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Fome Uma importante autoridade
governamental disse outro dia que a proposta de solucionar a fome brasileira
em quatros anos é demagogia da oposição. Comentava
uma declaração de um provável candidato opositor.
Tem um exemplo aqui
em São Paulo, distinta autoridade, se é que o senhor conhece
São Paulo, distinta autoridade. A TV mostrou uma reportagem na
qual uma menina chorava de fome e implorava por um punhado de comida.
No mesmo dia, um montão de gente ofereceu não só
a comida implorada, mas ainda emprego, casa, brinquedos, sei lá
mais o quê, para a família dela. Como dizem os que não respeitam nossa Língua, de grátis. Tem outra campanha rolando, o Natal Sem Fome. Pode até faltar brinquedo para a criançada, mas comida, não. Pode não ter peru, mas feijão com arroz e macarrão, isso é que não. Podia ter alguns livrinhos também, mas aí seria apelar muito de nossa pobre imaginação. E por falar em livros, um grande supermercado, não faz muito, promoveu uma campanha de arrecadação de livros para a Pastoral do Menor - que, a propósito, está concorrendo ao Prêmio Nobel, nobre autoridade sabia disso? Não sei quantos exemplares foram arrecadados, digna autoridade, mas é muito positivo quando uma instituição comercial/industrial move sua estrutura para fins educativos. Eu fui doar uns livros já lidos e tive de entrar numa fila...! E por falar na Pastoral, soube que sua presidenta, a Sr.ª Arns, disse outro dia num programa de televisão que a questão da desnutrição infantil e também de mães desnutridas pode ser aliviada com pouco mais de oitenta centavos mensais, OITENTA CENTAVOS MENSAIS, cara autoridade. Uma fórmula bastante simples: as voluntárias pegam aquelas folhinhas verdes da cenoura, que ninguém come, juntam cascas de ovos, misturam com talos de outras verduras e legumes, enfim, juntam tudo aquilo que geralmente é jogado fora, batem num liqüidificador e fazem um pó que, adicionado à pouca comida que essas mães e bebês comem graças à generosidade de muitos, e dessa maneira esse pó garante a vida, ou sobrevinda, de quem padece a agonia da fome. Uma moça outro dia me contou: alimenta uma família de seis pessoas com cem reais ao mês, menos que uma cesta básica, e sente-se bem demais com isso. Certo, cem reais não é um dinheiro que todo mundo pode desfazer-se a cada mês, mas ela pode e faz e sente-se bem fazendo isso, e sem fazer alarde de sua participação. Têm de ver o sorriso que ela mostra quando volta de cada visita que faz à morada desta família. Um programa televisivo, matinal e dominical, voltado à agricultura, estimou que este ano a produção de grãos deve superar seus recordes anteriores, batendo em cem milhões de toneladas. Como de hábito, uma parte deve ser desperdiçada no campo mesmo, outra no transporte e outra, ainda, no armazenamento antes de ir ao consumidor e/ou ao exportador. Não imagino como governos podem resolver isso, este desperdício, mas imagino que parte da fome pudesse ser solucionada se alguma fatia do dinheiro destinado a acordos internacionais fosse destinada a garantir preços mínimos aos produtores, a criar silos para armazenagem, ou talvez fazer estoques sociais para combater fomos perenes que massacram populações inteiras. Sabem, nobilíssima autoridade e nobilíssimo opositor candidato, vossas excelências estão redondamente enganados. A fome não vai ser extinta em quatro anos, quatrocentos anos ou em quatrocentos séculos. Mas pode ser amenizada em quatro meses. A população,
nós, este povo generoso que somos, mesmo com nossas dificuldades
cotidianas, que autoridade alguma aplaca, ajudamos e na nossa frente
ninguém morrerá de fome. Sempre haverá uma cuia
de farinha para engrossar o arroz com feijão e ovo, alguma verdura,
de todo dia. Sempre um ou outro alguém aparecerá com uns
miúdos de carne de galinha, de vaca, porco. Dê um pouco mais de dinheiro para a Educação, caríssima autoridade. Faça uma campanha entre seu partido, senhor candidato oposicionista, para doação de livros a escolas e bibliotecas. Cidadão que lê, raramente passa fome, fica safo. Sei que aí complica um pouco, porque cidadão bem-alimentado e que lê, exige mais, pensa muito antes de votar e eleger... Mas, voltando à
fome, a gente acaba com este flagelo em quatro meses, sim. Basta vontade
política, senhores autoridade oficial e candidato oposicionista,
só vontade política. O resto, o de imediato, o povo ajuda,
sempre. Sempre ajudou. A demagogia da fome está no poder, nas
candidaturas; aqui, entre nós, o povo, a fome é combatida
como se deve: com comida. E, vez ou outra, com livros.
(*)
Diorindo Lopes Júnior (diorindo@faap.net)
é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (Atual Editora,
SP) e Cesta de 3 (Alis Editora, BH).
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