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Tantas
pessoas em Pessoa
Pessoa chegou a freqüentar por um tempo o curso de Letras, abandonado em nome da literatura. Conhecido como um dos grandes nomes da literatura portuguesa, teve uma criação artística abundante, atribuída a seu próprio nome e a seus heterônimos, dos quais os mais famosos são Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares (ao longo da vida ele criou mais de 200 heterônimos, a maioria desconhecida do público). Os heterônimos não eram simplesmente pseudônimos com os quais Pessoa assinava suas poesias, iam muito além disso, eram outros poetas criados pelo poeta. Tinham personalidade e estilo próprios, cada um era de fato uma pessoa diferente da outra, dialogavam um com o outro e com o ortônimo, analisavam as poesias um do outro. É um fenômeno intrigante, mas que para Pessoa sempre foi habitual, segundo seu próprio depoimento, em carta a um amigo (Casais Monteiro): "Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas cousas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as cousas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real." Considerando os quatro heterônimos mais famosos, Caeiro é dito o primeiro e o mestre dos outros, inclusive do ortônimo. Nada melhor do que as palavras do próprio Pessoa para descrever o surgimento de Caeiro e de seu O Guardador de Rebanhos: "Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive." Ao surgimento de Caeiro seguiu-se o nascimento de seus discípulos, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. "Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir - instintiva e subconscientemente - uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente, e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos - a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem."
Este último comentário nos remete, aliás, a outra curiosidade a respeito de Pessoa. Ele se interessava por ciências ocultas, estudou cabala, espiritismo, magia, maçonaria e astrologia, esta última com afinco. Além de alguns poemas de cunho esotérico, há muita especulação acerca desses interesses pessoanos. Há quem diga que ele era espírita, há afirmações de que ele chegou a pensar em se estabelecer como astrólogo. Quem sabe? Independente disso, Pessoa foi um moderno. Em 1912 preconizou, em artigos sobre a poesia portuguesa publicados no A Águia, o surgimento de um poeta que superaria Camões (ele próprio talvez?). Alguns anos depois participou ativamente da criação de Orpheu, revista sob cujo signo estavam reunidos escritores de várias tendências, como o simbolismo e o decadentismo, vindos do final do século XIX, e contribuições futuristas e cubistas, atualíssimas na época. Colaborou também com a revista Portugal Futurista. Junto com Sá Carneiro, seu amigo, criou o Sensacionismo, cujo princípio básico, expresso em palavras pessoanas, é "a expressão ser condicionada pela emoção a exprimir". Além disso, em sua poesia encontra-se o que se convencionou chamar de ismos pessoanos (Paulismo, Interseccionismo, Sensacionismo, Paganismo, Futurismo - o que por si só geraria um artigo à parte). Pessoa morreu em 30 de novembro de 1935. Fora internado alguns dias antes, vítima de "cólicas hepáticas". Antes de morrer pediu os óculos, papel e lápis e escreveu "I know not what tomorrow will bring" - Não sei o que amanhã me reserva. Para saber mais: |
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