Integridade dos ecossistemas deve pautar gestão ambiental em Bonito

Fonte: Agência USP de Notícias (Valéria Dias)

Tufas são formações calcárias que levam centenas de anos para se formar.Os rios, os lagos e as inúmeras cachoeiras da cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul (MS), fizeram do lugar um dos mais importantes pólos de ecoturismo do Brasil. Porém, algumas atividades turísticas realizadas no Rio Formoso, um dos principais da região, podem causar danos ao ambiente.
"Os passeios de bote e o pisoteio por parte dos banhistas podem danificar as tufas, formações calcárias encontradas ao longo do rio, e que são semelhantes a pequenas cachoeiras. Elas levam centenas de anos para se formar a partir da sedimentação do calcário", explica o autor da pesquisa, o biólogo Paulino Barroso Medina Júnior.

O pesquisador sugere que a avaliação da integridade física e biológica dos ecossistemas utilizados para o turismo em Bonito passe a ser usada como ferramenta de monitoramento e gestão ambiental do lugar. "Para avaliar e monitorar o impacto ambiental causado pelo turismo na região, percebemos que a erosão nas tufas e nas margens do rio, bem como a riqueza de invertebrados bentônicos - pequenos organismos que vivem no fundo do rio - são os indicadores ambientais mais adequados do que a simples medição da qualidade da água", informa.

A cidade de Bonito está localizada no Planalto da Bodoquena, a sudoeste do estado de MS, distante 300 quilômetros da capital, Campo Grande. Por ter formação calcária, a região apresenta rios de águas transparentes que oferecem grande visibilidade ao visitante e são muito procuradas para atividades aquáticas, como mergulho e flutuação.

A coleta de dados ocorreu em fevereiro de 2006, no período do Carnaval. Medina Junior analisou 16 empreendimentos localizados ao longo do rio Formoso que oferecem atividades como passeios de bote, arvorismo, trilhas, mergulho, flutuação, banhos no rio e bóiacross, entre outros. "O Rio Formoso tem cerca de 100 quilômetros de extensão. Alguns empreendimentos ocupam 40 metros do rio, outros, dois quilômetros", informa o biólogo, que é professor da Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (UNIDERP) e fiscal ambiental do Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (IMASUL), órgão ligado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente, das Cidades, do Planejamento, da Ciência e Tecnologia (Semac) do MS.

Indicadores adequados
Em cada trecho do rio onde havia atividade turística, o pesquisador recolheu material e analisou as características físicas e químicas da água, os sedimentos (fundo do rio), as tufas, os organismos bentônicos e realizou a caracterização visual do ambiente (presença de erosão, vegetação, condição das margens, ocorrência de habitats para organismos aquáticos ao longo do rio, etc). O biólogo pesquisou também a mata ribeirinha ao longo das duas margens, em uma extensão de 100 metros e a infra-estrutura e as atividades oferecidas pelos empreendimentos.

Erosão nas margens: um dos indicadores ambientais mais adequados para a gestão ambiental.

As análises também permitiram identificar que as atividades em que o visitante apresenta maior contato com o fundo do rio e com as tufas calcárias são as que podem causar maior dano ao ambiente. O arvorismo, no qual o turista tem menor contato com o ambiente aquático, é a atividade que causa menor dano ao rio.

O pesquisador lembra que as áreas visitadas na região são muito sensíveis e que atividades agressivas podem trazer prejuízos. "Usar os indicadores ambientais errados, como o ph e a temperatura da água, por exemplo, para avaliar o impacto ambiental do turismo sobre esses ecossistemas aquáticos pode ser uma estratégia equivocada para monitorar e conservar os ambientes naturais da região. Conseqüentemente, a gestão ambiental da atividade fica comprometida", adverte.

Imagens cedidas pelo pesquisador Paulino Barroso Medina Junior.

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