Disseminando a paixão pela leitura

Foto: Moisés Moraes
Suely Rocha
Consagrado como um dos mais importantes programas de promoção de leitura já realizados no país, o Leia Brasil conta com a parceria do Ministério da Cultura, Ministério da Educação, ONU, Fundação Biblioteca Nacional, Unesco, Comunidade Solidária, Fundação Oswaldo Cruz, IBGE e Fundação Vitor Civita, entre outras instituições culturais, educacionais, comunitárias e empresariais. Sua credibilidade é resultado de 8 anos de trabalho sério e de pessoas apaixonadas pela leitura e pelos livros como a professora Suely Rocha que é assessora regional do Leia Brasil – Programa de Leitura da Petrobras no Estado de São Paulo desde 1997. “Quem está promovendo a leitura tem que ter paixão e conseguir passar essa paixão para os alunos”, argumenta Suely, que é professora de Língua Portuguesa, com especialização em Literatura Comparada e Semântica e “viciada em livros”. O Leia Brasil é composto por 16 bibliotecas volantes percorrendo os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. No Brasil, são atendidos 57 municípios, 541 escolas, num total de 550 mil alunos e 16.500 professores por mês. No Estado de São Paulo, o programa atinge 27 municípios, 211 escolas e aproximadamente 200 mil alunos e quase 8 mil professores. O programa tem à disposição 240 mil livros de literatura – 8.500 títulos selecionados pela Fundação Biblioteca Nacional, parceira da Petrobras na iniciativa –, e conta quase 5 milhões de empréstimos de livros por ano.

Suely Rocha concedeu essa entrevista a Ao Mestre com Carinho durante intervalo de curso de capacitação em leitura para professores da rede pública de ensino, em São Paulo. Oficinas como essas são oferecidas a professores de todas as cidades onde o programa está inserido.
Fotos: Moisés Moraes
Alunos da Escola XXX
Alunos da Escola XXX durante dia reservado a leitura. Abaixo, a psicopedagoga Alda Luba, contadora de história pela School of Storytelling (Inglaterra), em curso de capacitação de professores da rede pública
Alda Luba

AMcC – O que é o Leia Brasil?
Suely Rocha – É um programa de incentivo à leitura e formação de leitores, patrocinado pela Petrobras e gratuito às escolas públicas, por meio de três ações integradas: Bibliotecas Volantes, que percorrem as escolas fazendo empréstimos de livros de literatura, vídeos e revistas em quadrinhos para alunos, professores e funcionários; Atividades Especiais, que são desenvolvidas durante o dia da visita das bibliotecas, com o objetivo de transformá-lo em um dia diferente, dedicado especialmente à leitura; e o Programa de Ação Pedagógica, que trabalha a capacitação dos professores em leitura, objetivando torná-los leitores e capazes de desenvolver, com o acervo disponível, práticas renovadas de leituras. Oferecemos um leque bastante amplo de oportunidades aos professores, como curso de formação de professores contadores de histórias, visitas de autores, exposições itinerantes.

AMcC – Vocês trabalham com diversas linguagens?
Suely Rocha – Sim, o caminhão vem equipado com uma televisão e um vídeo – mas o forte é a literatura e a formação do leitor. É muito importante para nós o aluno com o livro na mão. É ele poder entrar no caminhão, folhear um livro, não gostou, pegar outro. Um aluno indicar para outro um livro que tenha gostado e ver que com o tempo ele já vai esboçando preferências.

AMcC – O que o programa busca, o hábito ou o gosto?
Suely Rocha – É o gosto. O forte do Leia Brasil é o não trabalhar com a cobrança em cima do texto que está sendo lido. O hábito é aquela coisa automática, como acordar e ir escovar os dentes e lavar o rosto, apesar do sono. Nós buscamos o gosto, o prazer de você ler alguma coisa. E isso transcende a escola, porque a leitura, como tarefa escolar, torna-se uma carga e dificilmente vai formar o leitor.

AMcC – Como criar o gosto?
Suely Rocha – O professor tem papel fundamental nesse processo, por isso fazemos os cursos de capacitação em leitura para o professor, nas mais diversas linguagens... Existem técnicas que podem ser aplicadas por docentes e educadores em qualquer disciplina... Ensinar a ler não é tudo. Professores de 1.º e 2.º graus são convidados pelo programa a se tornar agentes multiplicadores do hábito de leitura. Para isso, participam de cursos de capacitação, reuniões de reciclagem, oficinas de leitura e de teatro, sob a orientação de técnicos do Programa Nacional de Incentivo à Leitura (Proler).

AMcC – O que vocês querem?
Suely Rocha – Nós queremos incutir a leitura como atividade permanente na condição humana, como expressão da liberdade e realizada com prazer e em todas as áreas do conhecimento e mediada pelas diversas linguagens.

AMcC – Como se faz isso na prática?
Suely Rocha – A ação pedagógica do Leia Brasil pretende formar o aluno-leitor através da mudança de atitude do professor com relação à leitura, pessoal e coletiva, partindo da premissa Professores leitores, alunos leitores. Desenvolvendo a leitura como prática de vida e não confinada às aulas de Língua e Literatura, valendo nota. Com o resgate das narrativas orais e suscitando uma nova relação amorosa com a leitura, principalmente com o texto literário.

AMcC – O dia em que o caminhão vai à escola também é um dia dedicado à leitura?
Suely Rocha – Sim, é um dia diferente. Todos os professores se reúnem e criam atividades de leitura que podem ser contar histórias (feitas por alunos, professores, pessoas da comunidade, pais que se disponham). É um ganho muito grande para a escola. Com atividades a partir do livro lido, teatro, dramatização, placar de leituras, qual classe que leu mais, vamos mudar o final da história, dicas de leitura. Já temos notícias de uma irradiação muito positiva do programa em escolas que estão criando um dia semelhante a este sem estarem incluídas no programa. Se a escola entende a proposta de que o Leia Brasil é um motivador mas que é ela quem deve buscar a solução, a escola se modifica, os alunos e o corpo docente se modificam.

Foto: Moisés Moraes
Dia do Caminhão
Além do fascínio gerado pela sala de leitura e de vídeo na carroceria do caminhão, os caminhões também levam às escolas autores infantis, grupos de teatro e contadores de histórias, que tornam ainda mais fascinante a viagem dos alunos pelo mundo da leitura
AMcC
– Porque a escola não é assim o tempo todo?
Suely Rocha – Porque quebrar a rotina não é fácil. Existe uma história Palavras Andantes, do escritor Eduardo Galeano, que inclusive está no acervo do caminhão, que fala sobre a janela sobre a utopia. É mais ou menos assim: Eu me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos; eu caminho dez passos, ela se afasta dez; então para que serve a utopia? Para isso mesmo, para caminhar. Então este deve ser o nosso objetivo. Uma das competências do mundo moderno é a leitura, é o ser leitor. A escola tem que mudar, se preparar para isso. Não vale dizer que a televisão está competindo com o livro. Eles se complementam. É a mesma coisa daquela história antiga de que com a televisão acabou a era do rádio. Não acaba. A mesma coisa com o computador. Ele é um suporte de textos, com muito material de leitura... e deve ser aproveitado. Tudo é válido para formar um país de leitores.

AMcC – E o professor está lendo mais?
Suely Rocha – Ele lê muito a respeito de pedagogia, teorias da educação e sobre a própria matéria dele. Mas não tem tempo de desfrutar da beleza de uma poesia, nem conhecer o colega de trabalho. Para superar essa situação, criamos os núcleos de leitura dentro das escolas. Os professores gerentes são os articuladores do programa nas escolas e o responsável por organizar nas escolas esses núcleos de leitura, onde os professores há cada 15 dias têm uma hora-aula para trabalhar com leitura. É um encontro de amigos, um bate-papo, um café da manhã com música ou para apreciar um obra de arte. É um dia de troca de leituras.

Foto: Moisés Moraes
Suely Rocha
"Nós queremos incutir a leitura como atividade permanente na condição humana, como expressão da liberdade e realizada com prazer e em todas as áreas do conhecimento e mediada pelas diversas linguagens."
AMcC
– Você acha que a escola é o local ideal para se desenvolver o gosto pelos livros?
Suely Rocha – Sim. Apesar de todas as carências que a escola tem, ela é o palco privilegiado para decidir a formação de leitor. Ela tem todas as condições para que isso possa acontecer. Ela tem um professor, um mediador, orientador, e ela tem o aluno, por outro lado. O professor que se reconhece leitor e sabe do que gosta de ler, pode ter grande sucesso com seus alunos, porque poderá indicar sempre novas leituras, descobrindo, inclusive, o gosto de cada um. A riqueza da sala de aula é a diversidade, você não pode impor a sua leitura, porque cada um tem uma história de leitura, de vida, um momento, e isso é intransferível.

AMcC – O que você diria para animar o professor?
Suely Rocha – Ele tem que perceber que ele é um agente de mudança e que se ele se conformar o dia-a-dia dele vai ser cada vez mais desgastante. Então, a solução está nele. Ele tem que perceber a função social que ele exerce. Ele tem que mudar. Se ele mudar, vai conseguir uma mudança na sua classe. Ele tem que se conhecer como agente transformador. Entender que o papel social do professor é orientar para que tenhamos cidadãos, no sentido pleno, daquele que entende o dia-a-dia, que está com os pés no chão na sua realidade e percebe as suas necessidades mas que também não abre mão do seu vôo, percebendo que tem poder para mudar.

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