cordeiro, do Instituto de Botânica, da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SMA).
Souza informa que a lista de 98 foi elaborada às pressas para cumprir pedido de urgência do governo estadual. Previa, na época, atualização, revisão de conceitos e critérios e acréscimo de outras espécies. Por isso, estima que a relação completa deste ano chegue a quase mil plantas. Mas, ressalva o professor, a lista de 98 serviu para muita discussão no meio científico paulista e nacional.

Arregaçando as mangas
Há três anos, representantes da Sociedade Botânica do Brasil, de São Paulo e da SMA, reuniram-se e decidiram que a nova lista precisava ser feita com critérios científicos. Então, a equipe dos três pesquisadores foi encarregada de arregaçar as mangas.
Consultaram e participaram de eventos com outros especialistas do meio acadêmico, das três universidades públicas do Estado (USP, Unicamp e Unesp), entidades do setor privado e demais organizações. "Nestes encontros, mostramos os 11 critérios que usaremos para classificar as plantas e atualizar a lista", diz Souza.

Mas o trabalho não será feito apenas pelos três membros da comissão científica. Não existe nenhum pesquisador que conheça as 8,5 mil espécies da flora paulista. Por isso, a pesquisa será dividida. "O ideal é que cada pessoa receba a incumbência de analisar uma ou mais famílias de plantas nas quais é especialista." Vinicius de Souza estima que aproximadamente 70 pesquisadores participarão da elaboração da lista.

Onze critérios
O trabalho, diferentemente da catalogação, não será realizado em campo. Trata-se de uma análise baseada no que existe nos registros da flora paulista feitos desde séculos passados. "Aplicando-se os 11 critérios estabelecidos, teremos a lista", adianta o professor.
No seu entender, os critérios agora estão mais universais. Antes, alguns dependiam do padrão de cada pesquisador. Entre os 11 critérios, destaca a distribuição geográfica restrita de uma espécie (só ocorre em determinado local) e a aquelas que não têm registros nas áreas de conservação (portanto, não estão sendo preservadas, podem estar em locais desconhecidos).
Há, também, a classificação de "espécies presumivelmente extintas". Aquelas que não foram vistas durante 50 anos. "Com a lista pronta, os cientistas podem sair a campo para localizar as espécies ameaçadas", prevê o professor de Piracicaba.

Raridade em Araraquara
Entre as plantas em extinção, Souza cita a araucária (pinheiro-do-paraná), muito comum e símbolo do Estado vizinho, mas rareando em São Paulo, e as orquídeas (muitas espécies estão sumindo das florestas).
Recentemente, o próprio professor da Esalq registrou e fotografou uma planta desconhecida dos catálogos científicos até o ano passado. É a Mostuea muricata (Gelsemiaceae), encontrada em uma floresta pouco conservada de Araraquara e que deverá constar da lista de ameaçadas.

A nova lista será dinâmica e deverá ser revista num período de cinco anos após a publicação. Apenas serão incluídas as plantas do Estado de São Paulo. Mas o trabalho poderá fornecer parâmetros para formulação de outros semelhantes em outras regiões do País. Permitirá a comparação da distribuição de plantas em São Paulo e em outros Estados, levando em conta as particularidades de cada localidade.

Fonte: Agência Imprensa Oficial

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