Belas artes

Ontem a sala dos mestres da EE “Faraó Ramsés” estava mais agitada que guizo de palhaço: a professora Almerinda, mal pôs os excessivos pés lá dentro, já começou a chamar a atenção dos colegas para um desenho que não fazia jus a seu perfil grego (de Pindamonhangaba). Ela explicou:
— Eu estava em minha aula de História, explicando a importância do chapéu na civilização Ocidental, quando percebi que o Toninho, da 7.ª D, estava alheio à aula, entretido em rabiscar algo. Antes que ele percebesse, arranquei o papel de sua mão. Era — nada mais, nada menos — que a minha caricatura. Sim, aquilo não podia ser o meu retrato, mas uma venenosa ca-ri-ca-tu-ra! E isto enquanto eu me esgoelava para explicar algo docente, digo, decente ao sujeitinho. O pior é que, ao lado do desenho, estava garranchado “a professora Almeirinda”, com “i”. Isto é, além de ser um desenhista das cavernas, ainda é analfabeto. Bem, a prova do delito está aí. Julguem vocês.

Os professores, curiosos, disputaram o papel como se fosse um cheque de um milhão de dólares, até que o dito-cujo chegou ao professor Cincinato, de Geografia. Este mirou-o, com minúcia, depois disse:
— O garoto leva jeito. Procura não copiar somente a realidade, mas usar um pouco sua imaginação.

Almerinda lançou-lhe um olhar tão pontiagudo que, se não fosse a barreira de seus óculos de grossas lentes, teria varado a língua do colega.
A professora Odiléia, de Educação Artística, portanto a “expert” da escola no assunto, divergiu do colega:

— O desenho, tosco, revela indecisão de traços. O nariz, por exemplo, lembra mais uma tomada do que o órgão do olfato. Além disso, as cores nem se aproximam da textura da pele humana. Nem como expressão fauvista pode ser levado em conta.

A professora substituta Pilar da Cruz veio defender, frontalmente, a colega:

— Se o desenho está bom ou mau, isto não vem ao caso. A atitude do aluno é que importa. Desrespeitou duplamente a professora, não se importando com sua explanação nem com seu amor-próprio. No lugar dela, eu teria levado o Picasso da Favela Marcolino à diretoria, para que o professor Calheiros convocasse os pais do infeliz.

A professora Shirley Temple da Silva, de Educação Física, a última a ver o desenho, sugeriu maneirosa hipótese:
— Será que não é uma homenagem à professora, de quem ele, no fundo, gosta?

Almerinda, diante de tantas controversas opiniões, começou a se irritar com os colegas, a se avermelhar como um vulcão, prestes a soltar um sonoro impropério, mas outro barulho mais poderoso cobriu todas as palavras: a sirene do fim do recreio.

A professora de História recolheu o desenho, guardou-o no diário de classe e ficou ruminando uma vingança, enquanto se dirigia à sala de aula.

Às suas costas o professor Gabi, de Ciências, comentou com os seus botões (do guarda-pó):
— Um autêntico retrato... falhado!

Ao Mestre com Carinho Nº 22 - Junho de 2000

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