| Reflexos
do Desmatamento

Fonte: Agência FAPESP (Fábio de Castro) - 24/04/2007
Derrubar
a floresta amazônica para plantar soja é mais prejudicial ao clima
do que desmatar para criação de gado. Essa é a principal
conclusão de um estudo realizado por equipe da Universidade Federal de
Viçosa (UFV) publicado na edição atual da revista Geophysical
Research Letters.
A
literatura científica aponta que qualquer desmatamento na Amazônia
contribui para mudanças climáticas ao provocar redução
na precipitação. Mas, de acordo com a nova pesquisa, os campos de
soja reduzem as chuvas em até quatro vezes mais do que as pastagens. Sob
coordenação de Marcos Heil Costa, professor do Departamento de Engenharia
Agrícola do Centro de Ciências Agrárias da UFV, os pesquisadores
registraram as mudanças na refletividade de campos experimentais de soja
e aplicaram os dados em um modelo climático. Os
pesquisadores utilizaram, para as parametrizações, uma plantação
de soja de alguns milhares de hectares na região de Paragominas (PA). Numa
simulação em que três quartos da área de floresta foram
substituídos por soja, a redução de chuvas chegou a 15,7%.
Quando a área foi substituída, no modelo, por pastagens, a queda
de precipitação foi de 3,9%. Atribuímos
essa grande diferença à maior refletividade da plantação
de soja, que absorve menos radiação solar do que o pasto ou a floresta,
esquentando menos a superfície. Isso diminui as precipitações,
pois as chuvas na região são primordialmente convectivas
ou seja, dependem do aquecimento da superfície para formação
de nuvens, explicou Costa. Segundo
o pesquisador, o estudo indica a necessidade de mais estudos sobre os efeitos
microclimáticos das diferentes culturas na região. Precisamos
também saber como essas culturas estão se distribuindo espacialmente
para podermos avaliar a influência climática na Amazônia de
forma mais ampla, disse. Na
próxima fase da pesquisa, a equipe pretende trabalhar com parâmetros
mais realistas de desmatamento. Estamos montando um banco de dados da distribuição
espacial das culturas. Queremos fazer uma revisão dos dados na área
do arco do desmatamento, disse Costa, referindo-se à faixa que vai
do sul do Maranhão até Rondônia, concentrando os desflorestamentos
da região. De
acordo com o cientista, nas duas últimas décadas a floresta amazônica
tem sido desmatada principalmente para dar lugar a pastagens. No entanto, nos
últimos anos, a cultura da soja tem avançado sobre as áreas
de pastagens. O
que constatamos é que, hoje, a soja ocupa 15% das áreas agrícolas
na Amazônia. O resto corresponde, na maior parte, a pastagens. Mas, de 2000
a 2005, a soja cresceu 17% ao ano. Achamos que ela poderá avançar
até chegar a um terço da área agrícola, apontou. Costa
destaca que as culturas agrícolas absorvem quase integralmente a parte
visível da luz solar, que interessa às plantas por ser fotossinteticamente
ativa. Mas outro componente da luz o infravermelho próximo
é quase absolutamente refletido. Isso
é possivelmente conseqüência da própria seleção
genética a que submetemos as plantações. Aplicado em grande
escala, o fenômeno pode ter efeitos climáticos imensos, disse
Costa. |