Vinícius de Moraes: versátil e realizador

Por Priscila Risso

Dizem, na minha família, que eu cantei antes de falar. E havia uma cançãozinha que eu repetia e que tinha um leve tema de sons. Fui criado no mundo da música, minha mãe e minha avó tocavam piano, eu me lembro de como me machucavam aquelas valsas antigas.
– Meu pai também tocava violão, cresci ouvindo música. Depois a poesia fez o resto.

(Entrevista concedida à Clarice Lispector)

Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes, sentindo o dom artístico, aos nove anos de idade foi a um cartório e alterou seu nome para Vinícius de Moraes. Nasceu em 19 de outubro de 1913, no Bairro da Gávea, Rio de Janeiro, e foi criado por pais artistas – a mãe, Lydia Cruz de Moraes, pianista, e o pai, Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta bissexto.

Teve cinco filhos: Pedro, Suzana, Georgiana, Luciana e Maria, de mães diferentes, afinal, ele casou-se nove vezes. Um dia foi questionado pelo parceiro Tom Jobim: "Afinal, poetinha, quantas vezes você vai se casar?". Num improviso de sabedoria, Vinícius respondeu: ''Quantas forem necessárias''.

Bacharel em Letras, também cursou Direito, mas não sentiu muita vocação para seguir a carreira de advogado. Em 1931, incorporou-se ao Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR). Com uma bolsa de estudos do Conselho Britânico, estudou língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford. Trabalhou como assistente do programa brasileiro da BBC.

Em 1936, assumiu o cargo de representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica. Já em 1946, assumiu seu primeiro posto diplomático: vice-cônsul do Brasil em Los Angeles, Califórnia (USA), onde permaneceu por quase cinco anos, sem retornar ao Brasil.

Atuou como crítico de cinema e colaborador no Suplemento Literário do jornal "A Manhã", em companhia de Cecília Meireles, Manuel Bandeira e Afonso Arinos de Melo Franco, em 1941. Iniciou junto com Rubem Braga e Moacyr Werneck de Castro, a roda literária do Café Vermelhinho, no Rio de Janeiro, à qual se misturavam a maioria dos jovens arquitetos e artistas plásticos da época, como Oscar Niemeyer. Dirigiu, em 1944, o Suplemento Literário de "O Jornal".

Colaborou com vários jornais e revistas, como articulista e crítico de cinema. Escreveu crônicas diárias para os jornais "Diretrizes", “A Vanguarda” e "Última Hora", além da revista ''Fatos e Fotos''. Também assinou crônicas sobre música popular para o ''Diário Carioca''.
Sua vida como escritor começou quando estimulado por um amigo, Otávio de Faria, publicou seu primeiro livro, O caminho para a distância, em 1933.Depois disso, foram mais de dez livros publicados e mais de 60 poemas escritos.

Drummond descreve, sem conseguir dissimular sua imensa inveja: "Foi o único de nós que teve a vida de poeta".

Foi amigo de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, Jayme Ovalle, João Cabral de Melo Neto e do escritor chileno Pablo Neruda, teve seus poemas traduzidos para o italiano e para o francês.

Também amante da sétima arte, Vinícius iniciou seus estudos em cinema com Orson Welles e Gregg Toland. Lançou com Alex Viany, a revista ''Film'', em 1947. Escreveu Orfeu da Conceição, obra premiada no Concurso de Teatro do IV Centenário da Cidade de São Paulo em 1954, e que teve montagem teatral em 1956, com cenários de Oscar Niemeyer. Posteriormente foi transformada em filme (com o nome de Orfeu negro) pelo diretor francês Marcel Camus, em 1959, e foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes e com o Oscar, em Hollywood, como o melhor filme estrangeiro do ano. Nesse filme aconteceu seu primeiro trabalho com Antônio Carlos Jobim (Tom Jobim). Já em 1966, participou como juri do Festival de Cannes.

Quanto à música, em 1953, compôs seu primeiro samba, música e letra: "Quando tu passas por mim". Dentre as mais de 300 músicas, as mais famosas são ''Garota de Ipanema'', ''Pela luz dos olhos teus'' e ''Eu sei que vou te amar''. No LP "Canção do amor demais", de músicas suas com Tom Jobim, cantadas por Elizete Cardoso, ouve-se, pela primeira vez, a batida da bossa nova, no violão de João Gilberto, que acompanhava a cantora em algumas faixas, entre as quais o samba "Chega de saudade", considerado o marco inicial do movimento.

Teve outros parceiros musicais: Carlos Lyra, Pixinguinha, o violinista Toquinho, o maestro Cláudio Santoro, a cantora Lenita Bruno, Baden Powell e Edu Lobo. Fez shows com Miúcha, Toquinho e Tom Jobim.

Em 1979, participou de leitura de poemas no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP), a convite do líder sindical da época, Luiz Inácio Lula da Silva.

Voltando de viagem à Europa, sofreu um derrame cerebral no avião. No dia 17 de abril de 1980, foi operado para a instalação de um dreno cerebral. Morreu, na manhã de 09 de julho, de edema pulmonar, em sua casa na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher.

67 anos parece pouco tempo para se fazer tanta coisa como Vinícius de Moraes fez, mas mesmo assim ele as fez com plenitude tanto na poesia, como na música, no cinema e na vida.

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