Minha fumaça inesquecível

Em minha infância, uma das seções mais populares da revista “Seleções da Reader´s Digest” era “Meu Tipo Inesquecível”, que se referia a pessoas algo peculiares.

Se eu tivesse que apontar alguém da mesma linhagem, na E.E. “Ministro Pafúncio Boaventura da Rocha”, me lembraria imediatamente do falecido Professor Noêmio da Nóbrega, de Ciências.

Alto, magérrimo, cabelos sem pente, óculos míopes, suspensórios de plástico, era uma caricatura ambulante, mas pessoa com biblioteca em casa.

Polemizava, ardentemente, com quaisquer censores de seu único vício, o charuto.

Por isto, não se cansava de guerrear com os colegas, que não o permitiam na sala dos professores, à hora do recreio, quando acompanhado de seu fedorento charuto baiano.

A professora Maura, de História, cabelos pintados e lábios de fel, era a que mais o enfrentava, perdigoto a perdigoto, desferindo sua indefectível frase:
- Se quiser bancar o dragão, fique na lua, com São Jorge!

O professor Tamerlão, de Inglês, que já era mais complacente com o colega, pois deixava, às vezes, fumar de contrabando no banheiro masculino, nem por isto perdia a oportunidade de espicaçá-lo, falando:
- Aberrações como apagador, giz, lousa e fumaça com sobrenome, em plena era tecnológica, só acontecem mesmo na periferia!

Se todos os mestres pudessem se expressar pela boca assimétrica da professora Valdelíria, de Português, teriam dito:
- Não queremos câncer no pulmão por atacado.

O diretor do estabelecimento de ensino, Brandãonzinho, um tipo inesquecível do avesso, tinha cara de “Diário Oficial”, corpo sem 3ª dimensão e, com perdão da má palavra, hemorróidas.

Embora fumasse seu cigarro de palha amoitado na diretoria, vivia alertando Noêmio:
- Não se atreva a fumar na sala dos professores e muito menos no pátio, para não dar mau exemplo aos alunos. Se quiser, enfie-se no armário das vassouras ou será cortado do livro do ponto por poluir a escola.

Uma vez, quando o diretor o repreendeu, não em particular, mas publicamente, diante de professores, alunos e alguns pais, Noêmio sentiu-se humilhado e reagiu:
- Desafio o senhor a encontrar em qualquer texto de Piaget, Montessori, Illich ou Paulo Freire uma linha sequer que proíba o uso de charuto numa escola! Figuras importantes como Freud, Churchill, Grouxo Marx e Villa Lobos só tiravam o charuto da boca para tomar banho! Brandãozinho ficou mais inho ainda.

Noutra ocasião, a professora Cacilda, de Geografia, escreveu com pincel atômico, numa cartolina, a seguinte mensagem antitabagista: “Proibida a entrada de charutos estranhos ao serviço.”

E afixou na porta da sala dos mestres.

Noêmio, diante da agressão, sacou de sua “Bic” ponta fina e disparou: “Pelo jeito, só charutos de repolho e carne é que têm vez neste santuário”.

Apesar das controvérsias que acendia, Noêmio, sempre competente, conseguia interessar os alunos na parafernália do laboratório (microscópios, tubos de ensaio, bicos de Bunsen, esqueleto descarnado de dentes irônicos etc.) e em suas explanações pitorescas.

Freqüentemente dentro do almoxarifado, por gentileza do caseiro da escola, lançava sua fumaça escondida, através da qual divisava um mundo de cachimbo da paz.

E, retornando à sala dos professores, já descharutizado, resmungava aos colegas:
- Vou pedir remoção para Cuba, onde o Presidente me apoiará!

Noêmio da Nóbrega, a estas horas, deve estar aumentando as nuvens do céu com seu charuto.

Ao Mestre com Carinho Nº 25 - Setembro de 2000

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