| Pesquisa
aborda a percepção sobre os resíduos da Idade Média
aos dias de hoje

Fonte:
Agência Fiocruz de Notícias (Fernanda Marques e Igor Cruz)
Ao longo da história, foram construídas diferentes percepções
sobre o lixo, ou melhor, sobre os resíduos produzidos pelo homem. Desde
a perspectiva religiosa na Idade Média, em que os resíduos eram
associados à doença e ao pecado, até uma visão mais
ecológica nos nossos dias, o lixo ajuda a contar a história das
civilizações. O tema é abordado em um artigo da doutora em
saúde pública Marta Pimenta Velloso, professora da Escola Nacional
de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp) da Fiocruz.
Integrante
do Grupo de Direitos Humanos e Saúde Helena Besserman (GDIHS) da Ensp,
Marta consultou livros do século 16 da seção de obras raras
da biblioteca da Universidade de Coimbra, em Portugal. Os livros falavam sobre
a peste negra do século 14. A partir dessas e de outras leituras, a pesquisadora
identificou quatro fases na história da percepção sobre o
lixo - definido como tudo aquilo que se joga fora, que não presta, resultante
de atividades domésticas, comerciais, industriais e hospitalares.
A
primeira fase é a Idade Média, quando a idéia de lixo remetia,
sobretudo, aos resíduos eliminados pelo organismo, como fezes, urina, pus
e o próprio corpo em decomposição. As secreções
dos indivíduos doentes eram especialmente temidas.
Assim, os resíduos
- associados à impureza e ao sofrimento físico e mental - eram representados
como uma ameaça ao homem, principalmente devido ao surgimento de grandes
epidemias no continente europeu, com alto índice de mortalidade. A palavra
peste nem sempre se referia à peste negra, pois havia outras doenças
epidêmicas, como gripe, tifo, cólera e varíola.
O
papel dos microorganismos A segunda fase é o Renascimento,
no qual as descobertas científicas, em especial a circulação
sanguínea e a respiração, inspiraram medidas de higiene nas
cidades. "A idéia das artérias conectando os diferentes órgãos
do corpo humano motivaria a construção de ruas principais com ruas
paralelas arejadas e canos de esgoto que saíam das casas e desembocavam
em uma tubulação comum", conta a pesquisadora.
Contudo,
somente com os trabalhos do célebre cientista francês Louis Pasteur,
no final do século 19, assumiu-se que os microrganismos eram os causadores
de doenças e que medidas de saúde pública deveriam ser tomadas
para combater esses agentes invisíveis e seus transmissores. Nessa terceira
fase, no Brasil, o sanitarista Oswaldo Cruz tornou-se famoso por disseminar essas
idéias e colocá-las em prática.
"Hoje, todo mundo
fala em lixo hospitalar, atômico, químico e emissão de gases
poluentes. Mas, até meados do século 20, as percepções
sobre o lixo estavam muito restritas à área médica, ou seja,
às doenças", diz Marta. A partir da década de 70, no
Brasil e em outros países, o lixo começou a ter seu conceito alargado
e a preocupar ecologistas, sobretudo por causa da industrialização
crescente. A relação entre resíduos e poluição
ambiental teve destaque durante a Eco-92, no Rio de Janeiro. Desde então
- a quarta fase -, o debate sobre lixo e meio ambiente ganha força.
De
lixeiros a artistas Pouco depois do boom ecológico provocado
pela Eco-92, Marta entrevistou lixeiros da Companhia Municipal de Limpeza Urbana
(Comlurb) do Rio de Janeiro e, durante uma semana, acompanhou-os em suas rotinas
de trabalho. A pesquisadora comprovou que os lixeiros tinham consciência
de que sua profissão envolvia riscos químicos, biológicos
e mecânicos, como cortes e atropelamentos. Mas a principal constatação
do estudo foi o desprezo da população por aqueles que trabalham
com os restos.
Esse dado motivou Marta a fazer uma comparação
entre duas outras categorias profissionais que lidam com a sucata: catadores e
artistas. O foco do trabalho era a criatividade no tratamento dos restos resultantes
da atividade humana. "A essência do trabalho de catadores e artistas
é a mesma: transformar os restos. Mas os primeiros são vistos de
forma depreciativa pela sociedade e os segundos têm suas obras valorizadas",
analisa a pesquisadora.
Ela entrou em contato com associações
de catadores de lixo, como uma em Belo Horizonte, e analisou a obra de artistas
plásticos, como a do mineiro radicado no Rio de Janeiro Farnese de Andrade.
Este criava suas obras a partir de lixo que coletava nas praias cariocas. Algo
similar era feito pelos catadores, que atuavam na associação em
oficinas de reciclagem de papel, corte e costura, pintura e escultura. O objetivo
era acolher moradores de rua e ensiná-los a tirar proveito do lixo. Eles
chegaram a construir um bar somente com materiais reaproveitados, das mesas e
cadeiras aos objetos de decoração. "Apesar do estigma social
que pesava sobre aqueles catadores de lixo e moradores de rua, a criatividade
no trabalho os ajudava a elevar sua auto-estima", conclui Marta. A
peste Também chamada peste negra ou febre do rato, a peste
é causada pela bactéria Yersinia pestis e transmitida ao homem pela
picada da pulga de roedores. Os primeiros sintomas surgem após dois a cinco
dias, quando, em geral, ocorre inflamação dos gânglios linfáticos
(peste bubônica). A doença pode evoluir para uma pneumonia, com transmissão
de pessoa para pessoa, ou levar a uma septicemia. A letalidade é alta quando
não há tratamento imediato.
15/10/2007 |