Para o professor, o trabalho mais nobre


Professor Litto, coordenador científico da Escola do Futuro

 

"O professor que adota métodos didáticos ultrapassados está enganando seus alunos. Deveria ser punido pelos órgãos de defesa do consumidor por estar oferecendo um produto ‘tecnologicamente’ obsoleto."

A opinião do diretor-adjunto do Instituto de Ciências da Educação da Universidade de Barcelona, o professor-doutor Serafí Antúnez, pode chocar num primeiro momento mas é um alerta que vem sendo brandido já há algum tempo por educadores e especialistas nacionais e internacionais sobre o papel do professor.

"O livro não desaparece. A internet é o amendoim antes do banquete. É o facilitador para achar a informação para o seu trabalho ou para ver o que você gosta de ler. Aí você vai para a livraria, biblioteca e compra o livro ou toma emprestado. Então, todas essas tecnologias vão acontecer no futuro: livros, revistas, cd rom, internet, vídeo, e isso é bom", afirma o professor Litto.
"O mundo mudou, a escola não mudou. A escola tem que mudar", alerta Fredric Michael Litto, coordenador científico da Escola do Futuro, da USP, que há dez anos vem promovendo cursos de capacitação profissional para professores e educadores, criando novos conteúdos para o professores e definindo novas parcerias entre a universidade, a sociedade civil, escolas e diferentes esferas do governo, envolvendo as novas tecnologias
. "Isso não significa dispensar o professor", afirma.

Hoje, segundo Litto, o papel do professor é mais importante do que foi no passado, quando o professor tinha como seu papel a entrega de informação para o aluno, escrevendo na lousa, passando a lição de casa. "Tem nobreza intelectual nisso? Nenhuma. Ele era um repetidor e não criador de novo conhecimento", analisa. Na opinião do especialista, ao invés de perder tempo jogando informação para o aluno, "como dono da verdade", agora o professor tem a tarefa de organizar atividades que façam com que os alunos aprendam. "Dentro de uma filosofia construtivista, que faz com que os alunos realizem projetos de biologia, química, história, português, e vão construindo tijolo por tijolo o edifício de seu conhecimento individual", explica. As gincanas, caças ao tesouro e atividades que envolvam a solução de problemas, segundo o professor, são tarefas que podem garantir ao aluno entender os princípios profundos de todas as disciplinas. "Se o professor joga as informações para eles da forma tradicional, eles não compreendem em profundidade e não têm interesse em aprender. Memorizam as informação para satisfazer o professor na prova, satisfazer os pais ou para passar no vestibular. Isso não tem nada a ver com educação", diz.
Irmã Maria Helena diz que no Mazzarello professor deve estar disponível e aberto para o novo
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Gostar de viver
O jornalista e escritor Gilberto Dimenstein conta que aprendeu com o educador Paulo Freire que "a característica essencial para o professor é gostar de viver". Há, para ele, uma relação direta entre conhecimento e paixão, "assim como numa relação homem e mulher", diz. Na sua opinião, a escola é o lugar onde se administra a curiosidade e o conceito mais importante em educação hoje é a "educação permanente". Para Dimeinstein o segredo da aprendizagem está na observação e na experimentação, o que pressupõe um professor "facilitador dos processos de aprendizagem, com uma postura diferente da arrogância do educador".

No Instituto Madre Mazzarello, em São Paulo, os 100 professores do corpo docente devem estar disponíveis e abertos para fazer cursos e enriquecer seus currículos. Segundo a irmã Maria Helena de Souza, a atualização permanente dos professores é prioridade para a direção da escola e para os 2010 alunos e seus pais.

Na escola estadual Augusto Ribeiro, dirigida pela professora Marisilda Achcar, professores bem entrosados e motivados tem sido a receita para uma educação de qualidade. No Colégio Bandeirantes, a chave do sucesso também tem sido a capacitação de seus professores. Segundo Mauro Aguiar, diretor-presidente da escola, 3% da receita do Bandeirantes – R$ 25 milhões este ano – são investidos em programas de capacitação do corpo docente.

Vera Wey, da Cenp-Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria Estadual de Educação, também afirma que professores comprometidos com o projeto pedagógico da escola são mais importantes do que computadores e laboratórios modernos.

Única fonte de saber
O professor Serafí Antúnez raciocina no mesmo caminho. "O professor não é mais a única fonte de saber. Esse papel caducou. Antes, os alunos só nos pediam instruir. Hoje, exigem de nós muito mais. Temos que ajudá-los a descobrir as coisas, prepará-los para saber e fazer. Antes, bastava ao educador ser um bom docente. Hoje, exige-se que ele seja um comunicador, um diagnosticador, um tutor".

Professor Serafí Antunez, da Universidade de Barcelona (Espanha)
Professor Serafí Antunez, da Universidade de Barcelona (Espanha)
O professor Litto explica porquê. "Cada vez mais pessoas na sociedade moderna vão trabalhar com produção de conhecimento. Isso significa que vamos estar construindo, como os egípcios fizeram, pirâmides de conhecimento daqui por diante, do solo até o céu. O que mais caracteriza esse novo tipo de sociedade é que com tanta gente produzindo informação, a informação do passado fica deslocada para uma segunda posição. Moral da história: não vale a pena gastar muito tempo memorizando muita informação, porque você tem que trocar essa informação para estar atualizado".

Segundo Litto, não dá mais para o professor ver o seu trabalho como "entregador de informação, de conhecimento", como ele foi no passado, escrevendo na lousa: "Primeiro, porque ele faz seleção, que é uma filtragem, que não é bom para o aluno que tem o direito a ver o todo e selecionar o que é interessante para ele". Outra coisa: com tanta informação, não dá para condensar isso em 90 minutos de aula. A Internet e CD roms, que contêm grandes acervos de informação factual, de textos, imagens e sons é uma forma de conter e disponibilizar a informação muito mais eficiente do que foi no passado, com o cuspe e o giz, o professor e o livro-texto.

Isso acontece, segundo Litto, porque no Brasil, que é um país pobre mas 90% das casas têm televisão com controle remoto, "o aluno está acostumado com o mundo interativo, se não gosta do programa, aperta o controle remoto e muda. Quando ele vai para a escola e não gosta do estilo do professor e da matéria, ele também quer apertar o controle e mudar de professor", acrescenta.

O professor tem que mudar aquilo que faz na sala de aula: quem tem que fazer o trabalho é o aluno porque só assim, se o aluno faz a descoberta do conhecimento, aquela informação fica com ele o resto da vida. Se o professor joga o conhecimento ele continua pertencendo só ao professor.

Gasto por aluno/ano rede pública no Brasil – R$ 350,00
Gasto por aluno/ano rede pública nos EUA – US$ 7000

Fonte: professor Fredric Litto

Como criar esse novo professor?

"É só mudar a filosofia das faculdades de educação. Porém, é mais fácil mudar um cemitério do que mudar uma universidade", afirma o professor, com a experiência de 28 anos só na Universidade de São Paulo. "As pessoas não gostam de mudança em nenhum setor, muito menos na universidade. As universidades do mundo todo são fossilizadas. Qual o fenômeno mais interessante em educação nos últimos quatro anos? As universidades cooperativas, ou seja, Motorola, Johnson & Johnson, Volkswagen. Por que? Porque chegaram à conclusão de que as universidades tradicionais, Harvard, MIT, Berkley, não estão acompanhando os ritmos novos das necessidades da sociedade.

As escolas de 1º e 2º graus, diz Fredric Litto, estão mudando muito mais rápido do que as universidades, no mundo todo: "O corpo docente das universidades são os setores mais conservadores e reacionários da educação". Isso está acontecendo "porque a meninada não tem mais paciência com o professor do passado, porque eles estão caminhando com seus próprios pés".

Isso tem uma vantagem, na opinião do especialista: "Agora o professor tem tempo de fazer trabalho mais nobre, o de ser o conselheiro, o guia do aluno, ajudar o aluno a ler as entrelinhas do texto poético, literário ou de história, a interpretar sutilezas. Porque tem certas coisas que a tecnologia não resolve. Só mesmo o professor, com o braço em torno do aluno dizendo ‘olha meu filho, pode ser asssim, ou assim...’."

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