Entrevista

A cultura negra e o preconceito

postado em 27 de nov de 2018 03:04 por ANA PAULA LOPES VIEIRA PAIVA   [ 30 de nov de 2018 17:08 atualizado‎(s)‎ ]

Ao decidirmos fazer esta série de matérias sobre a cultura negra no Brasil, não pensávamos em enfocar a questão do preconceito racial; tínhamos a idéia de falar da cultura negra como já falamos e ainda falaremos de inúmeros outros povos que contribuíram para fazer do Brasil esse mosaico de raças. Mesmo sem intenção de falar disto, a realidade se impôs e logo nas primeiras entrevistas percebemos que a cultura africana daqui é intrinsecamente ligada à escravidão e ao preconceito; estes elementos fazem parte da história do povo, assim como o colorido das roupas e da música, o sabor picante dos pratos e tantas outras coisas às quais nos acostumamos tanto que nem paramos para pensar de onde vêm. Portanto, não seria possível falar da cultura sem falar do preconceito.

Durante três séculos o trabalho escravo foi explorado no Brasil, até que a Lei Áurea foi assinada, abolindo a escravidão. Mesmo assim, o fim da escravatura foi uma idéia que demorou mais de um século para amadurecer e foi este um dos mais importantes períodos para a consolidação da cultura negra no Brasil. Nessa fase surgiram os clubes negros, os jornais que pregavam a liberdade, os partidos abolicionistas, os intelectuais, os políticos e os poetas.

Hoje, dono da maior população negra depois da Nigéria, com mais da metade dos habitantes negros, o Brasil conserva os costumes, as crenças, as maneiras e o modo de vida da raça negra, que acabaram originando a chamada cultura afro-brasileira. Na nossa dança, na religião, na música, na comida, no vestuário e na gíria, nota-se uma grande influência da cultura africana que hoje é mais do que nunca preservada, valorizada e praticada.

Convidamos Zezé Motta para conversar conosco sobre a questão racial. Vamos ver o que ela tem a nos dizer?

Você já sentiu algum tipo de discriminação por ser negra, mesmo depois de famosa?

Antes de ser conhecida no meio artístico e reconhecida pelo público, passei muitas vezes por situações de preconceito. Agora não posso reclamar, sou mais respeitada. Mas vejo muitos atores novos desempregados e deprimidos por causa disto. Para quem ainda não se firmou, a situação é bem complicada. Superei o preconceito com muito trabalho, muito emprenho e luta constante.

De uns tempo para cá, tem havido uma valorização do negro na mídia. Pela primeira vez começaram a surgir, por exemplo, revistas e produtos de beleza específicos para pessoas negras. Você acha que essa valorização reflete uma mudança real na sociedade?

Acho que essa valorização tem mais a ver com a pressão de negros intelectuais. A Revista Raça, no ano em que foi lançada, vendeu mais do que qualquer outra. Acho que finalmente os empresários se deram conta de que os negros representam uma grande fatia do mercado, que eles consomem, que também compram. Acho que realmente está havendo uma preocupação em mudar isto, vejo na publicidade, na recém terminada novela das 6h, Estrela-guia, havia uma moça negra e seu namorado, também negro, ambos muito bem sucedidos. Acho que a pequena mudança que está acontecendo neste sentido é boa, porque acredito que se mudarmos isto nos meios de comunicação poderemos mudar a mentalidade das pessoas, já que a mídia é muito poderosa.

Quando questiono produtores e diretores sobre isto, eles me respondem que a TV e o cinema reproduzem a realidade do Brasil, que os negros, aqui, tem um poder aquisitivo menor, que são em geral de classes sociais mais baixas, trabalham como faxineiras, empregados domésticos, serviçais, enfim, que nem chegam às universidades. Me surpreende muito isto porque tem muito negro engenheiro, arquiteto, médico. Existe classe média negra, embora não seja a maioria, só que a mídia não mostra isso. Aí fico pensando que o Brasil vende tanta novela no exterior. Será que ninguém lá fora perguntou que Brasil é este, que só tem brancos? Mesmo minha novela (Porto dos Milagres), se passa na Bahia, onde a população é predominantemente negra, e somos só seis negros no elenco.

Temos, no CIDAN (Centro de Documentação e Informação do Artista Negro), cadastrados hoje 380 atores negros, do RJ, SP e Bahia. E cadê esse pessoal? Você não vê por aí. Acho que para virar este jogo precisamos começar a produzir e dirigir nossas próprias peças, e não ficar esperando os brancos abrirem portas. Se fizermos bem feito, isto dá certo. Não estou falando de usarmos um elenco completamente negro, mas com maioria de atores negros. Não se trata de privilegiar estes atores, mas de criar oportunidades que atualmente não existem.

Acho também que estas conquistas podem ajudar outras classes menos favorecidas a andarem mais em direção à defesa de seus direitos.

Na sua opinião, como o Jorge Amado trata a figura negra em seus romances?

Quando fiz Xica da Silva e Quilombo, as pessoas (algumas do movimento negro) questionavam e até criticavam o Cacá foto do site www.cacadiegues.com.br, dizendo que os filmes eram sobre negros, mas na visão dos brancos. Aí ele respondia que aquela era a visão dele do Quilombo dos Palmares ou da história da Xica da Silva. Quem tivesse outra visão poderia representá-la de outra forma. Acho que a questão do Jorge Amado é igual. Ele escreve sobre a Bahia que ele vê.

Como você sente a repercussão no público, da imagem de uma mãe de santo (a Mãe Ricardina, da novela Porto dos Milagres)? Acha que ainda há algum tipo de preconceito contra o Candomblé?

Gosto muito dela principalmente porque o público gosta muito dela. Nós, atores, precisamos do amor do público. As pessoas me falam que gostam dela, então eu estou fazendo com muito prazer, estou feliz e faço com prazer.

Eu não sabia nada sobre Candomblé, tinha medo até de passar na entrada de um terreiro. Quando saí pelo mundo para divulgar Xica da Silva, as pessoas me perguntavam sobre cultura negra e eu não sabia nada. Então fiz um curso com a antropóloga Lélia Gonzalez e dele fazia parte assistir a um ritual de Candomblé. Já havia um suspeita de que eu era filha de Oxum. No dia em que fomos assistir ao ritual, era justamente uma festa para Oxum. Adorei, achei lindo e descobri que era mesmo filha dela. De lá para cá eu, sempre que vou à Bahia, vou ao terreiro de Mãe Estela, o Ilê Axé Opó Afonjá. Todo final de ano faço um descarrego e de vez em quando jogo búzios. Toda vez que entro em cena, peço licença à Oxum para viver uma filha de Iemanjá e peço a Deus que meu trabalho resulte em algo bom. Durante muito tempo, e ainda acontece, as pessoas acharam que Candomblé e Umbanda eram religião de gente ignorante. Espero sinceramente que a Mãe Ricardina possa ajudar a quebrar esse preconceito.

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