Fator hidrelétrico

Fonte: Agência FAPESP (Murilo Alves Pereira)

Estudo realizado por pesquisadores do Inpa mostra que usinas hidrelétricas emitem gases de efeito estufa em quantidades que chegam a 10 vezes mais que emissões de termelétricas a carvão mineral (Foto: Alexandre Kemenes) As hidrelétricas, por serem fontes de energia renovável, têm sido vistas no Brasil como uma alternativa para combater as emissões de gases do efeito estufa (GEE). Mas uma pesquisa que mediu e estipulou as emissões de quatro usinas hidrelétricas da Amazônia transformou-as em vilãs do aquecimento global. De acordo com os números, todas as quatro emitem mais GEE que termelétricas de mesma potência.

"A hidrelétrica de Balbina, no rio Uatumã, está emitindo cerca de 10 vezes mais que uma termelétrica movida a carvão mineral, considerado hoje o combustível mais poluente", informou o biólogo Alexandre Kemenes, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Segundo ele, para comparar termelétricas e hidrelétricas foi preciso relacionar a quantidade de gás emitido, medida em toneladas de equivalentes de carbono (tC), sobre a potência gerada por hora (MWh). O equivalente de carbono é a unidade que considera tanto o dióxido de carbono (CO2) quanto o metano (CH4). Como o potencial térmico do CH4 é 25 vezes maior que o do CO2, é preciso multiplicar o valor medido de CH4 por 25 para expressá-lo em carbono.

Em Balbina, além dos elevados índices de emissão, há um baixo aproveitamento energético. Em outro cálculo, que considera a potência gerada pela área do lago, Balbina também fica a dever. Embora tenha alagado 2.600 quilômetros quadrados de floresta, a hidrelétrica tem uma produção energética pífia, de meros 250 MW.

De acordo com Kemenes, vários são os fatores que levam as hidrelétricas tropicais a emitir GEE em grande quantidade. Os lagos muito grandes e profundos construídos sobre uma área florestal e sob a influência do clima amazônico são propensos a problemas desse tipo.

"Devido à estabilidade climática da Amazônia, são formados estratos térmicos nas diferentes profundidades do lago", explicou o biólogo. "Em temperaturas distintas, cada estrato possui diferentes concentrações de gases, entre eles o oxigênio."

No fundo do lago, todo o oxigênio é consumido pelas atividades biológicas, mas não é reposto, formando um estrato anóxio (sem oxigênio). Além disso há grande quantidade de matéria orgânica deixada pelo não-desmatamento da antiga floresta existente na área do lago. A soma desses fatores favorece a ação metabólica de bactérias anaeróbicas, que produzirão altas taxas de CH4 e CO2, os dois principais GEE.

"Além disso, a profundidade provoca outro fenômeno físico - a pressão hidrostática - que mantém os gases aprisionados no fundo do lago", declarou o cientista. No caso de Balbina, os 30 metros de profundidade geram uma pressão de quatro atmosferas (atm) - 1 atm a cada 10 metros mais 1 atm da própria atmosfera.

A coleta de dados ocorreu entre 2002 e 2006 na usina de Balbina e faz parte da tese de doutorado de Kemenes. Em julho de 2007, o trabalho foi publicado na Geophisical Research Letter, uma das revistas de maior impacto na área de geofísica. Para as outras usinas - Tucuruí, Samuel e Curuá-Uana - a tese se valeu de dados já coletados por outros pesquisadores.

8/10/2007

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