Papelão

Quase na virada do milênio, foram realizadas diversas palestras, oficiais, que pretendiam aperfeiçoar a capacitação dos mestres.

O que aprimoraram foi a paciência.

Mas, já que estamos no terreno da ficção, depois chegou a vez dos alunos partirem para vôos mais ousados: a NASA promoveu um concurso internacional, destinado às escolas, para que os alunos mandassem projetos sobre "design" de novas asas para as futuras aeronaves norte-americanas.

O vencedor mundial foi Candinho da Anunciação, aluno da 8.ª série F, da EE "Adutora do Rio Bem-Te-Vi", que enviou o desenho de uma asa toda picotada.

O garoto, que chegara à 8ª série "empurrado" em recuperações mais falsas do que uma nota de 22 reais, se regozijou: "Os professores me acham uma besta, mas os gringos estão reconhecendo meu gênio."

O diretor do estabelecimento de ensino, comendador Azambuja Madureira Cabral, já suspendera três vezes o premiado: por quebrar o microscópio da escola, por pichar a frase "Feriado é o que intereça (sic)!" no quadro de avisos e por beijar, sem autorização, a filha da merendeira.

Azambuja, com pouquíssima convicção, foi obrigado a apertar a mão do pestinha, para uma foto de jornal, e a promover uma festa com dinheiro da A. P. M..

Na homenagem, posudo como um senador, Candinho conseguiu que a filha da merendeira autorizasse o beijo e que o delegado de ensino, em pessoa, abonasse as faltas da viagem aos States, para não prejudicar o "jovem Einstein".

Junto à mãe (o pai era desconhecido), Candinho seguiu para a terra de Abraham Lincoln e do Pato Donald, totalmente por conta do governo ianque.

Que prêmio!

Hospedado no "Hilton Hotel", o estudante logo inaugurou uma longa série de mancadas, ao puxar a porta, quando viu escrito "push".

Reclamou à mãe que não entendia nada que a TV dizia, ao contrário da "Globo", e a progenitora replicou:
- Bem feito! Quem mandou trocar o livro de "Ingreis", que a escola deu, pelo CD do "Tchan"!...

Enfim, depois de muito protocolo, Candinho foi levado à presença da constelação científica, na sede da NASA.

E disse (dublado pelo intérprete):
- Puxa, que lugar enorme, dá até pra fazer um videobingo!

Após a tradução, todos riram do "irreverente" Candinho.

Então o Dr. Washington, o "big boss", foi direto ao assunto (o intérprete trabalhou duro para intermediar os próximos diálogos):
- "My dear", você acha que, com tantos buracos, a asa não vai partir?
- Claro que não – respondeu o aspirante a sábio.
- Ah, não!? E qual foi o princípio em que o jovem se baseou para fazer este projeto?
- Foi no princípio do picotado do papel higiênico.
- Vocês conhecem este princípio? Perguntou o chefão aos auxiliares.
- "No! No!" responderam os coadjuvantes, em coro.
- Mas me diga uma coisa, mr. "Candainho", ele resulta?
- Se resulta – respondeu o "empurrado" da 8.ª série - . Há uma coisa que é certa: quando se puxa pelo papel, nunca rasga pelo picotado...

Diante do exposto, eu me pergunto: será que o papel higiênico não está se tornando um bocado emblemático da educação pública, hoje?



Ao Mestre com Carinho Nº 22 - Junho de 2000

Voltar para a Seção Humor
Ver ChargesVoltar para Arquivo
 
Voltar para a Página Principal