| Escondidas
nas ilhas 
Fonte:
Agência FAPESP (Alex Sander Alcântara)
Um
inventário de serpentes realizado em 18 ilhas da costa paulista
revelou a ocorrência de 13 novas espécies sem registro
nas principais coleções herpetológicas do Brasil.
O estudo, cujos resultados foram publicados
pela revista Biota Neotropica, revista do programa Biota-FAPESP, partiu dos registros
nas coleções do Sudeste brasileiro e de coletas de campo, realizadas
em 11 das ilhas. De acordo com os autores, os ecossistemas insulares são
cada vez mais ameaçados pela ação humana.
Além
de listar espécies de serpentes habitantes de ilhas paulistas ainda indisponíveis
na literatura, o estudo buscou detectar e corrigir erros de nomenclatura nas coleções
zoológicas.
"Procuramos ainda comparar a composição
da fauna de serpentes entre as ilhas, incluir novos espécimes na coleção
do Instituto Butantan e, principalmente, discutir medidas de conservação
ambiental e proteção das espécies em risco de extinção",
disse Paulo José Pyles Cicchi, um dos autores da pesquisa.
A pesquisa,
segundo o pesquisador do Laboratório de Herpetologia do Departamento de
Zoologia do Instituto de Biocências da Universidade Estadual Paulista (Unesp),
chama atenção principalmente para a grande fragilidade dos ecossistemas
insulares, ameaçados pela ação humana, seja pela ocupação
desordenada, seja pela exploração econômica do turismo nessas
ilhas.
Segundo Cicchi, 36 espécies das famílias Boidae,
Colubridae, Elapidae e Viperidae foram registradas na coleta de campo. "As
ocorrências inéditas nos registros demonstram a carência de
estudos de inventário em ilhas e de levantamentos que permitam conhecer
nossa biodiversidade e propor atitudes de conservação antes que
espécies sejam perdidas", explicou.
Métodos
combinados Para
o levantamento de campo foram feitas cerca de 125 viagens às ilhas, com
equipes que variavam de um a 13 coletores, utilizando uma combinação
de métodos conhecidos como "abundância relativa" e "freqüência
de espécies", além da "busca ativa", "procura
visual limitada por tempo" e armadilhas de interceptação e
queda, conhecidas como pitfall traps.
As categorias de "abundância
relativa" foram aplicadas para definir a raridade das espécies, consideradas
"comuns" quando ocorrem em mais de cinco ilhas, "pouco freqüentes"
quando aparecem em quatro ilhas diferentes e "raras" quando são
encontradas em três ou menos ilhas.
Comparada aos registros da literatura
disponível e combinada aos outros métodos, a "abundância
relativa" detectou 44,4% de espécimes considerados raros, 25% tidos
como pouco freqüentes e 30,6% considerados comuns.
As serpentes mais
freqüentes foram as Micrurus corallinus, presentes em 12 das 18 ilhas
estudadas, seguidas das Bothrops jararaca e Liophis miliaris, em
11 ilhas, e das Bothrops jararacussu e Chironius bicarinatus, em
10 ilhas.
De acordo com os autores do trabalho, o método permite
a visualização em porcentagens das espécies dominantes e
raras em cada região. Entretanto, sua utilização adequada
depende de uma padronização das metodologias de levantamento de
espécies.
"A grande maioria dos métodos de levantamentos
é específica para algumas espécies, como as armadilhas de
interceptação e queda que permitem a coleta quase que exclusiva
de serpentes de hábitos terrestres, não sendo satisfatória
para coleta de animais arborícolas", disse Cicchi.
"Caso
a abundância relativa seja feita com dados exclusivos desse método,
poderá demonstrar resultados pouco legítimos sobre a diversidade
na região. Por isso, o interessante para um bom trabalho de levantamento
de espécies é utilizar metodologias diferentes para obter dados
mais confiáveis", completou.
Para o pesquisador, o estudo
indica a necessidade de associação de esforços e uma efetiva
intervenção política para a transformação dessas
regiões em áreas de proteção ambiental como reservas
biológicas ou parques estaduais, diminuindo ao máximo a ação
destrutiva humana.
Em ilhas como Monte Trigo, a fauna de serpentes foi
definitivamente extinta, segundo o pesquisador. Na ilha Anchieta, onde predadores
carnívoros foram introduzidos pela população nativa, algumas
espécies representativas provavelmente desapareceram. "A estabilidade
da fauna e flora insulares é bastante frágil, o que aumenta a probabilidade
de extinções e reforça a necessidade de políticas
de conservação. Uma parte considerável dos animais incluídos
na lista internacional de espécies ameaçadas de extinção
consiste em espécies que só ocorrem em ilhas", afirmou.
24/3/2008
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