Ensino, livrarias e ditaduras

(*) Diorindo Lopes Júnior

Sou de um tempo em que escola pública significava educação de alto nível.
Para fazer o ginásio (hoje, 5ª a 8ª série do Ensino Fundamental) havia um vestibulinho e as crianças eram selecionadas e distribuídas, de acordo com sua classificação, entre as escolas estaduais da cidade.

Passei todo o ano de 1968 ("o ano que não terminou", belíssimo livro do jornalista Zuenir Ventura) fazendo um cursinho de admissão, junto com o que era chamado 4º ano primário. Em dezembro daquele 1968 aconteceu o Ato Institucional nº 5 e o regime de exceção instalou-se no país.

Quando as aulas começaram, em fevereiro ou março de 69, o ensino tradicional que fazia a escola pública ser tão concorrida e disputada, havia sido trocado por um tal de "sistema pluricurricular de ensino", ou coisa que o valha (faz tanto tempo...), cuja principal característica era substituir provas narrativas e dissertativas pelo esquema de cruzinhas e as notas, de 0 a 10, por conceitos estranhíssimos - suficiente ótimo (SO), suficiente bom (SB), suficiente médio (SM), suficiente fraco (SF) e suficiente nulo (SN).

O leitor não pode imaginar a dificuldade que enfrentei para explicar à minha mãe que meu SM em matemática não era exatamente o fim do mundo...! Fim do mundo foi ver o professor de Ciências juntar todas as provas, botar um "gabarito" em cima, perfurar todas as folhas com a ponta fina de um compasso e ir dando as notas, na hora.
Até então, eu só havia feito provas em folhas de papel almaço - quatro folhas pautadas em azul cinzento, a margem era em vermelho, no lado esquerdo.. Existem ainda as folhas de papel almaço...?

Pensando nisso, hoje, tenho certeza de que o ensino público começou a ruir ali.
Com a instituição dos conceitos, das cruzinhas, dos gabaritos, da ponta de um prosaico compasso fazendo as vezes de um instrumento de correção, e com o fim das provas dissertativas e descritivas em folhas de papel almaço.

A ditadura militar estava jogando nossa identidade na lata de lixo da História!

Hoje, faz sentido. Um povo ignorante não resiste, não reivindica, não exige e não participa. Abaixa a cabeça a ralos afagos e extasia-se lambendo as migalhas que lhes são atiradas no chão. Graças a Deus, alguns professores (sempre os professores) não compactuaram com a escrotice governista e cuidaram de nos recomendar livros, revistas, jornais alternativos - enquanto os ditadores de plantão não perceberam e começaram a proibir a leitura desses livros e jornais. Um "cuidado" também em vão. Tolinhos, os poderosos armados não atentaram que transgredir é próprio da adolescência, e boa parte da minha geração aproveitou-se desta ignorância fardada e transgrediu o quanto pôde. Lendo e sabendo tudo que era proibido, censurado.

Durante anos, a Educação brasileira leu muito pouco, mas vieram os escritores com uma linguagem voltada para o público infantil e adolescente e esta anomalia, aos poucos, está sendo revertida. Penso que na literatura adulta o mesmo está acontecendo, mas não tenho dados precisos.

Na minha opinião, ainda se lê muito pouco no Brasil, mas a indústria editorial (que vive se queixando, também na minha opinião de barriga muito cheia...) cada vez mais apresenta números crescentes e lucrativos. Recebo periodicamente boletins da Câmara Brasileira de Livros e é impressionante a quantidade de feiras e salões literários que eclodem pelo país, o ano inteiro. Se acontecem, é porque têm público - ou não?

O que ainda não engulo é a minúscula quantidade de livrarias que temos. Disseram-me que só Buenos Aires tem mais livrarias que todo o Brasil - espero que não seja verdade. Megas livrarias estão ocupando os shoppings das grandes cidades, as páginas econômicas de jornais e revistas vivem fazendo reportagens a respeito de seus lucros, mas o grosso do país tem apenas papelarias que, às vezes, também vendem livros.

A Internet veio atenuar um pouco este problema, mas o livro continua sendo um produto bastante caro (como os computadores) e, também pela falta de livrarias, inacessível à maioria da população brasileira - que não bastasse gritantes dificuldades de sobrevivência, volta a enfrentar também a possibilidade concreta de ser relegada à ignorância e ao obscurantismo cultural.
O pior é que, agora, não temos no poder nenhuma ditadura fardada para responsabilizar e xingar. Não seria o caso de um projeto federal que financiasse a abertura de pequenas livrarias em cidades menores, em bairros distantes dos grandes centros? E que também pensasse em baratear os custos de produção dos livros, de financiar mais bibliotecas públicas?
Ou será que, em vez de estar escrevendo essas lembranças românticas, não estaria chegando a hora de eu estar começando a xingar uma ditadura intelectual, que se apresenta como neoliberalismo democrático...?

(*) Diorindo Lopes Júnior (diorindo@faap.net) é jornalista e autor de O Sol em Capricórnio (Atual Editora, SP) e Cesta de 3 (Alis Editora, BH).
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