| Nitrogênio
demais

Fonte:
Agência FAPESP O
homem aumentou a oferta nos oceanos de nitrogênio disponível a organismos
em quase 50%. Além disso, tem influenciado gravemente os ciclos desse elemento
químico na atmosfera e no solo do planeta. As afirmações
estão em dois estudos independentes publicados na edição
de 16 de maio da revista Science.
O aumento tem sérias implicações
para as mudanças climáticas, uma vez que o nitrogênio em excesso
aumenta a atividade biológica marinha e a absorção de dióxido
de carbono, o que, por sua vez, leva à produção de mais óxido
nitroso, considerado ainda mais prejudicial ao aquecimento global do que o metano
ou o próprio dióxido de carbono.
Que o homem tem interferido
no ciclo de nitrogênio, por meio do uso indiscriminado de fertilizantes
na agricultura e da queima de combustíveis fósseis, é algo
que já se sabia. Mas os novos estudos são os primeiros a avaliar
o impacto da produção antropogênica do elemento químico
nos oceanos.
Os estudos foram coordenados por Robert Duce, do Departamento
de Oceanografia e Ciências Atmosféricas da Universidade Texas A&M,
e James Galloway, do Departamento de Ciências Ambientais da Universidade
da Virgínia, ambas nos Estados Unidos.
O segundo artigo conta com
a participação de Luiz Antonio Martinelli, pesquisador do Centro
de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Escola Superior de Agricultura Luiz
de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), e um dos maiores
especialistas no país sobre alterações no ciclo de nitrogênio.
Os dois trabalhos destacam a necessidade de que sejam conduzidos mais
estudos para investigar os efeitos da atividade humana nos ciclos de nitrogênio,
mas são categóricos em afirmar que as conseqüências negativas
nos níveis globais do elemento químico se intensificarão
nos próximos anos.
Duce e colegas descrevem em seu artigo que as
formas de nitrogênio antropogênico já são responsáveis
por cerca de 3% de toda a nova produção biológica marinha.
E a contribuição humana é responsável por cerca de
um terço do óxido nitroso e um décimo do dióxido de
carbono que chega aos oceanos do planeta todos os anos.
Segundo os autores,
essa influência pode reduzir níveis de oxigênio essenciais
na água e tem efeitos sérios no clima, na produção
de alimentos e em ecossistemas espalhados por todo o mundo.
Galloway e
colaboradores destacam os problemas ambientais e de saúde que derivam do
aumento dos níveis de nitrogênio produzidos pela atividade humana.
Eles também apontam o "desequilíbrio extremo" de nitrogênio
que existe atualmente. Os pesquisadores ressaltam a "importância
crítica da redução de nitrogênio reativo [usado por
organismos] no ambiente" e lançam uma série de questões
para serem consideradas por estudos futuros.
"Muito do nitrogênio
antropogênico se perde no ar, na água e no solo, causando problemas
ambientais e de saúde humana em cascata. Ao mesmo tempo, a produção
de alimentos em algumas partes do mundo é deficiente em nitrogênio,
ressaltando as disparidades na produção de fertilizantes que contêm
o elemento químico. Otimizar a necessidade desse recurso importante ao
homem e, ao mesmo tempo, minimizar suas conseqüências negativas requerem
uma abordagem interdisciplinar e o desenvolvimento de estratégias para
diminuir os resíduos que contenham nitrogênio", afirmaram.
"O
ciclo natural do nitrogênio tem sido grandemente influenciado pela atividade
humana no último século - talvez mais do que o ciclo de carbono
- e estimamos que os efeitos destruidores continuem a aumentar. Por conta disso,
é fundamental que ações sejam tomadas para enfrentar o problema,
como no controle do uso de fertilizantes ou na diminuição da poluição
promovida pelo crescente aumento no número de automóveis",
disse Peter Liss, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, que participou
do estudo coordenado por Duce.
19/5/2008 |