| Um
sertão universal Por Márcia Busanello Nunca consegui sair incólume das minhas leituras de Guimarães Rosa. Meu primeiro contato com a obra rosiana foi, acho, diferente da maioria das pessoas. Naquela ocasião eu não li A Hora e a Vez de Augusto Matraga, nem tampouco Primeiras Histórias, que é por onde se costuma começar, mas logo e de cara Grande Sertão: Veredas. A responsabilidade por esse fato foi de uma professora de Estudo Literários que tive logo que entrei na faculdade. Havia quem a detestasse, mas eu a adorava. Principalmente porque sempre vi nela uma paixão enorme pelo que fazia; por detrás daquele estudo rigoroso da obra, havia uma apaixonada pela obra. E eu fui contaminada pelo vírus. Desde então tenho lido amiúde as obras de Rosa. Lê-lo é sempre uma grande aventura. É mergulhar no mundo do sertão com as lentes peculiares de alguém que nasceu nele e por ele foi apaixonado a vida inteira. Talvez por causa desta paixão suas obras tenham resultado tão belas e tão desafiadoras. De fato, cada parágrafo se revela um rio de águas turbulentas e fascinantes, cada vocábulo inusitado é um enigma a ser decifrado, cada personagem por ele construído é um mundo a ser descoberto. Suas histórias são as histórias da relação do homem com o sertão, com o universo e com as forças que regem este universo. Seus narradores trazem em si algo de fundamentalmente oral e revivem elementos peculiares aos antigos contadores de histórias. Mineiro, de Cordisburgo, nascido em 27/06/1908, Rosa teve cinco irmãos. Seu pai, entre outras coisas, foi contador de histórias e caçador de onças, e talvez isso comece a nos explicar um pouco a paixão do escritor pelo sertão. Aos 7 anos, começou a estudar sozinho o francês, que viria a ser a primeira das tantas línguas que falava. Além dessa, ele falava alemão, inglês, espanhol, italiano e um pouco de russo. Mas lia e estudava diversas outras línguas, como as clássicas latim e grego, além do lituano, húngaro, sânscrito e tupi. Foi desse caldeirão de léxicos diferentes que saiu a linguagem dos seus livros. Aliás, a esse respeito, ele próprio dizia: "Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente." Formou-se em medicina em 1930, mas ainda estudante estréia com seus primeiros escritos, contos destinados a concursos promovidos por revistas da época. Uma vez formado, vai exercer a profissão na pequena cidade de Itaúna, no interior de Minas Gerais. Neste momento já se pode notar uma característica que foi marcante em toda sua obra - a curiosidade e o respeito que tinha pelas coisas e costumes da terra; tornou-se amigo de praticamente todas as pessoas da cidade. Posteriormente, durante a revolução de 32, trabalhou como médico voluntário e depois enveredou na carreira médica ligada ao exército. Ao longo de sua permanência no convívio de soldados e oficiais mais velhos, Rosa, começou a estudar o mundo dos jagunços. Em 1936, Magma, uma coletânea de poemas, recebe prêmio da Academia Brasileira de Letras. Em 1937, o volume Contos, que mais tarde daria origem ao Sagarana, lhe rende mais um prêmio literário. Nesta obra já se apresenta o universo sertanejo que fizera parte de sua infância e adolescência e a linguagem tão peculiar que caracterizia a maioria de suas obras. Em 1938 ingressou na carreia diplomática e mudou-se para a Alemanha, onde conheceu Aracy, sua segunda esposa. Enquanto viveram os anos da Segunda Guerra Mundial, Rosa e Aracy acolheram e facilitaram a fuga de muitos judeus perseguidos pelo nazismo. Após muitas viagens em carreira diplomática pelo mundo, retornou ao Brasil em 1951, e no ano seguinte empreendeu a célebre viagem pelo sertão, durante a qual teve Manuelzão, Manuel Narde, como guia. Quem participou da viagem conta que Guimarães perguntava tudo e anotava tudo. Conta-se que às vezes ele pedia que alguém disparasse tiros para o alto, a fim de dispersar os pássaros pousados entre o mato baixo só para poder vê-los e perguntar seus nomes aos sertanejos que o acompanhavam. Conta-se também que ele perguntava coisas das mais simples às mais sofisticadas aos homens da expedição, desde nome de flores, arbustos, árvores, até o nome dado a uma determinada cor do céu, a uma determinada forma de pedra, enfim, ele era muito detalhista e perguntador, e tudo anotava em seus infindáveis cadernos. Com o mesmo detalhismo anotava letras de cantigas, anedotas e causos. Manuelzão morreu apenas em 1997, portanto, muito pôde contar de seu amigo Rosa. Ele é um dos personagens que dá nome ao livro Manuelzão e Miguilim, que na verdade é um dos volumes nos quais foi desmembrado Corpo de Baile, lançado em 1956 como continuidade da experiência literária iniciada em Sagarana. O ponto culminante dessa experiência chega com a a publicação de Grande Sertão: Veredas, lançado no mesmo ano. Este é, sem dúvida, sua obra prima, em todos os sentidos. A envolvente história de Riobaldo e seu amor por Diadorim, o mundo e os valores da ética jagunça, as cores de uma paisagem pintada com extrema poesia, paixão e esmero, um linguajar todo próprio e junto com isso, ainda, um universalismo inegável, um filosofar sobre a vida, sobre o bem e o mal, sobre Deus e o Diabo, tudo isso faz de Grande Sertão, uma obra de incomparável valor. Quando de seu lançamento, o impacto causado foi enorme, dadas principalmente as inovações formais que trazia. Para criar a linguagem peculiar dos personagens de seu romance, Rosa não se ateve ao léxico sertanejo tão seu conhecido, mas acrescentou a ele o imenso cabedal de conhecimentos que tinha de outras línguas, principalmente o tupi, e criou uma linguagem absolutamente própria, inimitável, desafio para tradutores do mundo todo. Alguns deles, aliás, foram muito competentes ao traduzir o romance e para isso contaram com orientações do próprio autor, com quem se correspondiam e discutiam a hibridização das palavras, os neologismos etc. É famosa a versão para o italiano feita em 1963 pelo Prof. Edoardo Bizzarri, tanto que em algumas edições brasileiras da obra a primeira página dessa versão aparece. A correspondência entre ele e seus tradutores deu origem a dois livros, editados pela Nova Fronteira - João Guimarães Rosa: Correspondência com seu Tradutor Alemão Curt Meyer-Clason (1958-1967) e João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. Em artigo intitulado
Leituras
Cruzadas: Carta ao leitor, publicado na Folha On Line, dia 27/01/2004,
Oscar Pilagallo, ao falar da correspondência de alguns
autores com outros e de Guimarães com seus tradutores, comentando
a questão da sinceridade e da esponteneidade nas cartas, cita
uma fala do próprio Guimarães: ' Mas atenção, leitor: não confunda esses vícios com a virtude da autenticidade. Eis aí um predicado artístico a ser valorizado. É o que faz Guimarães Rosa, em carta ao seu tradutor italiano. "O sertão é de suma autenticidade", escreveu o autor de "Grande Sertão: Veredas". "Quando escrevi o livro, eu vinha de lá, dominado pela vida e pela paisagem sertanejas." É a melhor chave para a interpretação do mais inventivo dos escritores brasileiros. Sua criatividade vem sobretudo da terra e do matuto, e não dos livros, que ele, erudito, devorava. "Como eu, os meus livros, em essência, são 'antiintelectuais' -defendem o altíssimo primado da intuição, da revelação, da inspiração sobre o bruxolear presunçoso da inteligência reflexiva, da razão, da megera cartesiana.' Em 1963, Rosa candidatou-se pela segunda vez à Academia Brasileira de Letras e dessa vez foi eleito por unanimidade (a primeira havia sido em 1957), mas tomou posse somente 16 de novembro de 1967, três dias antes de falecer (faleceu dia 19/11/1967). No meio daquele ano, no entanto, ainda publicou Tutaméia, uma coletânea de contos. Neste ano ainda foi indicado para o Nobel de Literatura, mas sua morte acabou mudando o curso das coisas. Em seu último discurso, durante a posse na Academia Brasileira de Letras, ele disse uma frase que ficou célebre, de uma simplicidade e de uma profundidade evidentes e que bem poderia ter saído da boca de Riobaldo, seu mais célebre personagem, homem com toda a sabedoria de quem viveu aquela história grandiosa e bela entre as veredas e buritizais do imenso sertão: " a gente morre é para provar que viveu". Rosa decididamente viveu e provou. Seus livros não me deixam mentir, mas como nada nem ninguém fala melhor de uma obra do que ela própria, leia-os, deixe-se levar pelas veredas de Guimarães e aproveite toda a beleza com que ele nos presenteou.
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