| Turismo
de alto impacto

Fonte:
Agência FAPESP (Alex Sander Alcântara)
O
aumento no fluxo turístico ocorrido nos últimos anos no
município de Itacaré, no litoral sul da Bahia, e a falta
de planejamento da atividade turística têm provocado um
desenvolvimento "empobrecedor", que ameaça o ciclo
turístico na região. Esse é um dos diagnósticos
de uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc),
na Bahia.
O estudo, de caráter exploratório,
aponta o "crescimento desordenado" como uma das conseqüências
mais graves da falta de planejamento no turismo local. Os resultados foram publicados
na revista de desenvolvimento local Interações.
Segundo
o autor da pesquisa, Elton Silva Oliveira, do Núcleo Temático de
Turismo para o Desenvolvimento Regional da Uesc, o objetivo foi identificar os
impactos socioambientais e econômicos do turismo e suas repercussões
no desenvolvimento local.
"Os aspectos qualitativos foram priorizados
em detrimento dos quantitativos devido ao caráter social do tema. O turismo
em Itacaré tem se caracterizado por ser ecologicamente predatório,
economicamente concentrador, socialmente iníquo e culturalmente alienante",
disse Oliveira.
Embora o município tenha melhorado sensivelmente
seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), de acordo com o pesquisador
a forma como a atividade turística se estabeleceu na região gerou
aumento do custo de vida, degradação ambiental, elevação
dos índices de prostituição e do tráfico de drogas,
especulação imobiliária, importação de mão-de-obra
e ocupação desordenada.
O pesquisador ressalta que Itacaré
não dispõe de uma Secretaria de Turismo nem de um Conselho de Meio
Ambiente e Turismo. "Não existe um plano oficial de desenvolvimento
para o setor. Todas as decisões relevantes referentes à atividade
no município são tomadas em Salvador pelo governo estadual, por
intermédio da Secretaria de Turismo ou pela Companhia de Desenvolvimento
Urbano do Estado da Bahia", afirmou.
Segundo Oliveira, locais que
deveriam ser preservados foram transformados em zonas turísticas. É
o caso da praia do Resende, área adquirida por um grupo belga que será
transformada em um resort. Na praia da Engenhoca, um grupo português está
construindo outro resort.
"Levando-se em consideração
que Itacaré está dentro do remanescente da Mata Atlântica,
deveria haver investimentos em uma modalidade de turismo mais brando, como o ecoturismo,
de modo a garantir a preservação do meio ambiente. Contudo, observamos
o rápido crescimento do turismo de massa, que gera alto impacto sobre o
ambiente, pois requer grandes e constantes fluxos de visitantes", ressaltou.
Oliveira explica que o turismo em Itacaré é sazonal, concentrado
na alta estação e em alta estação diferenciada, no
mês de julho. Mas no mês de janeiro há um fluxo de mais de
120 mil visitantes, número seis vezes maior que o da população
do município, que é de 18.120, de acordo com o censo de 2000.
"Isso
gera um grande impacto ambiental devido ao aumento dos efluentes que são
despejados diretamente e sem tratamento no mar, contaminando as praias, sobretudo
as urbanas, e dos resíduos sólidos coletados e armazenados em áreas
inadequadas, que se transformam em lixões a céu aberto", disse.
De
acordo com o autor da pesquisa, o fluxo de turistas aumentou consideravelmente
a partir de 1998, com a conclusão da Estrada Parque, um trecho de 65 quilômetros
ligando Ilhéus a Itacaré. Segundo ele, o quadro tende a se agravar
a partir de 2008, após a conclusão de um novo trecho de 43 quilômetros
da estrada na direção norte, que ligará Itacaré a
Camamu.
"A inauguração desse trecho está prevista
para este mês. O fluxo de turistas poderá dobrar ou triplicar rapidamente,
uma vez que permitirá que o percurso feito de carro ou de ônibus
entre Salvador e Itacaré seja realizado em apenas três horas",
disse.
Como conseqüência do processo, os preços se elevam.
"Os nativos vendem suas propriedades e vão morar em áreas afastadas.
Também houve um aumento no custo de vida. Os alimentos ficaram mais caros
e, no fim das contas, a população nativa só ficou com os
postos de trabalho de baixa remuneração", apontou.
O
impacto da atividade turística não se restringe ao campo econômico
e à natureza. A comunidade local e sua cultura também sofreram modificações
significativas, segundo Oliveira, que destaca a baixo auto-estima na comunidade.
"As principais festas e manifestações culturais, como
a Festa de Reis e o Dois de Julho [data da emancipação política
da Bahia], perdem força. No entanto, o Ano Novo e o Carnaval, que são
festas do calendário turístico, ganham maior destaque e importância",
disse.
Além disso, segundo o autor, os casarões construídos
no período áureo do cacau estão sendo substituídos
por lojas, pousadas e restaurantes com arquitetura no estilo de Bali, na Indonésia.
Para Oliveira, é preciso haver um controle do fluxo turístico
na região. Caso isso não ocorra, segundo ele, a própria atividade
turística estará ameaçada. "O turismo deve ser planejado,
administrado, monitorado e empreendido de modo a evitar danos à biodiversidade
e ser ambientalmente sustentável, economicamente viável e socialmente
eqüitativo", afirmou.
13/3/2008
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