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Terra em risco eminente*

Por
Rogério Grassetto Teixeira da Cunha "Emissões
recentes de gases do efeito estufa colocam a Terra perigosamente próxima
de mudanças climáticas dramáticas que poderiam fugir de controle,
com graves perigos para os seres humanos e outras criaturas". Não,
a notícia acima não faz parte de um panfleto de algum grupo ambientalista.
Na verdade, é o alerta de um estudo científico publicado no conceituado
periódico "Philosophical Transactions of the Royal Society" por
seis especialistas dos EUA e divulgado para o grande público pelo jornalista
Steve Connor no jornal britânico "The Independent".
No
artigo, os cientistas (quatro do Instituto Goddard para Estudos Espaciais, da
Nasa, e os outros dois de prestigiosas universidades norte-americanas) analisam
dados de climas do passado geológico da Terra, de mecanismos de alterações
bruscas do clima, da emissão de gases causadores do efeito estufa e chegam
a conclusões alarmantes. Eles acreditam, por exemplo, que a elevação
do nível do mar até 2100 poderá ser de vários metros,
ao invés dos 40 centímetros previstos no relatório do Painel
Inter-governamental sobre Mudança Climática (IPCC) - os quais, aliás,
já causariam grandes problemas em regiões costeiras. Em outras partes
do texto, algumas lembranças algo desconfortáveis: mudanças
dramáticas do clima da terra já ocorreram diversas vezes e estão
ligadas a extinções; uma dessas mudanças envolveu aquecimento
global, liberações extensivas de carbono para a atmosfera e um processo
de extinção em massa.
Mas, perguntará o leitor, já
não constava do tal relatório do IPCC, elaborado por uma enorme
equipe de cientistas, que a temperatura do planeta vai aumentar, que o nível
do mar vai subir e que eventos climáticos extremos como secas, inundações,
temperaturas recordes e vendavais serão mais freqüentes e intensos?
Sim, mas este artigo mostra que não há unanimidade quanto à
magnitude dos efeitos. O pior é que as vozes discordantes (de respeito)
prevêem efeitos mais catastróficos que aqueles geralmente aceitos.
Por isto, os pesquisadores não economizam nos adjetivos. "Perigo
iminente", "mudança climática dramática" e
"cataclismo" são algumas das expressões empregadas no
artigo. Repita-se, aquele é um texto científico publicado em uma
revista internacional, ou seja, rigorosamente avaliado ponto a ponto por qualificados
cientistas da área atuando como revisores anônimos, e não
um manifesto de ambientalistas convictos e apaixonados (como os autores desta
coluna). Os autores referem-se especificamente à possibilidade de derretimento
generalizado nas gigantescas coberturas de gelo da Groenlândia e da Antártica,
causado por alguns mecanismos de "feedback positivo" (termo que se refere
a situações nas quais um determinado processo gera conseqüências
que estimulam este mesmo processo, e assim sucessivamente, numa espécie
de espiral crescente, um efeito cascata), os mesmos responsáveis por pelo
menos uma das mudanças catastróficas anteriores, acreditam eles.
Acontece que aquelas regiões abrigam uma quantidade inimaginável
de gelo. E é por isso que os tais cientistas não estão para
brincadeira. Simplesmente sugerem que, a continuarmos do jeito em que estamos,
a própria civilização está em risco real. Ao lembrar
que as mudanças produzirão um planeta diferente (pior) daquele em
que a sociedade se desenvolveu e no qual a nossa infra-estrutura foi construída
e que o desenvolvimento da sociedade e da infra-estrutura ocorreu sob um clima
bastante constante, sugerem que podemos não estar preparados para o que
está por vir.
Mas antes de nos desesperarmos, enfatize-se que ainda
há esperanças, embora o relógio esteja andando rápido
e não vá esperar. E o que eles sugerem? Medidas draconianas (segundo
palavras do líder da pesquisa, em entrevista ao jornalista britânico)
para reduzir a emissão de CO2 e as influências de outros gases do
efeito estufa (metano e óxido nitroso principalmente). Sugerem ainda que
talvez devêssemos empregar também meios de extrair estes gases da
atmosfera, por meio, por exemplo, de sua captura em termelétricas e armazenamento.
Injeção de CO2 abaixo do assoalho oceânico também é
mencionada. Segundo os cálculos deles, o limite da quantidade de gás
carbônico na atmosfera antes que os mecanismos de "feedback" fossem
acionados de forma praticamente irreversível seria de 450-475 ppm (partes
por milhão), sendo que já passamos de 380 e a taxa não pára
de crescer. Para se ter uma idéia, o valor anterior à revolução
industrial situava-se em torno de 280 ppm, cresceu para 300 por volta de 1918,
pulou para 326 em 1970, ultrapassou os 350 na década de 80 e tem crescido
constantemente. O que a humanidade fará a respeito deste e de
outros avisos igualmente sérios que vêm sendo continuamente feitos
pelos cientistas vai determinar o futuro da vida no planeta (ou de parte dela)
Há
vários caminhos que podem ser seguidos. Um é desqualificar os cientistas,
tentar encontrar brechas nos argumentos ou tentar provar que há outras
interpretações possíveis dos dados. Este é o caminho
adotado por algumas empresas petrolíferas que estão financiando
estudos que apontem falhas no relatório do IPCC. E é conveniente
para quem quer seguir o resto dos seus dias com o mesmo padrão de consumo
a que está acostumado e sem sofrer de culpa por isto.
Outro é
acreditar, meio cegamente e com pouco fundamento, que conseguiremos resolver o
problema com base em uma crença genérica e difusa na capacidade
humana de solucionar suas dificuldades por meio da tecnologia.
Este parece
ser o posicionamento de parcela da mídia brasileira, com alguns veículos,
como o jornal "O Estado de São Paulo", por exemplo, adotando
uma perspectiva dúbia sobre o tema, ora informando, ora criticando levemente,
ora recorrendo a tal crença. É o popular "um no cravo, um na
ferradura". Também é conveniente para o consumidor convicto
da necessidade de seus hábitos.
Um terceiro é reconhecer
que há um problema sério, mas, acreditando que ninguém nem
governo algum farão nada de significativo para resolvê-lo, não
ligar para nada e agir o mais egoisticamente possível. É a tática
avestruz.
Por fim, pode-se agir para reverter o problema em longo prazo,
tanto em nossas vidas particulares quanto cobrando atitudes mais firmes e radicais
de nossos líderes. Cada um escolha a sua. Em jogo: o futuro de nossos descendentes
e da nossa espécie.
Rogério
Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento
Animal pela Universidade de Saint Andrews
*Artigo
originalmente publicado na coluna Ambiente e Cidadania do jornal eletrônico
Correio da Cidadania, dirigido por Plínio de Arruda Sampaio, em sua edição
nº 556.
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