Entrevista com Paulo Renato Souza


Ao Mestre com Carinho entrevistou o professor Paulo Renato Souza, possível candidato ao Governo de São Paulo. Paulo Renato é formado em economia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), com mestrado pela Universidade do Chile e Doutorado pela Unicamp. Foi professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, lecionou também na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade do Chile, Católica de São Paulo e Católica do Chile. Na década de 80, foi Reitor da Unicamp e Secretário de Educação do Estado de São Paulo.

Sua imagem foi projetada nacionalmente como Ministro da Educação do Governo de Fernando Henrique Cardoso. Durante sua gestão o MEC deu ênfase ao combate ao analfabetismo, criou os primeiros sistemas de avaliação da educação nacional e conseguiu reduzir efetivamente o número de crianças fora da escola em nosso país.
Não obstante a evolução quantitativa da nossa educação, a evolução qualitativa, tão ou até mais importante do que a primeira, está para acontecer, e o ex-ministro sabe que ainda é preciso muito trabalho para que nossa educação atinja níveis satisfatórios.
Nessa entrevista, Paulo Renato fala da importância da avaliação, da educação a distância e de algumas outras questões relevantes para o panorama educacional brasileiro.

AMcC - Por que avaliar é importante?
Paulo Renato - É importante porque precisamos criar um sistema de educação de primeiro mundo, de alta qualidade. Hoje todos os sistemas são avaliados e existem inclusive métodos criados por organizações não só educacionais, como o Pisa, por exemplo, da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Hoje a educação é vista como algo central na vida do indivíduo. É preciso que as pessoas estejam preparadas para desenvolver qualquer trabalho, e a educação deve contribuir com isso; todas as pessoas precisam ter possibilidade de aprender. Por isso é indispensável avaliar para medir se os sistemas educacionais estão dando conta dessa tarefa.

AMcC - No período da gestão de Cristovam Buarque, o MEC chegou à conclusão de que as avaliações por amostragem eram mais proveitosas do que as avaliações universais. O que o Sr. pensa disso?
Paulo Renato - Acho que o tipo de avaliação feita depende do seu propósito. Não se pode dizer que tem de ser sempre geral ou sempre por amostragem. O SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), por exemplo, sempre foi por amostragem, pois o Governo Federal não é responsável pelas escolas em si, mas pela elaboração de políticas educacionais gerais, como por exemplo a LDB, a política do livro didático, a formação de bibliotecas nas escolas etc., e todas as políticas são baseadas em avaliações. Nesse caso a amostragem é o método mais adequado.

Já se for uma avaliação para o Governo Estadual, por exemplo, é necessário ser universal, ao invés de ser por amostragem, pois o Governo Estadual é responsável diretamente pelas escolas, então precisa conhecer cada uma delas mais particularmente. Da mesma forma o Provão tinha de ser universal, pois o Governo Federal é diretamente responsável pela educação superior.

AMcC - O que o Sr. pensa da ampliação do Ensino Fundamental para 9 anos?
Paulo Renato - Sou favorável aos 9 anos, a partir dos 6 anos de idade. A maioria dos países tem 12 anos de educação básica (fundamental e média), só nós temos 11 anos. É necessário consolidar no jovem a capacidade de aprender e os 12 anos atendem melhor essa necessidade do que os 11 atuais.

AMcC - O que o Sr. tem a dizer sobre a sua gestão no MEC no campo da educação a distância? Há críticas de que foram criados obstáculos em relação a essa modalidade de educação. Sua gestão foi propositalmente conservadora nesse sentido?
Paulo Renato - Discordo disso. Nunca houve tanto estímulo. Conseguimos colocar a educação a distância na LDB, introduzimos a questão dos 20% das disciplinas de todas as universidades podendo ser à distância e fomos os primeiros a credenciar cursos a distância. A EAD é algo que tem muita resistência no sistema educacional brasileiro e fomos pioneiros.

Hoje temos mais segurança para permitir mais porque a EAD evoluiu, há mais materiais específicos para essa modalidade de ensino justamente porque nós fizemos essa abertura. Além disso, a tecnologia evoluiu de maneira a permitir a EAD. Hoje há a banda larga, por exemplo, coisa bem recente, que há alguns anos não existia.

As pessoas tendem a julgar o passado à luz das circunstâncias de hoje. Se você partiu de zero e avançou, é preciso ver isso com olhos daquela época. Não dá para olhar com olhos de hoje e apontar o que poderia ter sido feito, como se as condições na época fossem as de hoje.

AMcC - Um dos objetivos do Fundef era melhorar o padrão salarial dos professores. O Sr. acha que esse objetivo foi alcançado?
Paulo Renato - Sem dúvida nenhuma, especialmente nas regiões mais atrasadas nesse sentido, em que o aumento salarial dos professores chegou a ser de 70%. Nas demais regiões, no conjunto do país, houve um aumento médio de 30% quando a inflação não atingiu 10%, ou seja, houve um aumento real.

AMcC - O Sr vai se candidatar a governador de São Paulo? Em caso afirmativo, qual será a vantagem para a educação, quais são suas idéias com relação à educação para São Paulo?
Paulo Renato - Se eu for candidato e chegar a ser governador, serei o candidato e o governador da educação. Acredito que São Paulo esteja pronto para um grande salto, com ênfase na qualidade da educação e na aprendizagem dos alunos. Tenho um plano para jornada de 6 horas diárias e 9 anos de educação fundamental. A idéia é fazer a escola focar na aprendizagem do aluno, para que todos aprendam.

Já na educação média pretendo expandir mais as escolas técnicas e os cursos profissionalizantes de nível superior.

AMcC - E quanto às universidades estaduais paulistas? Recentemente elas protestaram contra o não aumento das verbas a elas destinadas. O que o Sr. pensa disso?
Paulo Renato - Quanto às universidades estaduais, não se pode dizer que faltem verbas. Apóio o governador (Geraldo Alckmin) no projeto de não elevar a fatia do ICMS destinada às universidades estaduais. São Paulo não pode comprometer o futuro, tem de cuidar da expansão do ensino médio. A verba das universidades é suficiente.

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