Seu filho está estressado?

Dor de cabeça, insônia, falta de apetite, cansaço. Decorrentes do estresse, esses sintomas, tão familiares para adultos, também podem aparecer nas crianças. Ao pesquisar 56 crianças com idades entre 9 e 30 meses, a psicóloga Cristiane Silvestre de Paula constatou que sobrecarga de atividades, brigas no lar e difícil situação econômica podem alterar o comportamento das crianças.

O que a motivou a pesquisar o tema Estresse Infantil?
Uma das formas de avaliar crianças é através de seu desenvolvimento mental e motor. Como verificamos que 33,9% das crianças das creches que pesquisamos tinham atraso de desenvolvimento mental e 29,6% atraso motor, procuramos investigar quais os fatores de risco que estavam envolvidos nestes atrasos e identificamos o estresse como principal fator. Os resultados da pesquisa mostraram que 96% das crianças estavam expostas a pelo menos um fator de estresse e que quanto maior o número de fatores de estresse, maior o prejuízo ao desenvolvimento infantil.

Em que contexto, dados e referências se baseia sua pesquisa?
Avaliamos o desenvolvimento infantil de 56 crianças com idades entre 9 meses e 2 anos e meio, de duas creches municipais do Embu, através de um instrumento chamado Escalas de Bayley (o mais completo na área). A avaliação de estresse foi feita através de entrevistas individuais padronizadas (instrumento recomendado pela Organização Mundial da Saúde), com cada uma das mães destas crianças.

Quais os principais sintomas e com que idade eles começam a aparecer?
Para avaliar o desenvolvimento de crianças é necessário utilizar instrumentos especializados. Existem vários deles, alguns bem simples, através dos quais a avaliação é realizada em alguns minutos, e outros mais complexos, que levam aproximadamente uma hora (como as Escalas de Bayley). Esta avaliação pode ser feita a partir de um mês de idade, sempre por um profissional, pediatra ou psicólogo.
Em relação aos sintomas de estresse, podemos identificá-los por meio de mudanças no comportamento habitual da criança. Por exemplo, uma criança que era calma passa a mostrar-se irritada ou agressiva; outra passa a dormir e/ou comer mal e assim por diante.

De que maneira a realidade sócio-econômica pode influenciar no estresse da criança?
Em minha tese de mestrado, não comparamos as diferenças que poderiam ocorrer entre grupos de diferentes realidades sócio-econômicas, já que a pesquisa foi feita basicamente com população pertencente às classes C e D. Contudo, como os principais fatores de estresse identificados na mesma (discórdia entre os pais, ser criada apenas por um dos pais, ter sido abandonada recentemente pelo pai e dormir na cama dos pais) poderiam estar presentes em qualquer classe econômica, é possível fazer uma extrapolação e afirmar que qualquer criança pode estar sujeita a fatores de estresse.

Como dosar as atividades extracurriculares como natação e ballet para que elas não contribuam para o aumento do problema?
Hoje em dia, pode haver exagero nas atividades extracurriculares e muitas vezes a criança não tem tempo de brincar. Este exagero pode contribuir para que a criança sinta-se estressada. Podemos fazer uma comparação com um adulto que trabalha 10 horas por dia e que não encontra tempo para relaxar ou para desenvolver atividades de lazer.
É essencial salientar a importância da presença dos pais na vida das crianças. Com o cotidiano cada vez mais cheio de compromissos, eles muitas vezes não têm tempo de ficar com os filhos; este foi um dos fatores de estresse identificados na pesquisa e considerado muito importante.

Que tipo de conseqüências o estresse da infância pode acarretar na adolescência e até mesmo na fase adulta?
Crianças com atrasos de desenvolvimento infantil podem vir a ter pior desempenho escolar e dificuldades em estabelecer relacionamentos afetivos, quando adultos. Porém, acho fundamental ressaltar que estes atrasos são reversíveis na grande maioria dos casos. Se os atrasos forem identificados precocemente, e se não se tratarem de atrasos relacionados à questões orgânicas graves, podem ser contornados com estimulações precoces ou com ajuda de profissionais especializados (psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos, fisioterapeutas etc., de acordo com o caso).

Como deve ser o papel do professor, caso ele identifique um aluno com estresse?
O professor, ou melhor todos os profissionais que lidam com crianças, devem sempre estar atentos para o desenvolvimento destas. Muitas vezes são os primeiros a perceber que uma criança está com um comportamento diferente do habitual e devem então entrar em contato com os pais para, juntos tentarem identificar a causa. Em casos simples, é possível modificar o fator que está gerando este estresse e a criança voltar a se sentir bem. Nos casos em que isto não é possível, devem procurar um especialista na área; quanto mais precoce a detecção de problemas, melhor a perspectiva de resolução.

Que caminhos você indica para amenizar o problema?
Eu diria que uma das formas de amenizar o problema em casa é os pais estarem mais disponíveis para seus filhos, tanto quantitativa quanto qualitativamente. Eles precisam de tempo para estar com seus filhos dar afeto, brincar conversar, contar histórias, ensinar músicas. Em relação às escolas, é possível preparar os profissionais envolvidos nos cuidados com as crianças pequenas para que estejam sempre atentos e possam estimulá-las em caso de problemas.

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