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Após três aulas estimulantes, com garotos que só pensam no Corinthians e alunas nos galãzinhos das novelas globais, os mestres se dirigem à sua sala, o virginal abrigo da EE "Peter Pan". Aí o que seria apenas um cômodo neutro, transforma-se, num piscar de olhos, na imortal Torre de Babel. Embora todos falem o mesmo idioma, os assuntos cruzados, à viva voz, formam um som caótico que é impossível reproduzir aqui ou na China. Às vezes, na pausa para o cafezinho e outras necessidades, a sala silencia por alguns segundos, dando oásis aos ouvidos. Mas, logo depois, tudo recomeça, com mais fôlego. A professora Valdete desabafa, a quem quiser ouvi-la, sua vida canina: o marido chega todo dia em casa, após o trabalho, e beija o totó, antes de dar um "oi". Outra professora, Edwiges, tem a mania de imitar a Gal Costa: canta como uma sereia... de ambulância! Então, interrompendo receitas de bolo, queixas contra alunos rebeldes e salários microscópicos, piadas cabeludas, surge o diretor efetivo. Aí a situação engrossa mais que petróleo no oceano, pois ele só entra no recinto para transmitir alguma "boa nova" da Secretaria da Educação. Ao ouvir o mensageiro dos deuses, olhares fuzilantes, imprecações, pensamentos bélicos e ódios incontroláveis andam pelo ar. Um dia destes, contaminados pelo clima cortável com tesoura, os professores Élvio, de Literatura, e Zeca, de Geografia, quase entraram no braço. O motivo? Zeca, num momento de gozação, disse ao colega: "Pô, Élvio, três quartos do mundo estão cobertos por água e você fica infernizando a vida dos alunos com o livro "Vidas Secas"! Foi a gota que faltava. Se não fosse o gongo do recreio findo, deslocando a luta para a sala de aula, o cômodo neutro, que já se transformara em Babel, mudaria para Batalha de Waterloo. De qualquer modo, é sempre um prazer esta pausa que refresca no virginal abrigo da EE "Peter Pan"... Ao Mestre com Carinho Nº 19 - Março de 2000 |
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