Nada
de receitas. Educação do futuro será marcada pela
aventura da descoberta do conhecimento
Fonte:
Marana Borges, da USP Online (marana@usp.br)
Carteiras,
lousa, giz. A tradicional forma de ensino, em que o aluno vai à
escola assistir às aulas, está fadada a acabar. A educação
do futuro será essencialmente a distância, principalmente
via Internet. Quem diz isso é Fredric Michael Litto, que
já orientou mais de 30 teses sobre a comunicação
e a educação mediadas por computadores. Além de
ser economicamente mais viável pelo fato de não necessitar
da infra-estrutura de escolas normais e poder ultrapassar as fronteiras
entre países, entre cidade e campo e entre classes sociais, essa
modalidade de ensino tem maior eficácia e rompe com a relação
de poder entre educador-educando, garante o professor.
Formado
em Rádio e Televisão pela UCLA (Universidade de California,
Los Angeles) e Ph.D. em Comunicações pela Universidade
de Indiana, Fredric foi professor titular da Escola de Comunicações
e Artes (ECA) da USP até 2003, quando se aposentou. Atualmente
é presidente da Associação Brasileira de Educação
a Distância (ABED) pelo segundo mandato e fundador-coordenador
Científico da Escola do Futuro, laboratório interdisciplinar
de pesquisa da USP que estuda as novas tecnologias digitais de comunicação
e suas aplicações educativas.
A
educação a distância acabará com o professor?
Fredric Litto: Pelo contrário.
Numa sociedade do conhecimento, do futuro, toda pessoa economicamente
ativa terá que fazer um curso a cada ano ou a cada seis meses.
Ninguém mais vai se aposentar futuramente. Quem vai preparar
todos esses cursos para a população? Teremos uma demanda
de professores para toda a população como nunca existiu.
O mercado para educadores que estejam dentro desse novo paradigma da
educação - de não dar o prato feito para o aluno,
mas sim criar aventuras de descoberta do conhecimento - será
glorioso.
O computador
substituirá o professor no trabalho mais chato: corrigir exercícios,
provas. Às vezes o professor não tem tempo para atender
cada aluno e explicar várias vezes uma idéia. Não
é somente o professor sozinho na sala de aula com seu giz e sua
saliva, mas uma equipe. Se ele estiver animado, falará, se estiver
com má disposição, dará uma aula terrível.
Ele falta, a escola fica em greve.
Qual
a especificidade e a vantagem dos cursos a distância?
FL: O elemento mais importante é
a interatividade entre os alunos no fórum de discussão,
que é diferente do chat, da sala de bate-papo. O fórum
é um debate entre os alunos que participam do curso. Nisso os
alunos aprofundam o conhecimento da matéria. Na sala de aula
presencial, quem domina a situação é o professor,
que tem papel ativo, enquanto os alunos têm um papel passivo.
Todas as pesquisas sobre aprendizagem deixam claro que se o aluno tiver
um papel ativo no processo de descoberta do conhecimento, esse conhecimento
pertencerá verdadeiramente ao aluno, e não ao professor.
O novo papel do professor na educação contemporânea
é criar situações em que é o aluno quem
descobre o conhecimento.
Veja, há
uma parcela que não pode se deslocar. Cerca de 10% da população
de todos os países possui alguma deficiência física.
Essas pessoas também têm direito de estudar, e a educação
a distância normalmente é a única forma que eles
têm. O curso vai até a casa deles. Há o caso de
muitos adultos que querem voltar a estudar mas não se sentem
à vontade numa sala com jovens, ou o caso de quem mora muito
longe da faculdade; para eles a EAD é uma boa opção.
O papel ativo
do aluno é possível em uma educação presencial?
FL: Não. Na sala de aula presencial
a dominação do professor é inevitável. Ele
quer fazer sua aula expositiva, pode até responder às
questões dos alunos, mas as relações entre os próprios
alunos não existe e é muito difícil numa sala com
30, 40 estudantes. Quando o curso é reconfigurado para a Internet,
tudo muda. O professor continua sendo o arquiteto, planejando quais
tópicos e leituras serão analisados durante o semestre
etc. Uma vez iniciado o curso, e isso as pesquisas mostram, o professor
fica em segunda importância. As leituras são mais um trampolim
para a discussão entre os alunos, e a grande aprendizagem ocorre
na interatividade entre os estudantes.
Mas a educação
a distância é o único espaço possível
para a relação igualitária entre educando e educador?
FL: Já há no imaginário
social a figura do professor como alguém superior. E, por exemplo,
salas com poucos alunos são inviáveis economicamente.
Além disso, a educação a distância pode ser
muito mais eficaz. Ou seja, não é só uma questão
econômica, mas pedagógica. No Canadá as pesquisas
mostram que um curso universitário pela rede é mais eficaz
na aprendizagem do aluno que o presencial.
Essas pesquisas
podem ser aplicadas ao Brasil?
FL: Podem. Poderíamos usar a
educação a distância para incluir pessoas de outros
países de língua portuguesa e aí formar turmas
maiores. Porque na educação a distância você
precisa chegar a uma escala, ter centenas de alunos para justificar
todo o investimento que foi feito. Confeccionar conteúdo, arte,
música, vídeos etc. requer um investimento muito grande.
A oferta de cursos universitários no Brasil é muito maior
que de muitos outros países.
O MEC exige que
parte do total de aulas de um curso a distância seja presencial.
O senhor acha isso necessário?
FL: Não. O MEC é muito
conservador. Eu confio nas pessoas. Se eu não tiver nenhuma razão
pra duvidar de alguém, não duvido. Na universidade ninguém
fica controlando se o aluno está colando na prova, se foi ele
mesmo que escreveu o trabalho. Tem que haver um sistema de honra. Você
não pode obrigar as pessoas a serem honestas, temos que confiar
nelas. A universidade não pode ser polícia.
Como ficam as
relações humanas somente pela Internet? As relações
virtuais não são impessoais?
FL: Não é um lugar para
namorar. As pesquisas sobre isso mostram que a sociabilidade em cursos
pela web são muito intensas, e surgem grandes amizades,
mesmo que os estudantes morem em cidades ou países distantes.
Isso porque você tem o fórum para discussões acadêmicas,
mas também tem o chat para brincadeiras.
A alfabetização
pode ser feita a distância e pela Internet?
FL: É mais apropriado que seja
feita pela televisão. Cuba, por exemplo, erradicou o analfabetismo
principalmente com a educação a distância via televisão.
A modalidade
de educação a distância é muito antiga?
FL: Começou há 150 anos
na Europa, depois nos Estados Unidos. Eram cursos universitários
e pré-universitários por correspondência, de formação
de especialistas em eletrônica, veterinária etc. Tinha
de tudo. No Brasil essa modalidade começou há cerca de
66 anos com cursos técnicos, como de cabeleireiro, joalheiro.
E não é verdade que só eram procurados por pessoas
de baixa renda. Hoje há 100 mil pessoas no Brasil que fazem esses
cursos por correspondência, muitas delas de renda média
que moram em cidades do interior.
O senhor acha
que ainda existe preconceito contra educação a distância?
FL: Acho que o preconceito já
se foi, porque o Telecurso 2000 por exemplo foi um sucesso extraordinário.
Ao formar 600 mil alunos por ano ele já está preparando
a nova geração de educação a distância
universitária.
De onde vinha
esse preconceito?
FL: A falta de informação.
O Brasil é um país muito paternalista, dondoca, e até
a classe média pega essas manias das classes mais altas. Então
se a classe mais alta vai para a PUC, USP, FGV, ela quer também.
Muitos esquecem (e não sabem) que a educação a
distância poderia atender melhor às suas necessidades.
Qualquer aluno
pode potencialmente fazer um curso a distância?
FL: A educação a distância
não é para todo mundo. Não é para aquele
aprendiz que precisa do mimo e da cobrança do professor. Esse
é um péssimo candidato para a EAD. É preciso um
aluno altamente motivado, maduro, autodisciplinado, com alto grau de
autonomia. Isso faz parte do jogo.
Qualquer curso
pode ser dado a distância?
FL: Sim, inclusive Medicina.
Quais são
as experiências internacionais com a educação a
distância?
FL: As três universidades que
hoje têm maior prestígio na Inglaterra são Oxford,
Cambridge e uma universidade aberta a distância, que já
tem 30 anos de existência. Há uma universidade aberta a
distância na Índia, a Indira Gandhi National Opened University
(IGNOU), que tem um milhão e meio de alunos. Não é
necessário fazer vestibular para ingressar na instituição,
e é uma universidade séria e respeitadíssima, o
aluno tem que sobreviver às disciplinas. Lá só
tem cursos a distância. Na Austrália, a University of Southern
Queensland possui 7 mil alunos estudando bacharelado, mestrado e doutorado
via Internet. Não há interferência direta de um
professor real, a não ser que o aluno solicite.
O Instituto de Tecnologia
de Massachussetts (EUA) gastou 10 milhões de dólares para
disponibilizar gratuitamente na Internet o conteúdo de todos
seus cursos de graduação e pós-graduação.
Não seria bacana que todo o conteúdo da USP, UNESP e UNICAMP
fosse disponibilizado na rede para qualquer pessoa? Os gastos poderiam
ser pagos pela Fapesp. Seria a maior contribuição do Estado
de São Paulo para a educação no Brasil. Isso ajudaria
a melhorar as outras universidades, principalmente particulares, que
não tem cursos tão bons. São nossos conterrâneos,
que não têm acesso a grandes acervos de conhecimento.
Isso diminuiria
o mito de que essas universidades são inacessíveis?
FL: Sim, mesmo que não fossem
emitidos diplomas, as pessoas teriam acesso a um conhecimento privilegiado.
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