Valentia

A EE “Carlos Magno” está festiva: seu diretor, Theophilo Schiavo, aposenta-se após décadas de desilusões funcionais, úlcera e gravatas de todas as cores. Mas a ocasião não é propícia a ressentimentos, por isto ele resolve se descontrair à mesa da sala dos professores, toda enfeitada de brigadeiros, sorrisos matronais, salgados, rosas e ponche.

O professor Lomelino, de Matemática, em nome de seus colegas, faz um discurso gago saudando o homenageado que, para retribuir o clima de alegria, resolve contar, com o fundo musical de suas vibrantes dentaduras duplas, um episódio de sua longínqua infância.

Theophilo relata que era um garoto robusto e prestativo, por isto foi convocado por padre Taumaturgo, seu professor de Educação Religiosa no grupo escolar, para conduzir um pesado crucifixo metálico durante a procissão da Semana Santa.

Após o evento, em conversa com o vigário, o suado Theophilo, a propósito de nada, começou a falar de valentias; então não pôde furtar-se de dizer:
– Jesus, por exemplo, foi um grande valentão.
– Jesus valentão?
– Claro. Não é valentão quem agüenta uma cruz daquela às costas?
– Tem razão, caiu em si o vigário, não tinha pensado neste ângulo.
– Pois olhe, seu padre, ele era valente, mas sei de alguém que foi muito mais.
– Heresia!
– Que é isto, padre Taumaturgo?
– Pecado contra a Igreja.
– Mas o que eu disse não é pecado e sim a pura verdade.
– Mais valente que Jesus?! Duvido!
– Foi mais valente sim.
– Mas, afinal, quem é ele?
– Eu.
– Você, seu pirralho?! Você, mais valente que Cristo?!!
– Eu mesmo, seu vigário.
– Que moleque mais safado! Não tem vergonha na cara de me dizer isto?!
– Não fique bravo, padre. Sou católico animado. Não levei de boa-vontade a cruz na procissão?
– Sim, é verdade: mas então ...
– Por isto mesmo é que sou mais valente que Cristo.
– ?????
– Cristo carregou apenas a cruz, mas eu, na procissão, levei a cruz com Cristo e tudo...

Padre Taumaturgo, surpreso, não sabia se arrebentava o hissope na cabeça de Theophilo ou ria...

Todos, na sala dos professores, optam pelo riso.

Mas Theophilo aposenta-se precariamente.

Sua esposa, quando o reumatismo der uma folga, terá que vender, com valentia, pastéis de banana na rodoviária.

Ao Mestre com Carinho Nº 21 - Maio de 2000

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