Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais. Filho de Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond de Andrade, sua família era bastante numerosa. Ainda adolescente foi expulso do colégio interno onde estudava sob alegação de insubordinação mental (bem que ele avisou, mais tarde que era um "gauche" na vida desde pequenininho). Apesar de ter concluído o curso de Farmácia, nunca exerceu esta profissão, mas chegou a lecionar Geografia e Português. Foi também redator-chefe do Diário de Minas.

Em 1922 ganhou seu primeiro prêmio literário, por um conto intitulado Joaquim do Telhado. Em 1924 começou sua correspondência com Manuel Bandeira e pouco tempo depois com Mário de Andrade, que, segundo o próprio Drummond, exerceu grande influência sobre ele.

Em 1928 saiu publicado, na revista Antropofagia, de São Paulo, o poema No meio do caminho, que causou furor. Teve uma produção literária bastante fecunda e seu último poema foi em 1987 - Elegia a um tucano morto - que fez parte de Farewell, último livro organizado pelo próprio poeta. Neste mesmo ano é homenageado com o samba-enredo da Mangueira - No reino das palavras - ganhador do Carnaval daquele ano. Em 1996 sai enfim Farewell, que acaba vencedor do Prêmio Jabuti.

Para Drummond, a função do poeta é fazer versos e com esses versos "produzir emoção, é despertar no próximo um sentimento de beleza, de alegria, de tristeza - mas sobretudo um sentimento de comunhão com a vida", segundo ele mesmo afirmou em entrevista concedida a Edmilson Caminha, em janeiro de 1984, entrevista esta, aliás, imperdível para seus admiradores e que pode ser lida no site www.secrel.com.br. No entanto, ele não se furtou à chamada poesia social e à poesia engajada, como por exemplo, em A Rosa do Povo (1945) e Sentimento do Mundo (1940), que denunciava a ascensão do nazi-facismo.

Drummond é um dos mais conceituados poetas brasileiros e produziu também textos em prosa. Há quem diga que ele foi o primeiro grande poeta pós-movimento modernista. É certo que em sua poesia se observa um grande rigor poético aliado a uma linguagem às vezes até coloquial. Considerada poesia da melhor qualidade, alguns temas são recorrentes, como o passado (representado muitas vezes pela cidade de Itabira). Além disso, o humor é traço sempre presente sem no entanto fazer com que o poeta abandone a sobriedade dos versos. Após sua morte foram descobertos alguns poemas eróticos que não eram conhecidos até então.

E como mais do que mil palavras vale um exemplo, aí vai ele; no caso, um exemplo feito de palavras.

Poema de Sete Faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

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